Repórter de Negócios
Publicado em 10 de janeiro de 2026 às 15h03.
A captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro por uma operação dos Estados Unidos virou, para o economista e vencedor do Nobel de economia Daron Acemoglu, um divisor de águas do direito internacional — e um teste de estresse para a chamada “ordem baseada em regras”, a expressão usada por governos americanos para defender intervenções externas como forma de sustentar democracia e direitos humanos.
Em artigo publicado na última sexta-feira, 9, no Project Syndicate, Acemoglu argumenta que o episódio “arrancou a máscara” do discurso tradicional de Washington.
“Ao abandonar qualquer pretensão de defender a democracia ou os direitos humanos por meio de sua intervenção na Venezuela, o governo Trump arrancou a máscara e demonstrou a insustentabilidade da ordem global liderada pelos EUA”, escreveu.
A leitura do economista se apoia num ponto: intervenções americanas não são novidade, mas — na visão dele — havia um verniz de legitimidade que hoje se perdeu.
O pano de fundo é a própria crise institucional nos EUA, que, segundo Acemoglu, dificulta a existência de freios e contrapesos capazes de impor responsabilização a atos externos.
O caso ocorre dias depois de uma operação americana que resultou na retirada de Maduro do país e na ascensão interina da vice-presidente Delcy Rodríguez.
No texto, Acemoglu chama Maduro de “ditador brutal” e lista acusações de repressão, fraude eleitoral e perseguição a opositores. Ainda assim, afirma que o ponto central não é defender o governo venezuelano, mas questionar a lógica que, segundo ele, guiou a ação americana.
Ele diz que a justificativa formal — como suspeitas de narcotráfico — ainda dependeria de provas públicas, e sustenta que sinais emitidos pelo presidente Donald Trump indicariam uma motivação econômica.
"As frequentes menções de Trump ao petróleo venezuelano e ao dinheiro que as empresas americanas supostamente lucrariam sinalizam a todos que não se tratava de ajudar os venezuelanos comuns ou fortalecer a democracia. Tratava-se, na verdade, de promover descaradamente os interesses dos EUA e das corporações americanas”, escreveu.
A discussão sobre petróleo e interesses corporativos ganhou tração também no noticiário: na última sexta-feira, Trump cobrou de grandes petroleiras americanas um plano de investimento de até US$ 100 bilhões para reconstruir a indústria de óleo na Venezuela, sem dinheiro do governo — e sob promessa de “segurança” para operações.
Acemoglu usa, ainda, a escolha de Washington por apoiar provisoriamente Delcy Rodríguez, em vez de lideranças opositoras, como evidência de que a prioridade não seria uma transição democrática. Na formulação dele, o que muda agora é a ausência do “verniz”: “Tudo o que resta é o egoísmo e o interesse próprio mesquinho", diz.
O economista relembra intervenções americanas no século 20 e afirma que mesmo ações “cínicas” eram vendidas como parte de uma disputa ideológica na Guerra Fria, quando os EUA podiam alegar defesa da democracia contra o autoritarismo soviético.
Ele cita exemplos em que esse discurso teria sido, nas palavras dele, um eufemismo — como Congo (Patrice Lumumba), Irã (Mohammad Mossadegh) e apoio a ditaduras na América Latina.
Mas argumenta que havia um mecanismo que hoje parece mais frágil: investigações e supervisão institucional, como as audiências do Comitê Church no Senado americano, em 1975, que investigaram atividades ilegais da CIA.
A consequência, na visão de Acemoglu, é que a ideia de “ordem baseada em regras” perde o chão quando um país consegue “depor” líderes estrangeiros unilateralmente e, ao mesmo tempo, enfrenta erosão doméstica de controles institucionais.
Acemoglu sustenta que o termo “ordem baseada em regra” carregava uma premissa: regras definidas e, em grande medida, aplicadas pelos EUA como hegemon. Para ele, essa premissa já não se sustenta.
Ele aponta queda de soft power, poder de influência, e a ascensão da China como rival econômico, militar e tecnológico — o que exigiria “uma nova abordagem” para qualquer arquitetura internacional que queira ser chamada de baseada em regras.
É nesse ponto que o artigo migra do diagnóstico para uma proposta: Acemoglu recorre ao filósofo Michael Walzer para defender um princípio de presunção de legitimidade dos governos — com exceções em casos extremos, como genocídio — e, sobretudo, um processo multilateral para declarar a perda dessa legitimidade.
Na prática, ele quer reduzir espaço para decisões unilaterais e separar o “julgamento” político-jurídico das ações militares ou econômicas que possam vir depois.
Daron Acemoglu é professor do MIT, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts, referência mundial em economia e engenharia.
Ele é conhecido por pesquisas sobre como instituições políticas e econômicas moldam desenvolvimento, desigualdade e prosperidade — e por livros de grande circulação, como Why Nations Fail, Por que as nações fracassam. Em 2024, recebeu o Nobel de Economia (o prêmio do banco central sueco em memória de Alfred Nobel) por estudos sobre diferenças de prosperidade entre países e o papel das instituições.