Vale está pronta para retomar dividendos, a depender da pandemia, diz CFO

Luciano Siani afirmou ainda que as incertezas dependem também do comportamento da China, destino da maior parte das exportações da mineradora brasileira

A mineradora Vale encontra-se apta para retomar a política de pagamento de dividendos a investidores e, para tanto, depende apenas da redução de incertezas relacionadas à pandemia do coronavírus, disse o CFO da companhia, Luciano Siani, nesta quinta-feira.

Durante participação em live promovida pela XP Investimentos, ele afirmou que as incertezas dependem do comportamento da China, destino da maior parte das exportações da Vale.

Caso a política de dividendos não seja retomada, a Vale completará em setembro dois anos sem distribuição dos pagamentos. A política foi suspensa após a queda da barragem de rejeitos de Brumadinho, em Minas Gerais.

Os preços internacionais do minério de ferro tendem a recuar no segundo semestre, à medida que a mineradora brasileira pretende retomar parte de seu potencial produtivo.

Após um primeiro trimestre fraco, no qual a companhia teve de reduzir seu guidance para 310-330 milhões de toneladas em 2020, em meio a atrasos na retomada de produção de minas paradas após Brumadinho e impactos do coronavírus, o executivo sinalizou que a empresa estará em posição de ofertar maior volume.

Para o segundo semestre, o CFO disse que a meta da Vale é acelerar o ritmo de produção, em relação ao registrado nos seis primeiros meses de 2020, e atingir o objetivo anual, que já considera um provisionamento de perdas associadas à pandemia em 2020 de até 15 milhões de toneladas.

“[Com isso], os preços do minério de ferro devem cair no segundo semestre. Mas é melhor a companhia produzir com sua potencialidade em um mercado menor [de valor] do que ficar [com preços altos] na situação de restrição [de produção] e favorecendo seus concorrentes”, explicou ele em live promovida pela XP Investimentos.

Durante a pandemia do novo coronavírus, a Vale viu algumas de suas minas do Complexo de Itabira, em Minas Gerais, serem interditadas judicialmente devido ao surto da doença entre funcionários, mas as operações lá já foram retomadas.

Anteriormente, a Vale disse à Reuters que está “enfrentando o desafio da covid-19, atuando em suas operações com um contingente mínimo de pessoas de forma a manter apenas as atividades com segurança.” A empresa chegou a informar que tinha cerca de 60% de trabalhadores nas operações.

“A companhia quer retomar a produção, mas retomar de maneira segura”, afirmou o CFO.

Siani admitiu que a alta nas cotações externas do minério de ferro registrada nos últimos meses foi causada, inclusive, pelo cenário desafiador da companhia, tradicionalmente a maior produtora global de minério de ferro, que em 2019 perdeu o posto para a Rio Tinto, como consequência de Brumadinho.

“A razão do preço elevado no minério de ferro foi a própria incapacidade da Vale de trazer produção para o mercado”, enfatizou.

No início de junho, o minério de ferro no mercado físico da China atingiu o maior nível em quase um ano, em meio a preocupações com Itabira, a commodity perdeu um pouco da força recentemente, mas ainda está sendo negociada acima de 100 dólares por tonelada.

Sem grandes aquisições

Com um passado recheado de aquisições vistas hoje como equivocadas, a Vale não deve ser uma player de peso no mercado de fusões e aquisições, muito embora alguns ativos estejam em valores mais atrativos, o que faz crescer os rumores.

Segundo Siani, mesmo que grandes aquisições estejam descartadas, até porque a administração da empresa tem na mesa outros assuntos prioritários, algumas pequenas compras, como a de uma pequena mina em Minas Gerais anunciada no início do ano, podem acontecer.

Outro setor que está no foco é o de energia renovável, visto que a mineradora tem a meta de se tornar autossuficiente. Essas aquisições, disse, têm um custo “marginal.”

Sem aquisições “de vulto” no horizonte, com um patamar de dívida líquida adequado e investimentos muito mais baixos do que os vistos no passado, a Vale não terá grandes destinos ao capital, o que aumenta a expectativa sobre seus dividendos, que estão com os pagamentos suspensos desde a tragédia de Brumadinho.

Com uma geração de caixa em temos normais ao ano entre 13 bilhões e 15 bilhões de dólares, a Vale deverá direcionar esse dinheiro para os acionistas.

“Esse dinheiro não pode ter outro destino a não ser retornar aos acionistas. Portanto, se essa geração de caixa continuar forte, se os preços continuarem em um bom patamar, se a companhia conseguir retomar sua produção com segurança, a tendência, de fato, é que ela venha a remunerar o acionistas e nesse ambiente de taxas de juro muito baixas, alguns analistas veem uma oportunidade na companhia.”

Barragens

Segundo Siani, a Vale está trabalhando com afinco para provar a todo o público que suas barragens são seguras, um trabalho necessário após a tragédia em janeiro do ano passado em Brumadinho, quando quase 300 pessoas morreram.

Ele disse que a empresa colocou como uma de suas “aspirações” transformar a Vale “em uma das companhias do setor de mineração mais seguras do mundo”, e que hoje a empresa está analisando toda a estrutura de suas barragens, algumas muito antigas, para ter o conhecimento claro da situação de cada uma.

“A Vale em 2018 estavam diante de um grande reconhecimento internacional, por mudanças da governança, qualidade de seu produto, com o minério de alta qualidade mostrando seu valor e o minério da Vale sendo negociado com um prêmio expressivo”, comentou Siani.

Agora, após Brumadinho, Siani disse que a Vale está muito mais sensível a questões sociais, por exemplo. “Queremos estabelecer um novo pacto com a sociedade brasileira, não só que a mineração é uma atividade essencial, mas que traz prosperidade”, afirmou.

Nesse sentido, a Vale colocou como prioridade questões relacionadas ao ESG – ambiental, social e de governança. Assim, a Vale está comprometida com o Acordo de Paris, tendo como meta reduzir suas emissões entre 40% e 50% até 2030. Outra questão que a Vale diz olhar com atenção é a preservação de florestas.

Siani reconhece que investidores, desde o ano passado, ainda não estão confortáveis em investir na Vale, dada a percepção de que a companhia ainda precisa fazer mudanças. Por isso a companhia brasileira está sendo negociada hoje com múltiplos “muito aquém de sua capacidade de gerar riqueza.”

É por causa desses questionamentos, ainda, que a Vale é negociada com um desconto em relação às suas concorrentes. A distância de valor entre a Vale e a australiana Rio Tinto, por exemplo, que subiu para 30 bilhões de dólares depois de Brumadinho, está hoje em 40 bilhões de dólares, com a percepção do mercado de que a Vale terá dificuldade de produzir, por causa da pandemia. A companhia, contudo, vai priorizar uma produção segura, disse.

“A Vale está sendo penalizada pela percepção de risco dos investidores e que as práticas precisam evoluir”, destacou Siani.

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