Pioneiro do ESG no Brasil vê com “amor e ódio” leva de fundos sustentáveis

Em entrevista exclusiva, Fábio Alperowitch fala de “oportunismo” no mercado e diz que quem não se adequar “será atropelado”

Enquanto as discussões sobre o desenvolvimento sustentável emergiam na Eco-92, que concentrou cerca de 180 chefes de estado no Rio de Janeiro, uma voz dissonante nascia no mercado financeiro paulista. Com apenas 20 anos, Fabio Alperowitch e seu colega de estágio Mauricio Levi, então com 22 anos, fundaram a FAMA Investimentos, aquela que seria a primeira gestora do país a seguir os parâmetros de investimento ESG.

A sigla, que em inglês significa ambiental, social e governança, tem ganhado cada vez mais relevância. De acordo com levantamento da Morning Star, o número de novos fundos ESG deve bater recorde neste ano nos Estados Unidos, com 23 lançados somente no primeiro semestre. Movimento semelhante também está em curso no Brasil e ganhou ainda mais força durante a pandemia da Covid-19.

Em entrevista exclusiva a EXAME, Alperowitch comenta que o momento ajudou a reforçar a conscientização sobre temas sociais e ambientais, com o maior respeito à ciência e a necessidade de ajudar o próximo, mas diz ver com “um misto de amor e ódio” o lançamento de novos fundos ESG. “Quanto mais gente pressionando as companhias para serem responsáveis em todos sentidos, a gente vai ter um mundo melhor. Mas esses são temas extremamente complexos e estão sendo tratados com uma superficialidade gigantesca.”

Alperowitch também acredita que a precificação de carbono, já implementada em dezenas de países, fica ainda mais próxima de se tornar uma realidade no Brasil dependendo do resultado das eleições americanas. Segundo ele, o mecanismo irá provocar mudanças na dinâmica econômica com impactos diretos em grandes companhias do Brasil. “Vale e Petrobras perderão – e muito – valor de mercado.”

“Tem um grupo que pensa ‘isso aqui é um monte de mimimi, um monte de bobagem’ – esses serão, em algum momento, atropelados. Vai ficar comprado em Petrobras e Petrobras vai perder seu valor”, afirmou.

Confira a entrevista:

O desmatamento da Amazônia se tornou mais relevante? Por que o mundo está preocupado com isso?

O desmatamento na Amazônia não é algo novo. Mas o assunto voltou com bastante força, porque preocupações com relação às alterações climáticas vem ganhando força no mundo inteiro por respeito à ciência, preocupações com humanidade, etc. A única forma de conter a mudança climática é reduzir a emissão de carbono ou sequestrar carbono. Mas o principal ativo do mundo que teria capacidade de sequestro de carbono está sendo maltratado. Então o mundo inteiro joga os olhos paro o Brasil. Acho que esse holofote entra agora não porque o problema é novo, mas porque a atenção vem redobrada. É um movimento que vem acontecendo e se intensificando.

Alguns integrantes do governo, como o vice-presidente Hamilton Mourão, vêm mudando a abordagem sobre o tema. Por quê?

Eu não vi mudança nenhuma, vi continuidade do negacionismo. São cenários contraditórios. De um lado, o governo, às vezes, dá sinais de que tem consciência do problema. Cinco minutos depois, vem o Paulo Guedes e fala que o Brasil é modelo mundial de preservação ambiental. Muitas vezes acho que os discursos são feitos para agradar interlocutores. Para os investidores fala algumas coisas para acalmá-los. Depois, para as respectivas bases falam outras coisas. Não tem um compromisso formal de dar continuidade a solução de algum problema. Por enquanto, a única medida concreta feita foi a interrupção de queimadas por 120 dias. Só. Isso não vai resolver o problema. Os investidores e as empresas que estão no encalço do governo já entenderam que não adianta só discursar. Precisa de solução prática.

Como o senhor tem visto a gestão do ministro Ricardo Salles?

Ele já tinha uma credibilidade muito baixa e foi a zero depois da história da boiada. Muito difícil ele resgatar a credibilidade como pessoa. Inclusive, se for resgatar a campanha dele para deputado federal – ele não foi eleito – a campanha dele foi extremamente controversa. Tinha javali, invasores de terra… algumas figuras e dizia “bala neles”. É muito difícil ter um ministro do Meio Ambiente falando que as coisas se resolvem na bala. Ele poderia tentar resgatar credibilidade com ações concretas para fazer a defesa da Amazônia, do meio ambiente. Mas isso ele não faz. Ele segue com discurso mais próximo do negacionismo, ignorando os problemas, ignorando os pleitos. Aí realmente fica difícil.

É insustentável a manutenção dele no cargo?

Não sou analista político, então não faço a menor ideia. Ainda mais nesse governo, é mais difícil ainda ter algum tipo de percepção. A única coisa que posso dizer é que existe um descontentamento com relação à política ambiental brasileira por parte de investidores e empresas.

Sobre a precificação de carbono, o quão distante desta realidade está o Brasil?

Pouco distante. Pelo contrário: essa é uma possibilidade concreta. O governo deveria abrir os olhos, porque isso é algo que já aconteceu em 60 países do mundo, em países relevantes. E essa realidade será ainda mais provável dependendo do resultado das eleições dos Estados Unidos. Se o [democrata] Joe Biden for eleito nos Estados Unidos, aí muda de vez. Você vê cada vez mais empresas se comprometendo a ser net zero. Ou seja, vão ter que comprar carbono de algum lugar. O Brasil tem capacidade de ser o maior exportador do mundo de crédito de carbono e garantir crescimento relevante do PIB e está deixando isso de lado. Se atrair 30 a 40 bilhões de dólares por ano, a gente está falando de um crescimento adicional do PIB de 2% ao ano ou 3% ao ano, sendo que o PIB mal cresce. O Brasil está perdendo uma grande oportunidade. Ao contrário, o avanço do desmatamento compromete a quantidade de carbono sequestrável. Seria uma pena se o Brasil postergasse essa oportunidade.

Quais seriam os impactos de uma precificação de carbono nas empresas listadas na b3, como Petrobras, Vale. Elas poderiam perder valor?

Elas perderão – e muito – valor. Não tenha a menor dúvida em relação a isso. É só uma questão de tempo. A Vale já tem o compromisso de virar net zero até 2050. A Petrobras não tem compromisso nenhum, com exceção de não aumentar as emissões nos próximos 5 anos. A Petrobras emite 61 milhões de toneladas de carbono por ano. Para ela compensar isso custa muito dinheiro. Grandes petroleiras do mundo já assumiram o compromisso e estão tendo que gastar bilhões de dólares por ano para serem net zero. Obviamente, a pressão dessas companhias por maior regulação vai aumentar. Então, em algum momento a Petrobras vai ter que tomar uma decisão: ou passa a ter esse compromisso ou não vai conseguir mais exportar. Vai ficar completamente isolada. Vai perder valor de qualquer jeito. Em algum momento vai virar taxação. O band-aid vai doer mais para ser tirado. O fato é que empresas de setores que emitem muito carbono terão que pagar essa conta. Elas estão poluindo o planeta há décadas e essa conta vai chegar. É inexorável. Vai acontecer.

Quem já está se adiantando a isso vai sair na frente quando essa precificação de carbono realmente vier à tona?

Sem dúvida nenhuma. Primeiro porque não serão pegas de surpresa. Depois, tem uma questão do consumidor. Quando a gente fala de commodities, faz menos sentido. Mas no setor de bens de consumo, tem empresas que já assumem compromisso e tem empresa que vai fazer de maneira forçada. O consumidor que se importa com isso – e é cada vez mais crescente esse número, especialmente da geração Z – vai entender que lá no ano de 2020 tinha gente que já era carbono neutro e em 2035 ainda tinha gente lutando para não ser. Essa empresa vai perder cliente. A questão é que quanto antes entender que esse é o caminho do mundo, melhor. O problema é gravíssimo.

Como o senhor vê essa leva de novos fundos focados em investimentos que seguem os parâmetros ESG?

Eu vejo com um misto de amor e ódio. Amor porque faz 30 anos que eu faço isso. Faz 30 anos que sou voz isolada e finalmente esse momento chegou. Acho ótimo. Quanto mais gente tiver pressionando as companhias para serem responsáveis em todos sentidos, tanto do lado ambiental quanto do social, a gente vai ter um mundo melhor. Eu, sozinho, certamente não vou conseguir. Acho fundamental que mais gente leve isso em consideração. Esperei 30 anos para isso e de fato agora está acontecendo. A parte do ódio é que esses são temas extremamente complexos e estão sendo tratados com uma superficialidade gigantesca. Muitos gestores e muitas empresas acham que simplesmente excluir uma ou duas empresas e medir CO2 significa ser sustentável – e não tem absolutamente nada a ver com isso. Sustentabilidade é algo extremamente complexo. Não tem a ver só com os setores onde a empresa atua. Não tem a ver com indicadores que empresas divulgam. É um assunto muito complexo. Aí quando tem menos pessoas tratando o assunto com respeito e outras 700 tratando com superficialidade, existe um risco muito grande de o mercado se tornar superficial e partir para um mundo das empresas fazendo o mínimo do mínimo e agradando o mercado e o mercado não cobrando absolutamente nada das empresas e ficar nesse me engana que eu gosto.

Tem parte de oportunismo no lançamento desses fundos?

Claro. É puramente oportunismo. Tem gente que não ligava para o assunto até dois anos atrás e de repente começou a entender para onde o mundo está indo e que meio ambiente e direitos humanos são coisas relevantes. Em certas pessoas, aquilo virou uma chave interna e elas genuinamente se transformaram – e acho que estão fazendo um trabalho muito legal. Tem esse grupo de pessoas e tem outro, de pessoas que olharam para fora e falaram “nossa, está vindo um caminhão de dinheiro para cá e só olha para ESG. Então vou ser ESG do meu jeito, porque eu quero esse dinheiro”. Mas, se o dinheiro estivesse vindo procurar empresas de tecnologia, seriam tecnologia. Se o dinheiro estivesse vindo procurar empresas de saúde, eles seriam saúde. Esse é um interesse puramente comercial e não genuíno. Então, fazem o mínimo possível só para poder colocar no portfólio comercial que são ESG e estão atrás desse dinheiro, mas estão enganando investidores internos e externos. E tem o terceiro grupo que olha para tudo isso e diz “isso aqui é um monte de mimimi, um, monte de bobagem, vou continuar com meu jeito antigo” – esses serão, em algum momento, atropelados. Vai ficar comprado em Petrobras e Petrobras vai perder seu valor. Esse tipo de coisa vai acontecer.

A CDP criou um índice chamado de “Resiliência Climática” e é composto por empresas como Petrobras e JBS. Dá para levar a sério?

Esse não é um índice de carbono eficiente. Esse é um índice de “disclosure” e eu acho que eles erraram. Na minha opinião, erraram muito em fazer esse índice em um mercado em que as pessoas ainda estão engatinhando em relação à compreensão das questões climáticas. Se a gente tivesse vários índices e esse fosse mais um, tudo bem. Aí vem um índice CO2 e entendem que é um índice de empresa que menos emitem ou que são responsáveis em relação ao CO2 – o que não é verdade. Esse índice que foi lançado é de quem trata os dados com transparência e só. Não significa que seja responsável com relação ao clima. Então, cria a falsa impressão de que sejam empresas responsáveis e isso significa que muitas pessoas desavisadas vão olhar para esse índice e vão acabar investindo em quem não quer investir. Acho esse índice horroroso.

Faltam empresas listadas na B3 que de fato sigam os parâmetros de governança, social e de meio ambiente?

Acho que faltam empresas na bolsa de tudo. A gente tem poucos representantes na bolsa de qualquer coisa. Quantas empresas de alimento a gente tem? A gente tem poucos representantes em geral. A bolsa brasileira é pequena para um país do tamanho do Brasil. Tem 350 empresas sendo que, só umas 150, 200 tem liquidez. Tem um problema de universo e ponto. Posto isso, dada a devida proporção, não acho que faltem empresas responsáveis. Tem um bom número. Óbvio que podia ser maior, mas vale para todos os setores.

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