O que é o “abismo fiscal” nos EUA que assusta os mercados

Cerca de US$ 600 bilhões podem deixar a economia americana em janeiro

São Paulo – Não há como encontrar uma manchete recente sobre os mercados financeiros no mundo e principalmente nos Estados Unidos que deixe passar a expressão “fiscal cliff”, algo como “abismo fiscal” ou “penhasco fiscal” em português. O fato é que as palavras escolhidas expressam o tamanho da preocupação sobre o impacto que a economia americana poderá sofrer a partir de janeiro de 2013.

Os temores em relação ao assunto se sobrepuseram a qualquer otimismo que criado pela reeleição de Barack Obama à presidência do país. O mercado agora mostra inquietude sobre a capacidade do governo em enfrentar os problemas fiscais que têm pela frente, principalmente por conta da manutenção da divisão entre os partidos no Congresso (Senado com os democratas e Câmara dos Representantes com os republicanos).

As bolsas americanas e outras no mundo terminaram a quarta-feira com uma forte queda com o impasse. Segundo um comunicado da Casa Branca, Obama telefonou para os líderes de ambas casas e partidos para “encontrar soluções bipartidárias para reduzir nosso déficit de uma forma equilibrada”. Além disso, teria pedido para “colocar interesses partidários de lado”.

O que é?

O problema se refere ao fim de incentivos fiscais implementados há quase dez anos pela administração de George Bush e ao início de cortes automáticos no orçamento em programas sociais e militares a partir de janeiro de 2013. O valor a ser retirado da economia chega a 607 bilhões de dólares. O temor dos economistas é de que o crescimento do PIB desacelere ou que afunde para uma nova recessão.

Um ex-conselheiro de Obama e banqueiro, Steven Rattner, disse à CNBC que não poderia descartar uma queda no precipício. Segundo eles, a chance de Obama costurar um acordo com o Congresso antes do final do ano é zero.


“Apesar de a vitória de Obama reduzir o nível de incerteza no mercado – o desafio considerável de negociar um acordo sobre a política fiscal continua”, ressalta David Harris, chefe de renda fixa nos EUA do banco Schroders, em um relatório. Ele calcula que caso nada seja feito, o PIB (Produto Interno Bruto) do país possa encolher em 4%.

“Obama terá que negociar com um Congresso em fim de mandato, com muitos membros que não foram reconduzidos ao cargo. Um fracasso poderá colocar o país em recessão e aumentar o desemprego”, ressalta Sidnei Moura Nehme, economista da NGO Corretora de Câmbio. Os democratas aumentaram a presença no Senado de 53 cadeiras para 55 contra 45 republicanos. Ainda assim, o partido precisa convencer mais 5 adversários políticos para atingir os 60 necessários para avançar em qualquer proposta.

Passado preocupa

Para Steve Barrow, analista do Standard Bank, é provável que o Congresso decida a coisa certa, mas não com o melhor timing. “O problema é que a casa pode fazer isso apenas no último momento possível”, ressalta. O economista cita como exemplo o último debate fiscal ocorrido ali em agosto de 2011: o aumento do limite do endividamento do país.

O nível foi elevado e as preocupações encerradas, mas não antes de aterrorizar os investidores com a possibilidade de um calote em alguns papéis do Tesouro americano e da agência Standard and Poor’s rebaixar a nota de crédito do país de AAA para AA+. A classificadora disse que o principal gatilho para a revisão foi a “divergência entre os partidos políticos quanto à política fiscal”.

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