Ibovespa descola do mundo e desaba após anúncio do governo

Bolsonaro anuncia Renda Cidadã, mas não chega a acordo sobre reforma tributária com líderes partidários

Depois de abrir em alta, acompanhando o bom humor internacional, a bolsa brasileira virou e fechou em queda nesta segunda-feira, 28, com os investidores repercutindo negativamente o anúncio do novo programa assistencialista do presidente Jair Bolsonaro, o Renda Cidadã, que deve ter gastos superiores ao do Bolsa Família, que será substituído. A origem dos recursos para o financiamento será do do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb) e parte do dinheiro que seria destinados a pagamentos de precatórios.

O novo programa fez ressurgir os temores fiscais no mercado, fazendo o Ibovespa fechar encerrar em queda de 2,41%, em 94.666 pontos – o menor patamar desde 26 de junho. Entre os componentes do índice, somente cinco fecharam no campo positivo. O movimento descolou do exterior, onde as principais bolsas tiveram um dia de fortes ganhos, com expectativa de estímulos nos Estados Unidos e com dados positivos da China. O real ainda foi a moeda que mais perdeu contra o dólar nesta segunda-feira, numa mostra que assuntos internos dominaram a atenção dos investidores na B3.

Brasília e incertezas fiscais

Pouco antes do anúncio do presidente Jair Bolsonaro, que passou a manhã em reunião com líderes partidários, o Ibovespa já havia zerado os ganhos, com os investidores avaliando a possibilidade de ser anunciado um novo imposto nos moldes da antiga CPMF. Mas o que veio a seguir foi ainda pior que o esperado, servindo de gatilho para a forte piora do cenário.

“Não ficou claro como o governo vai pagar o Renda Cidadã. Foi tudo feito de maneira abrupta, mas que na prática não tem nada de prático. Era muito mais fácil apresentar um imposto e explicar o quanto vai arrecadar do que o que foi feito”, avalia Rodrigo Franchini, sócio da Monte Bravo.

“A rolagem dos precatórios como fonte de financiamento do programa Renda Cidadã criou apreensão entre imvestidores que viram na manobra certo calote. É uma palavra forte e não concordamos com essa leitura, mas o rumor foi este”, escreve André Perfeito, economista-chefe da Necton, em nota.

Gustavo Bertotti, economista da Messem, vê aumento das incertezas fiscais com a criação do novo programa. “Estamos vendo só remanejamento de recursos. Não há um plano que passe para o mercado o comprometimento com a saúde fiscal. O programa muda de nome [de Renda Brasil para Renda Cidadã], mas não muda nada. O Bolsonaro está vendo a popularidade crescer por meio de programas sociais. A gente já viu isso acontecer em outros governos. Tudo isso é muito preocupante.”

Sobre a criação do novo imposto, Guedes não deu grandes detalhes, mas disse que haverá substituições, sem que a carga tributária aumente. Sem chegarem a um acordo sobre a reforma tributária, a reunião deve continuar ao longo da tarde. Logo após a fala, o mercado entrou no terreno negativo.

“A falta de consenso sobre a segunda fase da reforma tributária desagradou o mercado, apesar das falas na direção de manutenção do teto de gastos”, afirma Álvaro Frasson, economista do BTG Pactual digital. Já Stefany Oliveira, analista da Toro Investimentos, ressalta que mesmo que o governo tenha reforçado que irá cumprir o teto de gastos, ainda faltam “ações tangíveis”. “Tudo ainda está muito no universo das expectativas. Essas incertezas fazem com que o mercado não queira tomar riscos”, pontua.

“O mercado azedou. Esses receios sobre o que vem de Brasília novamente estão fazendo preço. Vamos ver o que o governo apresenta em breve. O pessoal aproveitou os lucros do começo do dia para colocar no bolso e agora olha para Brasília para ver em que direção iremos”, disse Henrique Esteter, analista da Guide Investimentos.

Eletrobras

O pessimismo sobre Brasília foi sentido principalmente nas ações da Eletrobras, que vêm sendo um termômetro sobre como investidores veem a capacidade de articulação do governo, tendo em vista que há grande expectativa de que a companhia seja privatizada. As ações ordinárias da companhia fecharam em queda de 4,71%, entre as maiores perdas do pregão.

Bancos

A piora do cenário interno também derrubou as ações dos grandes bancos, que chegaram a subir mais de 3%, nos primeiros negócios do dia, embalados pelo bom humor global sobre o setor, após a holding chinesa Ping An aumentar a participação no HSBC, mesmo com o envolvimento do banco em escândalo de transações suspeitas reveladas pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, na sigla em inglês). “As ações do setor vinham muito desvalorizadas no Brasil e no mundo. No momento que um dos maiores acionistas do HSBC aumenta posições no banco, ainda mais depois de todas as notícias da semana passada, passa uma confiança maior sobre o setor”, comenta Bertotti. Ao fim do dia, somente os papéis do Santander e do Banco do Brasil fecharam no campo positivo.

Embraer

Mesmo em meio ao cenário negativo, as ações da Embraer subiram 3,93% e encerram na liderança do Ibovespa, tendo no radar a autorização para que a Azul se torne a primeira empresa a utilizar as aeronaves de carga E-195 da Embraer. “A Embraer está se posicionando para a retomada, depois que a fusão com a Boeing não deu certo. Com as aéreas se recuperando e com perspectiva de renovação de frota, ela acaba se beneficiando”, comenta Rodrigo Moliterno, diretor de renda variável da Veedha Investimentos.

Estímulos

No domingo, a presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi afirmou que ainda há a possibilidade de o estímulo de 2,4 trilhões de dólares ser aprovado no Congresso americano. As declarações reacenderam a esperança de que aprovação do pacote, após cerca de dois meses de desentendimentos entre republicanos e democratas. Com a aproximação das eleições americanas, a expectativa já era pequena.

Lucro chinês

Divulgado no fim de semana, o lucro das indústrias chinesas teve alta mensal de 19,1% em agosto, sinalizando que a recuperação da atividade econômica da China segue pujante. No mês anterior, o crescimento foi de 19,4%.

Obrigado por ler a EXAME! Que tal se tornar assinante?

Tenha acesso ilimitado ao melhor conteúdo de seu dia. Em poucos minutos, você cria sua conta e continua lendo esta matéria. Vamos lá?

Falta pouco para você liberar seu acesso.

exame digital

R$ 15,90/mês

  • Acesse onde e quando quiser.

  • Acesso ilimitado a conteúdos exclusivos sobre macroeconomia, mercados, carreira, empreendedorismo, tecnologia e finanças.

exame digital + impressa

R$ 44,90/mês

  • Acesse onde e quando quiser

  • Acesso ilimitado a conteúdos exclusivos sobre macroeconomia, mercados, carreira, empreendedorismo, tecnologia e finanças.

  • Edição impressa quinzenal.

  • Frete grátis

Já é assinante? Entre aqui.

Apoie a Exame, por favor desabilite seu Adblock.