Balanço ilumina nevoeiro e Cielo sobe 10%

A maior processadora de cartões do país subiu mais de 10% na bolsa nesta terça-feira com números que surpreenderam analistas

Na bolsa, melhor que uma boa notícia é uma notícia acima das expectativas. Mesmo que ela seja apenas menos pior que o previsto.

Foi o que aconteceu com a operadora de meios de pagamento Cielo, presidida desde o ano passado por Eduardo Gouveia. A companhia divulgou na noite desta segunda-feira seus resultados para o terceiro trimestre.

Sua receita líquida de julho a setembro somou 2,93 bilhões de reais, queda de 4,3% sobre um ano antes.

O resultado operacional medido pelo Ebitda (lucro antes de impostos, juros, depreciação e amortização, na sigla em inglês), somou 1,298 bilhão de reais de julho a setembro, queda de 6,1% ano a ano. A margem Ebitda caiu 0,8 ponto percentual ano a ano, para 44,3%.

Parece uma coleção de notícias ruins, ainda mais para uma companhia acostumada a margens estratosféricas ao longo de toda a última década.

Acontece que analistas esperavam números ainda piores. O Itaú BBA, por exemplo, previa faturamento de 2,91 bilhões de reais e Ebitda de 1,21 bilhão.

Mas, em relatório, afirmava que havia boas chances de a empresa superar as expectativas. De fato aconteceu, o que fez as ações subirem 10% nesta terça-feira.

Os números deixam bem claro que a vida confortável da Cielo ficou no passado, e que os analistas e investidores já entenderam isso.

A empresa lidera há mais de uma década o mercado de pagamentos por cartões no Brasil, que processou pouco mais de 1 trilhão de reais em transações no ano passado, alta de 300% em uma década.

A companhia, controlada por Bradesco e Banco do Brasil, chegou a ter margens operacionais de 60% até 2012.

A única grande concorrente era a Rede, do Itaú. Varejistas de todos os tamanhos Brasil afora deixavam quase 10% de seu faturamento em aluguel e antecipação de recebíveis à Cielo. Era uma mina de ouro.

Mas mudanças recentes na regulação fizeram com que o oceano azul da Cielo ficasse vermelho. A empresa tem sede em Barueri, na grande São Paulo, e se beneficiava de uma alíquota mais camarada do municipal imposto sobre serviço.

Em 2016, o imposto passou a ser calculado nas cidades onde os pagamentos são processados, o que foi um golpe para a companhia.

As regras para o rotativo e a antecipação de recebíveis também mudaram, apertando mais um pouquinho a empresa.

Para completar, de um ano para cá o mercado foi infestado de concorrentes, como Santander, Stone (Arpex Capital e do Banco Pan), Bin (da First Data), Vero (do Banrisul) e PagSeguro (do UOL). Até o Corinthians lançou sua maquininha de cartão de crédito.

Para completar, a crise econômica enxugou o crédito e levou ao fechamento de um grande número de endereços comerciais.

O mercado de crédito encolheu 4,4 pontos percentuais em 2016. O número de maquininhas no país caiu pela primeira vez desde 2008, de 4,565 milhões para 4,424 milhões.

Em busca de alternativas

A vida ficou mais difícil, portanto, mas os números divulgados nesta terça-feira mostram que a Cielo tem conseguido ao menos evitar um cenário pior.

“O resultado trouxe até um conforto para quem esperava um futuro negro. Os números mostram que a Cielo está no jogo, mas que o jogo já não é mais o mesmo”, diz Adeodato Volpi Netto, sócio da companhia de análises Eleven.

Os resultados operacionais mais fracos levaram a companhia a apertar o cinto nas despesas operacionais, que caíram 10,8% ante o terceiro trimestre de 2016, para 356 milhões de reais, puxados por gastos menores com pessoal e marketing.

O trabalho da Cielo para limpar a base, desativando terminais com pouca ou nenhuma atividade, continuou. O número de pontos de venda ativos caiu 11,6%, para 1,5 milhão de terminais, o que ajudou a reduzir o custo dos serviços prestados em 0,3%, para 1,279 bilhão de reais.

O volume financeiro de transações pagas por meio da rede da Cielo cresceu 11,3% no terceiro trimestre sobre um ano antes, para 155 bilhões de reais. E novos negócios começaram a dar frutos, como a Cateno, associação com o Banco do Brasil na área de gestão de cartões.

Inovação, como não poderia deixar de ser, é uma prioridade para a companhia. Afinal, a única certeza de analistas que acompanham o setor é que o negócio de maquininhas como é hoje vai acabar mais cedo ou mais tarde.

O problema, para a Cielo, é que este mercado vem mudando rapidamente, com competidores surgindo nos bancos das universidades ou em mercado longínquos como a China, onde os pagamentos digitais já superam os do dinheiro em papel.

Mas a empresa investe. Um exemplo é uma nova forma de pagamento para comerciantes que vendem por WhatsApp.

Esse meio dispensa as máquinas de cartão e, segundo a Cielo, vai beneficiar microempreendedores que querem fugir de taxas e, muitas vezes, não têm loja física ou site.

Outra oportunidade está no próprio crescimento do mercado de cartões. A Cielo tem batido na porta de clientes em potencial que não estão acostumados a receber pagamentos por meio de cartões, como médicos e cartórios.

Oportunidades não faltam, mas os investidores estão reticentes com o tamanho dos desafios. A empresa triplicou de valor entre 2011 e 2014 e, mesmo com a alta de 7% desta terça-feira, está 30% abaixo do pico alcançado em julho de 2015.

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