INCC aponta alta de cerca de 9% nos custos de mão de obra, consolidando-se como principal vetor de pressão no período (Eduardo Frazão/Exame)
Repórter de Mercados
Publicado em 2 de julho de 2026 às 09h31.
O mercado imobiliário brasileiro entra em 2026 em um período de retomada cautelosa, caracterizado pelo que o Radar da Construção – Panorama Estratégico do Mercado Imobiliário e da Construção, elaborado pelo Ecossistema Sienge, CV CRM, Grupo OLX e Nomad, chama de "otimismo seletivo".
"É o otimismo de quem sabe ler dado e tomar decisão com mais assertividade", resume Gabriela Torres, gerente executiva de dados e inteligência do Ecossistema Sienge. A primeira metade do ano não representou um ciclo de expansão automática, mas sim uma fase em que a busca por eficiência operacional e de capital se torna essencial.
A conjuntura para 2026 é marcada por crédito ainda restritivo, com a taxa Selic projetada em 12,50% ao ano e a inflação estimada em 4,31%, próxima ao teto da meta. Com o PIB previsto em 1,85% e o câmbio em R$ 5,40, aumenta o "custo do erro" para incorporadoras em decisões sobre localização e timing de lançamento.
"Há um aumento do preço do insumo, ligado à geopolítica, e da mão de obra, ligada a mudanças sociais, somados a um crédito mais caro. Qualquer erro ao longo do processo pesa mais no resultado final", afirma Gabriela Torres, gerente executiva de dados e inteligência do Ecossistema Sienge.
A pressão sobre os custos de construção, no entanto, é desigual. Segundo o Índice de Preço de Materiais de Construção (IPMC), no acumulado de 12 meses até maio de 2026, o fio de cobre subiu 30,72% e o cimento 14,96%, enquanto aço e argamassa registraram queda. Já o INCC aponta alta de cerca de 9% nos custos de mão de obra, consolidando-se como principal vetor de pressão no período.
Apesar do aumento nos custos, o setor conseguiu repassá-los aos lançamentos. O Índice de Lançamentos Imobiliário (ILI) DataZAP revela valorização média de 10,06% nos imóveis lançados, acima do INCC acumulado de 6,17%. O preço médio geral dos lançamentos nas regiões monitoradas chegou a R$ 12.849,63 por metro quadrado.
O estudo mostra que cada cidade responde de forma distinta aos estímulos. Fortaleza se mantém como referência no segmento econômico, liderando isoladamente pelo quinto trimestre consecutivo, com a maior valorização trimestral registrada entre as regiões monitoradas (+62,60%). O preço médio dos lançamentos na cidade alcançou R$ 12.936,31/m², reforçando sua atratividade para o padrão econômico.
Curitiba se destaca no segmento de médio padrão, posicionando-se logo atrás de São Paulo, mantendo-se entre as primeiras cidades em demanda. Além disso, a capital paranaense também aparece como uma das líderes no padrão econômico, com preço médio de lançamentos em R$ 13.914,94/m², segundo a análise comparativa regional do Radar.
Já Brasília lidera o segmento de alto padrão e vem ganhando espaço no padrão econômico, subindo para a quinta posição do ranking IDI, impulsionada pela chamada "Demanda Direta". O desempenho da capital federal contribuiu para que o Centro-Oeste passasse a ocupar duas das três primeiras posições no alto padrão, reduzindo a concentração histórica do eixo Sul-Sudeste.
Outras cidades também mostram dinâmicas relevantes: Maringá e Itajaí entraram no top 10 do médio padrão devido à alta procura ativa, enquanto Goiânia mantém posições de destaque no mesmo segmento. Florianópolis, embora em 12º lugar no IDI econômico, apresenta valorização anual expressiva de 26,13% e um dos maiores preços médios do país (R$ 17.706,51/m²). O
Rio de Janeiro, apesar de ter o maior preço médio por metro quadrado (R$ 19.445,44), ocupa apenas a décima posição no IDI do padrão econômico, indicando um mercado de nicho com alto ticket, porém demanda mais restrita nesse segmento.
O comportamento do comprador exige estratégias digitais mais assertivas. Segundo o Anuário DataZAP, 82% dos consumidores estão nas etapas iniciais da jornada de compra, sendo 30% em descoberta e 52% em busca ativa. Cerca de 91% consideram imóveis usados, enquanto 16% avaliam lançamentos na planta ou em construção, preferência mais forte entre os compradores mais jovens.
O comprador médio em 2026 possui renda domiciliar mensal de R$ 7.371,54, concentrada nas classes B e C, e leva em média três meses na busca pelo imóvel ideal. Além disso, 48% realizam sua primeira compra, reforçando a necessidade de orientação e confiança ao longo do processo.