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No começo do negócio, fundador do Atacadão dormia em depósito de peixes

Antes de transformar sua empresa numa das principais atacadistas do país, Alcides Parizotto vivia no mesmo galpão apertado onde guardava os produtos

A dificuldade em obter crédito para abrir um negócio não impediu o gaúcho Alcides Parizotto de investir na idéia de abrir uma atacadista de alimentos. Com as poucas economias de anos de trabalho e uma capacidade invejável de conquistar a confiança dos fornecedores, começou o negócio num depósito de peixes, onde ele dormia, ao final do expediente - apesar do mau cheiro do lugar.

Foi avançando e transformou a empresa, o Atacadão, numa das maiores do setor no país. Com os ganhos nessa área, abriu uma imobiliária que também briga entre as principais do Brasil, a Inpar. Leia a seguir como ele montou duas companhias de sucesso quase do zero.

EXAME.com - Qual é a origem da sua família?

Alcides Parizotto - Meus pais são brasileiros. Meus avós eram italianos, da região de Veneto. Sou filho de um lavrador que montou um pequeno comércio no Rio Grande do Sul, no distrito de Planalto (município de Irai). Não era nem na cidade, era uma venda na beira da estrada.

EXAME.com -  O que ele vendia nessa venda?

Parizotto - Principalmente tecidos.

EXAME.com -  E a sua mãe, fazia o quê?

Parizotto - A minha mãe era do lar. Era dona de casa, uma pessoa muito simples, quase analfabeta. Mas de uma sabedoria grandiosa. Todo mundo chamava ela de Nona porque era gordinha. Eu tive uma vida precoce. Até os 12 anos, fiquei com a minha família.


EXAME.com -  Quantos irmãos o senhor teve?

Parizotto - Três. Sou o caçula. Tive o prazer e a alegria de ajudar meus pais e toda a minha família. Assim que comecei a minha vida profissional, que ganhei meu primeiro dinheiro montei um negócio para eles. Esse negócio deu certo, eles tiveram muito sucesso. Do meu nascimento até os 12 anos vivi em Planalto, morava ao lado de uma aldeia indígena. Eu tinha contato com os índios e saia com eles. Aprendi algumas coisas com eles, a minha vida era muito solta. Gostava muito de andar a cavalo, fui jóquei de cancha reta. Eu tinha uns 10, 11 anos e era muito magrinho, muito leve. No Rio Grande do Sul existiam essas corridas de cavalo, um gaúcho desafiando o outro para uma corrida. Cuidava-se dos cavalos durante 90, 120 dias. Pegava-se o cavalo no pasto, tinha que dar um galope, um banho no animal todos os dias. Em 90 dias você deixava o cavalo em forma para a corrida. O dia da corrida era assim: tinha a corrida principal e depois os desafios. Um ao lado do outro no pêlo do cavalo. Não tinha sela, não tinha nada. O pêlo do cavalo ficava muito liso e às vezes você saía pela garupa. Os domingos de corrida eram os mais felizes da minha vida.

EXAME.com -  O que valiam as corridas?

Parizotto - Dinheiro. As pessoas apostavam e eu era geralmente o jóquei escolhido para essas corridas secundárias. E eu cobrava para correr. Houve casos de eu ganhar com um cavalo, fazer um novo desafio e ganhar com outro. Chegava no final do dia e o meu bolso estava cheio de dinheiro.

EXAME.com -  O senhor estudava nessa época?

Parizotto - Estudava. Meu pai montou uma escola do lado da venda, contratou uma professora que morava em casa e ela dava aula também para os meninos da redondeza. Não tinha escola. Morava a uns 10 quilômetros da cidade. Mas eu já gostava de fazer negócio, ajudava no balcão, medindo tecidos. Vendíamos tecidos e gêneros de primeira necessidade para os agricultores da redondeza. Os cereais e outros alimentos eram produzidos por eles mesmos. Lembro que a gente também era assim: produzíamos trigo, feijão, derivados de suínos e estocávamos. Durante o ano todo, íamos ao moinho a cavalo para trocar o trigo por farinha. Carregava um saco de 60 quilos no cavalo.


EXAME.com -  Era um sítio onde o senhor morava?

Parizotto - Era um sítio pequeno. Nessa época a gente se dedicava ao comércio. Tinha um armazém no fundo e o cereal comprado da lavoura era estocado a granel. Ali, nesse espécie de depósito, brincava muito com os meus amigos.

EXAME.com -  A sua infância foi boa, então?

Parizotto - A minha infância foi extremamente feliz. Lembro até hoje de um cavalo preto que eu tinha que era maravilhoso. Montava todos os dias, saía a cavalo. Naquela época não tinha muito essa história de voltar para casa para almoçar. A minha mãe se preocupava porque sabia que estava brincando em segurança. A minha infância foi assim. Até os 12 anos, eu criava suíno em sociedade com uma pessoa e plantava trigo em sociedade com outra. Funicionava assim: fornecia sementes para o trigo, o parceiro produzia, vendíamos e rachávamos o resultado. Da mesma forma era feito com os suínos. Meus pais me davam corda para saber até onde eu iria. Um belo dia, o meu pai chegou em casa com o caminhão e o deixou na frente de casa. Eu entrei no caminhão e comecei a mexer, fiquei trocando marcha. Quando saí, deixei no ponto morto. À noite, o caminhão desandou e foi contra uma árvore, carregado de mercadorias. Aí meu pai reuniu meus irmãos e, tomando chimarrão, disse: precisamos mandar esse piá para um colégio porque eu estou ficando preocupado com ele.

EXAME.com -  Preocupado por quê?

Parizotto - Porque eu era muito ousado. Já tinha meu dinheiro, quando fui para o colégio já fui com meu dinheiro. Já tinha uma economia minha.

EXAME.com -  Nessa época o senhor passava necessidade?

Parizotto - Nenhuma. Eu tinha tudo o que precisava, mas as coisas mais simples. Como morávamos no interior, teve época em que meus irmãos mais velhos trabalharam na roça. Quando a coisa evoluiu, eles vieram para o comércio. Chegamos a ter dois ou três caminhões para o transporte dos cereais que comprávamos na lavoura.


EXAME.com - O senhor não trabalhava para ajudar em casa?

Parizotto - Não. Trabalhava para ter o prazer de ter o meu dinheiro. Eu era aficcionado, até hoje sou assim. Não tenho grandes hobbies, meu negócio é trabalhar e produzir. Eu gosto de produzir. Isso vem desde o meu pai, que apesar de ser uma pessoa muito simples tinha uma experiência muito grande e me ensinou muito. Me mandaram para o colégio interno em Sarandi, onde fiquei dois anos. Eu fiz admissão ao ginásio e a primeira série ginasial no internato. (a admissão era um curso preparatório para o aluno poder entrar no primeiro grau, o equivalente à quinta série hoje)

EXAME.com -  Foi a primeira vez que o senhor morou fora de casa?

Parizotto - Sim. Foi em 1949, eu tinha 12 anos. Eu saí da escola porque a coisa começou a ficar difícil para pagar o colégio.

EXAME.com -  Por quê?

Parizotto - Porque no interior tudo dependia de safra. Se não houvesse produção ou a colheita fosse ruim os reflexos eram negativos para o comércio por até dois anos. Não queria ser um peso para os meus pais. Eles até poderiam pagar a escola. Mas eu insisti que queria sair para estudar à noite e trabalhar de dia. Meu pai conseguiu um emprego para mim em fábrica de vinho em Erechim.

EXAME.com -  Foi o seu primeiro emprego?

Parizotto - O primeiro, eu tinha 15 anos. Eu trabalhava, ganhava o pão de cada dia.

EXAME.com -  O senhor lembra o salário?

Parizotto - Não. Mas não era muito. O dinheiro dava para pagar as refeições em uma pensão, alugar um quarto e para comprar roupas e calçados.De vez em quando meu pai me dava um reforço. Cheguei aos 18 anos trabalhando mas precisei pedir demissão, para servir o exército. Fui para Santa Maria. Quase fiquei no exército porque, naquela época, a carreira militar era tão boa quanto emprego no Banco do Brasil.


EXAME.com -  Mas o senhor queria fazer exército?

Parizotto - Não. Eu tinha nas veias que eu queria ser empresário a qualquer custo. Eu só não sabia o que eu iria ser. Afinal, como é que eu ia começar se não tinha dinheiro? Fiz curso de cabo e, se eu incorporasse, seria promovido a terceiro sargento e entraria direto para Agulhas Negras. Sinceramente balancei, mas predominou a vontade de ter um negócio próprio.

EXAME.com -  Ficou um ano no exército?

Parizotto - Sim. Mas um dia falei com o major e disse que aquele não era o meu negócio, que eu queria ser empresário e que ia lutar por aquilo. Voltei para Erechim e procurei a empresa em que trabalhava. Minha vaga havia sida preenchido. A empresa, então, me fez uma outra proposta: cuidar de outro setor, em Londrina, no Paraná. Naquele tempo, a cidade já era muito famosa e estava em pleno crescimento, impulsionado pelo café, que estava no auge. A qualidade da terra, exuberante, favorecia outros tipos de cultura. O norte do estado do Paraná parecia uma pequena São Paulo, em progresso. Aceitei na hora. Foi uma ousadia sair de Erechim para ir para Londrina. Fui para lá de carona com motorista de caminhão.

EXAME.com -  O senhor não tinha dinheiro para comprar a passagem?

Parizotto - Tinha, mas eu queria fazer uma pequena economia. E também porque o dinheiro era pouco, tinha dado baixa do exército. Ganhava como cabo, fazia uma certa economia mas o dinheiro era muito pequeno. Vim de carona com esse motorista e me lembro que numa fazenda o caminhão atolou e encostou num barranco. A casa mais próxima estava a 50 quilômetros de distância e só tínhamos um saco de laranja no caminhão.

EXAME.com -  Onde foi isso?

Parizotto - Em Campos Novos, Santa Catarina. Ficamos três dias chupando laranja. Quando patou de chover, eu tinha que tirar o barro com uma enxada para ver se a gente conseguia andar. E eu não tinha forças depois de três dias chupando laranja. Um dos melhores almoços da minha vida foi quando chegamos a Campos Novos (SC) e fomos numa churrascaria. Quando eu cheguei em Londrina, fiquei impressionado pela exuberância e pelo progresso que vi. Então pensei: aqui vou fazer o meu pé de meia.


EXAME.com -  Por causa da efervescência?

Parizotto - Exatamente. A coisa que mais gosto e sempre fiz, tanto no Atacadão quanto na Inpar, é a área comercial. Sempre tive uma boa equipe, que me assesorasse. Soube buscar gente no mercado tão competente ou mais do que eu, que viessem para somar. Chequei em Londrina trabalhando para a mesma empresa.

EXAME.com -  Como ela se chamava?

Parizotto - Comércio e Indústria Saulle Pagnoncelli S/A, era o Matarazzo do Rio Grande do. Sul. Eu trabalhava no escritório, na contabilidade e não gostava daquilo. Aos sábados e domingos, pegava o jipe da empresa e saia para vender os produtos para os pequenos comerciantes da região. Não era minha atribuição, ia porque gostava. Comecei a pensar em montar alguma coisa. Foi aí que conheci uma pessoa que trabalhava com queijo mineiro. É uma forminha de queijo de mais ou menos um quilo que é para ralar e também bom para comer. Era um produto muito vendido no norte do Paraná por causa da colheita do café. A família toda trabalhava na colheita e, quando voltava para o almoço, tinha de fazer uma refeição rápida. Geralmente um macarrão, com queijo em cima. O peixe a mesma coisa: é uma refeição rápida. Consegui alguém que me mandasse o queijo e alguém que me mandasse o peixe consignados.

EXAME.com -  Da onde vinham os produtos?

Parizotto - O peixe vinha de Santa Catarina e depois do Rio Grande do Sul. O queijo vinha de Minas, da região de Araxá.

EXAME.com -  Como o senhor conseguiu isso?

Parizotto - Conversando. Conheci a pessoa entregando queijo. Encostei nela e falei que era capaz, que queria uma oportunidade para vender o queijo no norte do Paraná. E dizia que não tinha dinheiro para pagar duplicata no vencimento. Acho que ele foi com a minha cara. Ele disse que ia mandar o queijo consignado, que eu deveria vender e prestar contas.


EXAME.com -  Quantos anos o senhor tinha?

Parizotto - Tinha 25 anos.

EXAME.com - - O senhor pediu demissão da empresa?

Parizotto - Pedi. Fui para Maringá, que era a boca do sertão. A saída para todas as regiões. È uma cidade muito rica, muito próspera, também baseada na economia cafeeira que oferecia e ainda oferece grandes oportunidades para quem quiser trabalhar. Aí eu comecei a receber os produtos. Recebi três toneladas de queijo, na primeira remessa.

EXAME.com -  Em Maringá?

Parizotto - Exatamente. Eu sempre trabalhei com atacado, nunca tive varejo. Desde o primeiro dia, desde o começo. Aí eu recebi um caminhão de peixe. O meu depósito tinha uns 60 metros quadrados e eu estocava o queijo de um lado e o peixe de outro. Era peixe salgado, em caixa. O cheiro que exalava era horrível e eu dormia nos fundos. Tinha uma abertura no depósito para eu poder ver se acontecia alguma coisa. Eu quase dormia agarrado aos queijos porque eu tinha um compromisso de pagar aquela mercadoria, o quanto antes possível. Cuidava daquilo com o maior carinho do mundo. Depois passei a receber caminhões, 10 toneladas de queijo. Era preciso mantê-los conservados, caso contrário grudava uma forma na outra e criava bicho. Tinha um depósito fechado e nenhum funcionário porque durante o dia eu ainda não tinha nenhum cliente de balcão. Eu vendia, voltava, contratava uma carroça e ia entregar. Acompanhava tudo. Quando o negócio começou a prosperar, fui ao Rio Grande do Sul procurar um frigorífico, para representar e ampliar os meus negócios. Então fui à uma cooperativa, cujo presidente era amigo de meu pai e disse a ele que estava no norte do Paraná, onde vendia uma série de mercadorias e que gostaria de vender banha e derivados de suínos. Disse que era capaz de vender milhares de caixas de banha por mês. Expliquei que estava numa região maravilhosa, com muito consumo, e queria que ele me desse a representação do frigorífico para o Paraná. Ele disse que teria prazer em fazer aquilo porque conhecia meus pais há muitos anos. E acrescentou: não só agente do meu frigorífico, mas de todas as cooperativas filiadas à União das Cooperativas no Rio Grande do Sul. Passei a receber banha e embutidos de todos os frigoríficos. Recebia também arroz, farinha de trigo e vinhos. Era muito grande o número de cooperativas filiadas e também bastante diversificadas. Aí eu tinha peixe, queijo, banha, embutidos, vendia o melhor salame, presunto. E aí eu pensei: agora já sou atacadista.


EXAME.com -  Continuava sozinho na empresa?

Parizotto - Eu tinha uma funcionária que atendia o telefone, que me ajudava. Não tinha muitos clientes, só empresas atacadistas selecionadas. O negócio deslanchou e resolvi contratar vendedores, para expandir ainda mais. Como eu era representante de fábrica, tinha um preço especial. Em função disso, além de vender para o atacado, possuía um forte atrativo para vender também diretamente ao pequeno varejista. Paralelo a isso, eu encontrava os representantes das indústrias e dava um cartão meu. Contava o que estava fazendo e falava que queria comprar deles. Aí a pessoa fazia o meu cadastro e via que eu não tinha nada, não tinha bens. Eu dizia que tinha minha honestidade e minha coragem e que ele poderia acreditar em mim. Nessa época eu tinha 25 anos e era muito jovem, tinha cara de menino. Um dia fui à uma das cooperativas filiadas à União, fazer uma visita. O presidente, que não me conhecia, perguntou se o meu pai estava satisfeito com os produtos que estava recebendo. Eu disse que ele estava feliz e me mandei, preocupado em que ele descobrisse que eu era o Alcides Parizotto. Hoje o jovem é prestigiado mas naquela época não era assim. Tinha que ter bigode, ser meio gordinho, casado e com filhos para merecer crédito.

EXAME.com -  O senhor ainda era solteiro, não tinha patrimônio mas já estava melhor de vida?

Parizotto - Muito melhor. Eu colocava a minha pasta embaixo do braço e saía à pé porque não tinha condução. Às vezes chegava nos comerciantes e tinha que esperar até duas horas para ser atendido. Aquele trabalho de aproximação havia feito anteriormente com os representantes das indústrias começou a dar resultado e fizemos os primeiros negócios. Dizia que provavelmente não teria dinheiro para pagar, no vencimento. Sempre fui muito transparente com essas coisas. Explicava que não dava para pagar no vencimento, só depois de 15, 20 dias. Comecei a ganhar a simpatia dos representantes das indústrias. O que eu fazia? Quando ia gente de São Paulo para o norte do Paraná eu recebia na empresa e, como tinha me casado em 1963, pedia para a minha esposa dar uma caprichada e fazer um jantar para eu levar o diretor da empresa para conhecer como a gente vivia. Queria que a pessoa saísse de lá confiando em mim. Ela dizia: puxa, mas hoje estou tão corrida. Mas mesmo assim fazia o jantar.


EXAME.com -  O senhor casou com uma moça de Maringá?

Parizotto - Ela é paulista de Taquaritinga, mas o pai, que era administrador de fazenda, mudou para Maringá. Era uma moça muito bonita.

EXAME.com -  Onde o senhor a conheceu?

Parizotto - Em Maringá, num baile.

EXAME.com -  O senhor teve filhos logo depois que casou?

Parizotto - Casei em 1963. Em 65 nasceu o primeiro. Em 67 o segundo, em 69 a terceira, em 71 a quarta e 74 a quinta. Tenho cinco filhos, quatro deles trabalham aqui. Tenho orgulho disso. Comecei a paquerar minha esposa Sidnei, em um baile em que houve um concurso de Miss Brotinho. Sidnei tinha 15 anos e venceu o concurso. Nesse dia, me convidou para dançar a valsa com ela. Estamos juntos até agora. Quando casamos ela tinha 17 e eu 26. Quando nasceu o nosso primeiro filho ela tinha 18 para 19. Com 27 anos ela teve nossa última filha.

EXAME.com -  Nessa época o senhor morava numa casa boa?

Parizotto - Sim. Era uma casa minha, já tinha carro. Já tinha um capital de giro.

EXAME.com -  E a sua esposa não trabalhava?

Parizotto - Não, só mais tarde. Ela fez duas faculdades, a primeira de Letras a segunda direito, aos 37 anos. Estudou no Mackenzie e trabalhou na Inpar durante quatro anos.

EXAME.com -  E o senhor não fez faculdade?

Parizotto - Não, só completei o segundo grau estudando à noite e trabalhando de dia. Chegou uma hora que eu poderia fazer faculdade mas pensei e achei melhor me dedicar dia e noite ao que eu fazia, que estava indo muito bem. Sou técnico em contabilidade.


EXAME.com -  Fez cursos?

Parizotto - Nada. Nunca fiz um curso.

EXAME.com -  Sente falta disso?

Parizotto - Às vezes sinto. Não que me prejudique, mas às vezes sinto. Dos meus filhos, três fizeram FGV, um fez Luís de Queiroz e outra, São Francisco.

EXAME.com -  A empresa chamava Atacadão desde o começo?

Parizotto - Não. Ela se chamava Alcides Parizotto, depois Parizotto Companhia LTDA, Parizotto S/A e, por último, Companhia Mercantil Industrial Parizotto. Atacadão era o nome de guerra. É um nome muito sugestivo. Em 1967 estava a todo vapor, abri a primeira filial em Campo Grande. Em 1972 abri a filial em Cuiabá e assim, sucessivamente, as outras filiais. A coisa mais bonita que vi nesse período foi os caminhões de mercadoria desbravando as regiões, levando os produtos para lugares longínquos, voltando cobertos de barro (pois a maioria dos locais não tinha asfalto) mas com um saco com bastante dinheiro, debaixo do banco do motorista, proveniente do recebimento. Era uma coisa fascinante. Eu trabalhava dia e noite sem parar e não cansava. Entrava às 7 da manhã, trabalhava até às 7 da noite, ia para casa jantar e voltava para trabalhar, até de madrugada. Trabalhava de 14 a 16 horas por dia. Durante vinte anos eu fiz isso. Sábado eu trabalhava até às 20 horas e domingo até às 14 horas. Aí a minha esposa passava lá com os filhos para irmos almoçar. O negócio funcionava assim: o vendedor vendia e ele mesmo cobrava. Se desse uma seca, ele não recebia. Se desse uma geada era um terror. Em compensação, quando vinha uma colheita de café recebia antecipado. A empresa começou a crescer, crescer e em 1975 abrimos a filial de São Paulo. Nessa época eu já tinha seis filiais no interior. Qual não foi a surpresa quando em pouco tempo a filial de São Paulo vendia mais do que as filiais do interior. Em 1978, transferi a matriz para São Paulo.

EXAME.com -  Por quê?

Parizotto - Quando abrimos em São Paulo a gente começou a vender para o Brasil inteiro. E aí vivemos fases muito interessantes. A filial cresceu tanto que decidi mudar para cá.


EXAME.com -  Nessa época o senhor já usava o nome Atacadão?

Parizotto - Na frente era só Atacadão.

EXAME.com -  Em Maringá também?

Parizotto - Isso. A empresa começou a crescer e nessas alturas a gente já era grandes indústrias. Eu tinha tanto prazer em receber minha equipe, que pedia à secretária avisar quando os vendedores aparecessem na porta, para as reuniões que fazíamos semanalmente. Eu os abraçava efusivamente, dizia que tinha certeza de que eles tinham ido bem nas vendas e nas cobranças. Quando eles iam mal na cobrança tinham até vergonha de chegar na reunião. Eles sabiam que eu precisava da cobrança. Às vezes convidava um representante de indústria para participar dessas reuniões de sábado à tarde porque eu queria que ele visse como era o procedimento. Tinha um relatório com todas as informações e eu mostrava isso para eles. Nessa época, perguntava a esses representantes qual mercadoria da sua linha de produtos que mais dificuldades tinham para vender. Então eu comprava uma boa quantidade, era uma espécie de parceria. Daí dividia em pequenos lotes e pedia à minha equipe, que levasse à pronta entrega e se empenhasse em vender aqueles produtos, mesmo que fosse em pequenas quantidades. Um dia, um vendedor pediu que fosse à casa dele, para ver o estoque que tinha se formado lá, abarrotando todo o apartamento.

EXAME.com -  Qual era o tamanho do Atacadão nessa época?

Deixa eu andar mais um pouquinho que já chego lá. Com a abertura da filial de São Paulo crescemos muito. Estávamos inicialmente na rua Mauá, começamos a vender muito para o Nordeste e demais Estados do Brasil. Mudamos para a rua Paula Souza e depois para a rua Mendes Caldeira. Mas aí todo o meu pessoal dizia que a gente precisava comprar um terreno para construir uma sede. Comecei a correr atrás do terreno.


EXAME.com -  Quando o senhor mudou para São Paulo onde o senhor morava?

Parizotto - Em Higienópolis. A empresa estava bem, já tinha patrimônio, bem capitalizada. Mas nunca fui uma pessoa de aparecer muito, gostava de fazer relacionamento com os meus fornecedores e com os meus clientes. Essa é a primeira entrevista que dou contanto a minha história. Sou um pouco arredio a essas coisas. Tenho muito medo, tanto é que a minha família me questionou muito. Mas, você conhece aquele ditado "em boca calada não entra mosca, mas também não come camarão". Comecei a procurar um terreno e comprei o terreno da família Matarazzo na Marginal Tietê, em 1982. Chamei uma empresa de pré-moldados para fazer o projeto e a construção a toque de caixa. Estávamos na rua Mendes Caldeira e vendendo para o país inteiro. Não conseguimos dar velocidade aos carregamentos, por estarmos em um local muito movimentado. Muitas vezes um caminhão demorava duas horas para fazer o percuso de uma quadra. A mercadoria ficava em pequenos armazéns, o que dificultava a logística. Era muito difícil. Compramos o terreno e aí foi o grande boom da empresa. Nessa época eu já tinha o Stênio Garcia como garoto propaganda da empresa, que ficou conosco por muitos anos. Em dois anos fizemos a construção e inauguramos o complexo. Tínhamos 45 000 metros quadrados de prédio. Fizemos um comercial a nível nacional para a inauguração com o Stênio chamando o cliente para a inauguração. A gente ficou preocupado em como iríamos encher um galpão com 45 000 metros quadrados. Porque na inauguração a gente precisava mostrar o galpão para os clientes. A gente achava que não conseguiria encher. Começamos a comprar, as indústria fornecedoras davam mais prazo para pagar por causa da inauguração. Quando chegou num determinado dia, tivemos que alugar dois armazéns vizinhos para estocar todas os produtos que havíamos comprado. Saímos de um cubículo velho, feio, fedorento como quem se muda da favela para um apartamento de altíssimo padrão.

EXAME.com -  Quando foi a inauguração?

Parizotto - Em 1985. Foi uma festa tão linda que congestionamos a Marginal Tietê. Tínhamos mais de 3 000 pessoas do Brasil inteiro, clientes e fornecedores. A mercadoria era tão bem estocada, que se chegasse no armazém e soltasse um prumo nas pilhas, não tinha diferença nenhuma embaixo. Não tinha bituca de cigarro, o piso brilhava. Imagina aquela pessoa que dormia no depósito de queijo e peixe lá em Maringá inaugurando um empreendimento desse. Foi um deslumbre. Outra mudança foi que colocamos 40 balconistas e, assim, também inauguramos a primeira loja de auto-serviço de atacado. O grande sucesso do Atacadão e da Inpar deve-se ao fato de o dono colocar a barriga no balcão. Gosto muito de compra e venda, por isso atendia cliente no Atacadão e também ajudava nas compras de mercadoria. Estava sempre ali, o nosso custo operacional era baixíssimo. Nessa altura eu já tinha alguns sócios.


EXAME.com -  Quem eram os sócios?

Parizotto - O Paulo Rubens de Lima foi a primeira pessoa que começou a trabalhar comigo. Farid Cury e Herbert Ulli Smeill

EXAME.com -  Mas onde o senhor conheceu-os?

Parizotto - Paulo e Farid eram meus amigos de Maringá. Herbert era de São Paulo e começou conosco, como diretor da filial de S. Paulo. Chegou um ponto que a gente estava tão grande, mas tão grande, e as filiais do interior ainda operavam no esquema antigo: atacado de entrega. O vendedor fazia a venda, nós faturávamos e o caminhão entregava a mercadoria. Como São Paulo estava muito bem e vendia com prazo médio muito curto, pudemos tomar uma medida drástica no interior: tiramos os vendedores das diversas regiões , vendemos a frota e chamamos o cliente para o balcão. A gente chamava os clientes e dava esse e aquele desconto, em função dele retirar a mercadoria no local. E o Stênio Garcia à frente dos comerciais.

EXAME.com -  Nessa época qual era o tamanho da empresa?

Parizotto - Tínhamos 3 000 funcionários e a maioria era pessoa de serviço braçal. Mas, como eu disse, o custo da administração era muito enxuto. Quando eu saí do Atacadão já tínhamos 5 000 funcionários.

EXAME.com -  E faturava quanto?

Parizotto - A empresa tinha um alcance nacional e fatura em torno de US$ 600 milhões. Em S.Paulo, às vezes, eu passava pelos boxes e via caminhões sendo carregados com placas do Ceará, Rio Grande do Norte, Maranhão, Pará, Mato Grosso, Rio Grande do Sul etc etc. Tinha gente do Brasil inteiro. Aquele sujeitinho que foi jóquei, que criava suínos em sociedade e fez tanta coisa...

EXAME.com -  O senhor saiu porque do Atacadão?

Parizotto - Em 1988 e 1989 eu ganhei o prêmio de Melhores e Maiores da Exame. Entre as 500 maiores, estávamos abaixo da 100ª. Fui receber o prêmio ao lado de grandes empresários por dois anos consecutivos. Em 1990 resolvi vender a empresa.


EXAME.com -  Por quê?

Parizotto - Desde 1985 eu vinha aplicando no ramo imobiliário. Eu era investidor, comprava muito apartamentos. Fiz uma carteira enorme de imóveis, me apaixonei pelo ramo. Era uma forma de investir o dinheiro que ganhava no Atacadão. Quando eu saí, optei por receber como forma de pagamento parte dos imóveis da empresa, como o galpão de 45 000 metros quadrados na Marginal Tietê. Com 52 anos, saí da empresa com uma carteira expressiva, que foi montada durante anos, com as reservas que eu tinha. Chegou um ponto que tive que constituir uma empresa para vender a minha carteira de imóveis.

EXAME.com -  Mas o que o levou a sair?

Parizotto - Na verdade, não tinha a mesma vibração com o comércio atacadista, não sentia o mesmo prazer e estava cansado. Ao mesmo tempo, via possibilidades imensas na área imbiliária, um desafio a ser encarado. E eu adoro desafios. Disse aos meus filhos: sentia mais prazer em atender um corretor de imóveis do que uma pessoa importante de qualquer empresa.

EXAME.com -  Mas o senhor não teve problemas com os sócios?

Parizotto - Nada, a gente se dava muito bem. Uma manhã chamei os sócios para uma reunião, às 8h da manhã. O Herbert, que era muito brincalhão, disse: Parizotto, isso é hora de ganhar dinheiro, não de fazer reunião. Ele achava que reunião naquela hora dava muito prejuízo. Baixei a cabeça e falei que queria fazer uma proposta para eles e que ia falar bem rápido, porque senão não conseguiria falar.

EXAME.com -  Mas e a conversa?

Parizotto - Eu disse para eles rapidamente: quero vender a empresa. E sugeri: ou a gente vende para uma empresa só ou pegamos as filiais do interior e vendemos uma a uma (já que éramos líderes de mercado em cada praça), ou vocês compram a minha parte ou eu compro de vocês. Brinquei: estou cheio de vocês todos, quero me ver livre. Eles deram risada e perguntaram se eu estava bem de saúde. Respondi que sim e eles voltaram à carga: fala a verdade, tem algum problema sério? Eu disse que não, que queria mudar de ramo. Aí eles perguntaram se era para valer, se poderiam pensar. Eles foram, pensaram e voltaram. Disseram que queriam comprar, mas perguntaram o que seria feito do capital de giro. Eu disse que sabia que teria que deixar uma parte do capital de giro para eles, caso contrário não teriam como tocar a empresa. Disse que aquilo a gente arrumaria, que eu queria trocar de ramo e se queria mudar de ramo teria que facilitar para eles. Eu disse que queria que a empresa se perpetuasse pela vida toda, afinal de contas era a minha cria. Eles foram, pensaram e voltaram. Disseram que queriam comprar e sugeriram um levantamento da empresa. Puxei uma folha de papel e disse que queria isso, que aquele valor era para comprar ou para vender. Que ou eu pagaria para eles ou eles me pagariam. Na verdade eu queria vender, mas fui duro. Um dos sócios fez uma contraproposta que não aceitei e que, portanto, agora eu seria o comprador. Eles pediram mais uns dias, voltaram e disseram que queriam comprar naquelas condições. Fechamos o negócio e recebi uma grande parte em imóveis e uma parte facilitei para eles me pagarem.


EXAME.com -  Qual era o valor do negócio?

Parizotto - Não me sinto à vontade para passar essa informação, por respeito a meus ex-sócios.

EXAME.com -  Foi aí que o senhor fundou a Inpar?

Parizotto - Fundei com meus dois filhos, o Marco e o Cesar. Eles eram formados, com uma certa experiência e já haviam trabalhado no Atacadão comigo. Um era formado na GV, outro na Luís de Queiroz, mas já tinham um bom conhecimento. Nunca induzi meus filhos a trabalharem comigo. Sempre deixei que eles fizessem o que gostassem. Quatro vieram e uma não trabalha. Os quatro que vieram comigo, hoje ocupam cargos importantíssimos, são profissionais de mercado e poderiam atuar bem em qualquer empresa. Hoje sou só o presidente do conselho. Assim como no Atacadão, a gente investiu para formar uma boa equipe. Fundamos a Inpar em 1992 e até 1993 eu fiquei só comprando terrenos. Também fui em busca de um engenheiro muito experiente para comandar a incorporação e de um engenheiro muito experiente para tocar as construções.

EXAME.com -  A sua experiência nesse setor era só compra e venda de imóveis?

Parizotto -Isso. Nunca tinha feito uma incorporação sob o meu comando. A primeira coisa que pensei é que precisava construir prédios de qualidade, (que não caíssem, risos). Contratei uma excelente equipe. O nosso primeiro lançamento foi em 1993, um residencial de médio padrão no Morumbi. Foi um sucesso. O mercado estava muito travado pelas dificuldades do final do governo Collor, depois Itamar e também a falta de financiamento. Como entrei com dinheiro, comecei a comprar muitos e bons terrenos. No bairro dos Jardins nós tínhamos muitas obras, na Vila Mariana, Moema, entre outros. Fomos comprando terrenos, que ainda existiam naquela época. Aí a Inpar começou a crescer, crescer, crescer.

As fases de arrancada mesmo foram alguns produtos, como a linha Sports Garden. Qual é a concepção? Há 12 anos, começamos a fazer um produto em que você entrasse num prédio e ficasse impressionado. Eu ia nos prédios existentes e não via vida, não tinha jardim, a recepção era feia. Eu queria encantar as pessoas quando elas chegassem no local. Então o que pensamos? Um terreno grande, poucos prédios e um apartamento de tamanho médio. Mas o lazer embaixo era à vontade.. Fizemos um produto espetacular. Tinha academia, uma bela piscina, muito jardim, salão de festas, pista de cooper, entre outros atrativos. Isso é comum hoje, mas naquela época foi uma revolução. A pessoa tinha prazer de receber os amigos no salão de festas do prédio. Chegava em casa, ia lá em cima, botava um short e ficava lá embaixo até tarde da noite. Foi um sucesso. Os clientes chegavam e se encantavam. O acabamento bonito, a entrada toda em mármore. E a Inpar começou a pegar mais fama e crescer. Fomos pioneiros nesse conceito e estivemos entre os primeiros a fazer o lançamento com apartamentos decorados. Além disso, investimos e estudamos técnicas modernas de construção.


EXAME.com -  Qual é o tamanho da empresa hoje?

Parizotto - Após o IPO, a empresa vem crescendo rapidamente. A estimativa, esse ano, é lançarmos 35 empreendimentos, com VGV de R$ 1,5 bilhão - o que certamente nos coloca entre as cinco maiores do país. Durante 10 anos consecutivos (1996 a 2006) lideramos como a maior construtora e incorporadora de São Paulo, segundo a Embraesp. Entramos no mercado em 1993 e em 1996 já éramos a segunda incorporadora. E aí fomos crescendo.

EXAME.com -  A empresa começou em São Paulo?

Parizotto - Só em São Paulo. Só depois do IPO a gente foi para o Brasil todo. Nesses dez anos, entregamos 147 prédios, entre residenciais, comerciais e flats. Uma média de um edifício por mês. Somente flats fizemos e entregamos 22 prédios, com aproximadamente seis mil quartos. Mas, normalmente, 80% do nosso negócio é de prédios residenciais É o que a gente realmente sabe fazer. Sempre pensei : se eu comprar o terreno certo, no lugar certo, se fizer um produto bem feito, agradar o cliente e souber vender isso não tenho como não ter sucesso. Foi a partir desses princípios que eu sempre trabalhei.

EXAME.com -  Os prédios que o senhor lançou nos últimos anos são todos de médio e alto padrões?

Parizotto - São prédios de todos os tipos. Fizemos apartamentos de 50 a 750 metros quadrados. Mas o nosso forte é o padrão médio. Apesar de nunca ter deixado de lado o padrão econômico. Somos uma das poucas empresas do mercado com experiência no padrão econômico. Nos últimos oito anos, construímos aproximadamente 2.000 apartamentos de 55 a 63 metros quadrados no Belenzinho e 2.500, no Jardim Marajoara. E estamos preparados para enfrentar essa que é a maior demanda brasileira e o maior desafio para as construtoras, que são os apartamentos de 40 a 60 metros quadrados. Não sabíamos que teríamos um Brasil tão grandioso para todos os setores. Eu digo sempre: vamos fazer o econômico, estamos fazendo. Mas vou continuar fazendo também apartamentos de 100, 200, 400 e (se tiver terreno adequado) até de 700 metros quadrados, de altíssimo padrão. Como, por exemplo, o L´Essence Vila Nova Conceição, que tem 750 metros quadrados de área útil e uma planta perfeita, com vista para o parque. É lindo. Considero o melhor apartamento de S.Paulo.


EXAME.com -  É onde o senhor mora?

Parizotto - Ia morar lá, mas tive que vendê-lo quando a empresa entrou em dificuldade. Mas sempre morei muito bem.

EXAME.com -  Mora num apartamento da Inpar?

Parizotto - Não. Por incrível que pareça não é Inpar. É da PBK Empreendimentos.

EXAME.com -  E por que a empresa entrou em crise?

Parizotto - O sucesso da InPar era tão grande e estávamos tão bem de caixa, que resolvemos investir em um outro segmento, que parecia bastante promissor, o negócio do futuro: reciclagem de latas de alumínio. Estudamos o mercado. Naquele tempo, em 1996, o Brasil consumia um bilhão de latinhas por ano. Para se ter uma idéia, no momento em que estávamos construindo a fábrica, uma latinha custava R$ 0,50 o quilo e o alumínio era vendido a US$ 1,5 mil a tonelada. Era um negócio espetacular. Importamos o equipamento da Inglaterra, com a condição de operar a plena carga, em sistema de turn key. Mas isso não aconteceu. A fábrica só funcionou após um ano e meio. Os técnicos ingleses apresentavam uma série de desculpas, mas o fato é que nunca funcionou. Comecei a me preocupar porque o dinheiro saia do caixa da Inpar. Eu tinha que tomar alguma medida drástica e pedi para que paralisassem as atividades. A pessoa que me apresentou o negócio e que era meu sócio pediu mais uma chance, mais verba para ir aos Estados Unidos buscar um técnico especializado, para equacionar o problema. Quando a fábrica realmente funcionou, entramos num período difícil: crise na Ásia, queda no preço do alumínio lá fora e valorização da lata no mercado interno. O quadro começou a ficar muito difícil e então vendemos a fábrica pelo valor equivalente aos ACC tomados. Mesmo assim, estávamos trabalhando com dificuldades, com carência de capital de giro e comecei a ficar preocupado. Sabia que precisava fazer alguma coisa imediatamente.

EXAME.com -  Ela nunca deu lucro?

Parizotto - Não. Infelizmente, pegamos o momento errado pois o ramo é bom.


EXAME.com -  E o senhor vendeu por quanto?

Parizotto - Da mesma forma do Atacadão, não gostaria de citar valores porque envolve outras empresas. O fato é que, em função do montante remetido à Recipar ter sido alto, passamos a tomar dinheiro no mercado. E os juros eram estratosféricos, nessa época. Tudo isso me preocupou muito, pois tínhamos obras em andamento. Então tomei uma decisão: chamei meus filhos e minha esposa para uma reunião muito importante. Disse a eles que precisávamos vender todos os ativos para pagar as contas e terminar as obras. Usei a expressão: vamos fechar para balanço. Disse que íamos lutar para quitar todas as dívidas. Se ficarmos a zero, mas honrados, a empresa vai continuar existindo. Se a empresa não pagasse as dívidas, ficaríamos zerados o resto da vida e desonraríamos o nome da família. Paramos de lançar e começamos a vender empreendimentos, para saldar os débitos. Esse período durou aproximadamente dois anos (2004 e 2005). Em 2006, entramos o ano com todas as dívidas saldadas.

EXAME.com -  O senhor vendeu o patrimônio da Inpar e pessoal?

Parizotto - O patrimônio dos meus filhos eu não pedi que fosse vendido. Mas vendemos praticamente toda a carteira de imóveis da empresa e também da pessoa física. Uma coisa bonita que a gente fez: quando reunimos a família, decidimos que um dos meus filhos e eu iríamos atender pessoalmente todos os credores. Um dia, meus filhos chegaram na sala, disseram que queriam colaborar e colocaram os imóveis onde moravam à disposição. E assim foi feito, porque esses imóveis tinham bastante liquidez. Vendemos e usamos o dinheiro para quitar as dívidas.

EXAME.com -  Nessa época vocês viviam de aluguel?

Parizotto - Não. Eles venderam imóveis de bom padrão e compraram outros mais baratos para morar.

EXAME.com -  O senhor conduziu pessoalmente as negociações?

Parizotto - Sim. Eu e um dos meus filhos. Sugeriram que eu colocasse um advogado para isso, mas eu disse que não. Quem assumiu a dívida fui eu, era eu que tinha que mostrar a cara para o meu credor. Eu tinha que contar a minha história.


EXAME.com -  O número de funcionários caiu nessa época?

Parizotto - Ah, sim. Cortamos mais ou menos 50% dos funcionários de 2004 a 2006. De 288 para 135. Hoje, temos 250 funcionários.

EXAME.com - E nessa época a empresa estava parada?

Parizotto - Não, a empresa nunca parou. Entregamos de 2004 a 2006 em torno de R$ 2 bilhões em obras, o maior volume já visto até hoje na cidade de S.Paulo. Também continuamos prospectando negócios. A espinha dorsal da empresa foi mantida. Depois que saldamos as dívidas, tínhamos algum caixa, que usamos para começar a montar nosso land bank. Como estávamos em atividade, percebemos que o mercado era totalmente favorável para o segmento imobiliário, que as oportunidades eram maiores e precisaríamos reforçar o caixa, para dar velocidade à compra de terrenos e expansão das atividades. Foi aí que surgiu a idéia do IPO. Em setembro de 2006, procuramos o Banco Credit Suisse, para formatar nossa operação de abertura de capital.

A expansão geográfica era nossa estratégia para crescer. Para isso, solicitamos ao Credit Suisse em dezembro de 2006 uma linha de crédito no valor 100 milhões de reais. Usamos esse dinheiro para comprar terrenos em vários Estados do país. Quando fizemos o IPO, já tínhamos um land bank de R$ 10,5 bilhões.

EXAME.com -  E pagaram até os empréstimos?

Parizotto - Tudo. Antes do IPO já não devíamos nada, o nosso passivo é só de terrenos comprados. Os diretores e sócios disseram que no road show contavam a história da Recipar e os investidores perguntavam o que tinha acontecido, se tínhamos pago as dívidas. Quando ouviam que tínhamos pago, tocavam o barco em frente. A gente começava a palestra contando os insucessos que a gente teve. Veja o que é transparência. E depois começávamos a mostrar a empresa. A gente queria mostrar que a Inpar era uma empresa diferente. Hoje, além de tudo isso que falei que nós fazemos também resorts, prédios médicos, galpões industriais.


EXAME.com -  Como foi o IPO?

Parizotto - Apesar de termos ido ao mercado em um período complicado, fomos muito bem. O que nós fizemos ? 100% de ações primárias. Fizemos zero para a família. Todo mundo faz secundária, que é para trazer grana para o bolso. Era um sinal de que a gente acreditava na empresa. Captamos R$ 756 milhões. Pegar uma empresa parada, sem fazer lançamento há três anos e com o problema que tivemos. Sabe o que valeu? O nome Alcides Parizotto e a história da empresa. A coisa que eu mais prezo é o nome da família

EXAME.com -  Como está a empresa hoje?

Parizotto - De vento em popa. Temos 14 diretores, sendo que oito são comerciais. Estamos em 12 Estados mais o Distrito Federal. Temos 35 lançamentos com volume geral de vendas (VGV) de 1,5 bilhão de reais para esse ano. Desse total, no máximo um terço está em S.Paulo. Para o ano que vem temos uma previsão de 2,2 bilhões de reais em VGV. Temos dinheiro, que estamos aplicando muito bem, com muito cuidado. É o dinheiro do nosso investidor e ele é muito exigente. É a grande virada. Em 2004, 2005 nós fechamos para balanço. Hoje me considero uma pessoa realizada.

EXAME.com -  Quando o senhor era moleque lá no sul imaginava que ia chegar onde está hoje?

Parizotto - Eu tinha um sonho. Uma obstinação. Eu sabia, parece que alguma coisa me dizia para ir em frente que eu teria sucesso.

EXAME.com -  Foi essa obstinação que fez o senhor chegar até aqui?

Parizotto - Com certeza. As pessoas me perguntam o que precisa fazer para chegar lá. Em primeiro lugar, tem que trabalhar muito. Durante praticamente 20 anos do Atacadão, trabalhei dia e noite, sábado e domingo. Só folgava no domingo à tarde. Eu tinha certeza, a confiança era tamanha que eu sabia que ia vencer.


EXAME.com -  Nunca teve medo?

Parizotto - No negócio, não.

EXAME.com -  Nem quando a empresa começou a afundar?

Parizotto - Aí não dá para esconder. Com certeza. Mas quando tomei a decisão de saldar a dívida, de equacionar o problema, tudo ficou claro. Sabia do meu potencial. Havia um problema sério mas optei por encará-lo de frente, com honestidade e enfrentá-lo. Quando você age assim e mostra para o outro lado (que eu e meus filhos vendemos os imóveis para saldar a dívida), você consegue chegar lá.

EXAME.com -  O senhor acha que teria chegado onde está se tivesse nascido num país que não o Brasil?

Parizotto - Não creio. O Brasil oferece oportunidade para quem se sente capaz de realizar alguma coisa. O que tem de coisa para ser feito pelo Brasil afora. Acredito que não teria o mesmo sucesso.

EXAME.com -  Tem alguma coisa que o marcou na história da Inpar?

Parizotto - Estava de olho num terreno na Vila Nova Conceição. Ele pertencia a uma senhora temida no mercado. Um dia fui pessoalmente no Santa Luiza e fiz uma cesta, com produtos especiais. Junto, foi um cartão. Nele, dizia que o motivo do presente era pedir única e exclusivamente que, no momento da venda do terreno, lembrasse de mim. E mandava o número do telefone. Durante dois anos eu sempre mandava um presente para ela, nas datas especiais como Páscoa, Natal.. E ela nunca ligou de volta. Até que um dia a secretária disse que tinha uma senhora que era dona de um terreno na linha, esperando para conversar comigo. Fiquei nervoso. Quando atendi, ela disse que tinha resolvido vender o terreno da Vila Nova Conceição, a despeito dos problemas que eu tinha causado com o marido dela, por conta da insistência dos presentes. Fui encontrá-la meio tenso e ela disse com um sorriso: o senhor é muito ousado. Sentamos e, depois de duas horas, era dono do terreno. Fiz ali o melhor prédio da Inpar.

EXAME.com -  Quanto custou o terreno?

Parizotto - Sete milhões de reais.

EXAME.com -  Quando foi isso?

Parizotto - Em 1997.

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