Mercado Imobiliário

Nada de Dubai: construtora aposta em arquitetura autoral no metro quadrado mais caro do Brasil

ABC aposta em edifícios menores e assinados por arquitetos para construir identidade própria em Itapema e outras cidades do litoral catarinense

Varanda do Mayfair, em Itapema: estilo próprio em orla de arranha-céus

Varanda do Mayfair, em Itapema: estilo próprio em orla de arranha-céus

Mitchel Diniz
Mitchel Diniz

Editor de Invest

Publicado em 15 de julho de 2026 às 05h00.

Última atualização em 15 de julho de 2026 às 10h53.

Itapema encerrou o primeiro semestre de 2026 com o metro quadrado residencial mais caro do Brasil. Segundo o Índice FipeZap de julho, o preço médio na cidade catarinense chegou a R$ 15.327 por metro quadrado, R$ 99 à frente de Balneário Camboriú, que ocupava a liderança nacional desde 2022. É nesse cenário de mercado acirrado entre duas cidades vizinhas que a ABC Empreendimentos, incorporadora fundada em Itapema, tenta construir um diferencial que não depende de altura de prédio: a arquitetura autoral.

A vizinha Balneário Camboriú carrega, há anos, o apelido de "Dubai brasileira". A cidade concentra sete dos dez edifícios residenciais mais altos do país e vai ganhar, nos próximos anos, o que promete ser o maior prédio residencial do mundo: o Senna Tower, torre de mais de 550 metros e 157 andares que a FG Empreendimentos constrói em parceria com a marca do piloto Ayrton Senna e a rede Havan, com VGV estimado em R$ 8,5 bilhões.

É justamente desse tipo de espetáculo vertical que a ABC tenta se distanciar. Em vez de superlativos de altura, a incorporadora aposta em prédios menores, com poucas unidades e assinatura de arquitetos como Leo Maia, Jayme Bernardo e Arthur Casas.

"Nós sempre entendemos que quem fazia mais do mesmo briga por preço. E quem fazia projetos autorais, com personalidade, com identidade, entregava valor, entregava algo atemporal, uma coisa que viraria com certeza ícone", afirma Thiago Cabral, fundador e CEO do grupo, em entrevista à EXAME.

Da corretagem aos 12,5 milhões de m² de land bank

Cabral fundou o grupo ABC & Embralot em 2011, aos 19 anos, ao lado do sócio Abelardo Benigno. A trajetória começou ainda mais cedo: aos 16 anos, ele já trabalhava como corretor em Itapema e usava os primeiros salários para comprar pequenos lotes na região, numa época em que o litoral norte catarinense ainda não tinha a relevância imobiliária de hoje.

"Fomos entendendo o mercado, sempre trabalhando muito e com uma visão de longo prazo", diz. "A empresa, para nós, sempre foi um projeto de vida."

A estratégia de comprar terrenos de forma disciplinada, antes que a valorização chegasse, resultou em um land bank com mais 12 milhões de metros quadrados em estoque de terrenos no litoral catarinense, um dos maiores da região. Só entre 2022 e 2025, a companhia lançou mais de R$ 3,5 bilhões em VGV e entregou duas mil unidades.

Thiago Cabral, CEO da ABC: aposta em arquitetura autoral para se diferenciar (Divulgação/Divulgação)

Por que apostar em arquitetos assinados

A guinada para a arquitetura autoral aconteceu pouco antes do início da pandemia.Cabral diz que o litoral catarinense reproduzia um mesmo padrão estético, sem grandes escritórios de arquitetura à frente dos projetos. "Aqui não se tinha ninguém que contratava um grande estúdio, um grande arquiteto. Era o que você vê daqui da sacada: parece que tudo foi feito pelo mesmo arquiteto, tudo muito parecido, tudo igual, sem personalidade", diz ele, conversando com a reportagem na varanda do 143 Mayfair.

O empreendimento em Itapema foi assinado pelo arquiteto Leo Maia e é inspirado nos hotéis boutique de Londres. Entregue em 2025, foi o primeiro edifício da cidade com assinatura de um arquiteto de fora do quadro interno das construtoras, afirma Cabral. São apenas 20 apartamentos de 3 e 4 suítes, com vista para o mar, rooftop panorâmico, spa e piscina revestida em pedra importada de Bali.

O VGV do empreendimento foi de R$ 100 milhões, uma fração dos R$ 8,5 bilhões do Senna Tower.

"Mais do que estética, a arquitetura autoral é uma forma de pensar a cidade com propósito", diz o empresário.

Três entregas em menos de um ano, longe da lógica do supertall

Bravo Residences: metro quadrado de imóveis super-exclusivos pode passar dos R$ 100 mil em Itajaí

Depois do Mayfair, a ABC entregou o Bravo Residences, na Praia Brava, em Itajaí, primeiro projeto integralmente assinado pelo escritório do arquiteto Arthur Casas em Santa Catarina. São apenas seis apartamentos, um por andar, entre 323 m² e um duplex garden de 580 m², com paisagismo assinado por Ricardo Cardim.

Segundo a ABC, o valor médio de metro quadrado em imóveis ultraexclusivos nessa região podem superar R$ 100 mil e tem potencial de valorização anual de até 30%.

O próximo passo é o ENÁ, na Praia do Estaleiro, em Balneário Camboriú, com assinatura do arquiteto Jayme Bernardo e entrega prevista para julho de 2027. São seis mansões suspensas, com plantas de 400 a 640 metros quadrados  e VGV de R$ 150 milhões.

A região do empreendimento tem restrição urbanística que libera apenas 40% da área para construção e limita prédios a três andares, o oposto do movimento de verticalização que rendeu à cidade o apelido de Dubai brasileira. A ABC descreve o posicionamento como "luxo silencioso".

Ená: discrição em vez de ostentação — nem parece Balneário Camboriú

Dois modelos de luxo no mesmo litoral

A convivência entre os dois modelos ilustra uma disputa que vem se desenhando no litoral catarinense: de um lado, torres recordistas, marcas globais e a promessa de colocar o Brasil no mapa da arquitetura de superlativos. De outro, edifícios de poucas unidades, curadoria de arquitetos brasileiros e discrição como argumento de venda.

O movimento de valorização do litoral também mudou o perfil de quem compra dos dois lados. Além de investidores estrangeiros da Europa, América do Norte, Oriente Médio e Ásia, a ABC registra alta expressiva de compradores de São Paulo nos últimos meses.

"Esse ano foi o ano que nós mais vendemos para paulistas na empresa", afirma Cabral. Para o empresário, essa é uma chancela de um "público de muito bom gosto".

Para Cabral, a aposta na arquitetura autoral deixou de ser um projeto pontual e virou política permanente da companhia. "Não interessa o resultado que isso dá financeiramente. Nós vamos fazer o que a gente acha que vai ser melhor para o nosso cliente e para o nosso mercado", afirma. E, segundo ele, tem tudo para se tornar uma tendência na região.

"Nós vamos ter muitos incorporadores se desafiando no bom sentido e encarando cada projeto como, de fato, uma obra de arte, uma escultura."

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