Mercado imobiliário
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Minha casa, minha fortuna, em Londres

Mesmo com uma economia cambaleante, o valor dos imóveis em bairros luxuosos de Londres está mais alto do que no período anterior à crise — muito caro indeed

LONDRES: após a crise, preços mais altos em bairros de luxo (Daniel Berehulak/Getty Images)

LONDRES: após a crise, preços mais altos em bairros de luxo (Daniel Berehulak/Getty Images)

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Thiago Bronzatto

18 de fevereiro de 2011, 11h39

Com culturas e gostos diferentes,o barão do aço Lakshmi Niwas Mittal e as famílias reais da Arábia Saudita e de Brunei têm, ao menos, uma coisa em comum: possuem um imóvel na Kensington Palace Gardens, a rua mais cara da Inglaterra e uma das mais seletivas do mundo, onde uma casa custa, em média, 28 milhões de dolares. Num nível, digamos, mais baixo, estão o chefão da Fórmula 1 Bernie Ecclestone, a escritora J.K. Rowling e o cantor Elton John, outros donos de propriedades na região que inclui os bairros de Kensington e Chelsea, onde estão sete das dez ruas mais caras do país. Para fazer parte desse mundo e estar perto do teatro Royal Albert Hall e da loja Harrods, o dinheiro não basta. É preciso entrar na fi la de espera. "É comum as imobiliárias terem uma lista com mais de 50 interessados em se mudar para a região", afirma Liza-Jane Kelly, diretora da imobiliária londrina Marsh & Parson, que vendeu cinco imóveis acima de 15 milhões de dólares no primeiro semestre deste ano. Um detalhe revelador: como é comum nesses bairros, três dos imóveis não tinham garagem.

A demanda é justamente a explicação para a alta do preço do metro quadrado nas áreas mais nobres de Londres nos últimos três anos, período em que a Inglaterra enfrentou uma forte retração econômica. Enquanto os imóveis no mercado britânico como um todo tiveram uma desvalorização de cerca de 25% desde 2007, as casas e os apartamentos nos bairros mais caros registraram alta de 19%. Neste caso não vale a velha explicação de que para os muito ricos só faz tempo bom. Nem Paris nem Nova York tiveram a mesma sorte. Nas duas cidades, os valores cobrados por imóveis top de linha caíram aproximadamente 20% em dólar nos últimos três anos (veja quadro). O que fez diferença em Londres foi uma legião de milionários estrangeiros. De acordo com uma pesquisa feita pela imobiliária inglesa Knight Frank, mais de 50% das aquisições de imóveis acima de 3 milhões de dólares são feitas por não britânicos. É gente com muito dinheiro em busca de portos seguros para investi-lo.

O efeito grego

No outro lado do Canal da Mancha, Paris foi vítima do medo despertado pelo euro. Os preços vinham em queda desde 2007 e, quando muitos esperavam uma recuperação, estourou a crise da Grécia, no começo deste ano. A tragédia fi scal grega chamou a atenção para as contas de Portugal, Irlanda e Espanha e espalhou o medo entre os investidores. O receio de um calote nas economias endividadas colocou um ponto de interrogação sobre o euro e desencorajou parte dos milionários e bilionários europeus, americanos, russos e do Oriente Médio a aplicar em imóveis na União Europeia. Nos Estados Unidos, o mercado imobiliário foi o detonador da "Grande Recessão", a queda do PIB americano registrada entre 2007 e 2009, a mais longa desde a Grande Depressão. A desconfi ança generalizada nos imóveis acabou contaminando até mesmo Nova York. "Nas áreas mais nobres de Manhattan, a oferta tem sido bem maior do que a demanda", diz Dina Miller, responsável pela área de vendas da imobiliária americana Miller Samuel.

Em Londres, a história que se conta é pontuada de otimismo. "O mercado tem potencial para superar o mais caro do mundo, o de Mônaco, nos próximos cinco anos", afi rma Noel Flint, responsável pelas vendas da Knight Frank. Quem olha para os sinais positivos costuma citar a venda recente de uma cobertura de 220 milhões de dólares com seis dormitórios, janelas à prova de bala e vista para o lago Serpentine, do Hyde Park. É o tipo de negócio que desperta os defensores da tese de que, na verdade, mais uma bolha foi formada e que ela estaria infl ada o sufi ciente para estourar em breve. Embora o segmento prime de Londres tenha passado sem grandes arranhões até o momento, há indicações de que o mercado pode estar a ponto de virar. Em julho, o preço do metro quadrado registrou a primeira queda em relação ao mês anterior desde março do ano passado. Fora isso, há sete meses a oferta de imóveis cresce nos bairros mais valorizados da cidade. Os potenciais compradores estão cada vez mais aumentando o leque de opções. A continuar assim, a tendência é de que diminuam a lista de espera e, principalmente, a quantidade de libras necessárias para ter Ecclestone, J.K. Rowling e Elton John como vizinhos.