Mercado Imobiliário

Mais barato que muito 'apê': prédio no Anhangabaú é vendido por R$ 3,5 mi

Valor equivale a cerca de R$ 900 por metro quadrado, refletindo abandono histórico da região

Um edifício inteiro por R$ 3,5 milhões: reflexo da degradação do centro de SP (Google Street View/Reprodução)

Um edifício inteiro por R$ 3,5 milhões: reflexo da degradação do centro de SP (Google Street View/Reprodução)

Letícia Furlan
Letícia Furlan

Repórter de Mercados

Publicado em 18 de março de 2026 às 11h00.

Última atualização em 19 de março de 2026 às 16h35.

Um prédio inteiro ao lado do Vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo, foi vendido por cerca de R$ 3,5 milhões. Isso equivale a cerca de R$ 900 por metro quadrado, numa uma área de 4 mil metros. O valor, o mesmo de um único apartamento em regiões de alto padrão da capital, expõe o nível de degradação e desvalorização acumulado ao longo de décadas no centro antigo da cidade.

A aquisição foi feita pela Citas, empresa focada em requalificação de imóveis, em um ativo que estava abandonado e sujeito a invasões recorrentes. O edifício, com pouco menos de dez andares, pertencia a uma família ligada a uma importante construtora, mas estava sem uso desde pelo menos 2019. O histórico de vacância, somado aos custos de manutenção e à dificuldade de ocupação, ajuda a explicar o desconto.

O caso não é isolado: ativos deteriorados no centro têm sido negociados a valores depreciados, abrindo espaço para uma nova tese de investimento imobiliário. "O que falta hoje no centro é a gente morando. Nossa missão é trazer mais gente para cá", explica Isadora Rebouças, CEO da Citas.

É nesse contexto que entra o novo projeto da Citas. Em parceria com a Ibirá Negócios Sociais, a empresa estruturou a primeira captação da linha Kasa Delas, voltada a moradia com foco em mulheres no centro da capital.

A captação de recursos combina investidores que entram como proprietários dos ativos com estruturas de financiamento de impacto em projetos específicos. De um lado, a empresa levanta equity ao atrair investidores — muitas vezes pessoas físicas recorrentes ou, em alguns casos, um único institucional — que compram o prédio, com participação inclusive dos próprios sócios. De outro, estrutura dívidas de longo prazo, com retorno atrelado ao IPCA + 6,5%, dois anos de carência e prazo de até 20 anos.

O modelo, porém, esbarra em limitações. Há resistência de grandes investidores ao centro e ao público de menor renda, além da ausência de linhas de crédito adaptadas ao multifamily. Nesse arranjo, a Citas não fica com o ativo no balanço — atua como operadora, responsável por estruturar o investimento, executar o retrofit e gerir o imóvel ao longo do tempo.

O projeto prevê entre 56 e 61 unidades, de studios a apartamentos de dois dormitórios. Pelo menos 50% das unidades serão destinadas a mulheres chefes de família com renda entre três e seis salários mínimos. O valor total de moradia — incluindo aluguel, condomínio e IPTU — deve variar entre R$ 1.800 e R$ 2.700, limitado a cerca de 30% da renda familiar. Apesar de não ter unidades para venda, o VGV (valor geral de venda) do edifício, já reformado e considerando sua localização atual, giraria em torno de R$ 30 milhões a R$ 40 milhões.

“O mercado ainda confunde impacto com doação. Investimento de impacto não é filantropia, mas sim capital estruturado com retorno esperado e metas sociais”, afirma Rebouças. Além da habitação, o projeto inclui parcerias para capacitação profissional e geração de renda, com monitoramento de indicadores sociais ao longo do tempo.

Ao contrário do modelo tradicional brasileiro, centrado na venda de unidades, a empresa aposta na locação como estratégia de longo prazo. A lógica também reduz riscos durante o retrofit.

"A gente prefere desenvolver para a locação porque sempre que eu tenho algum tipo de surpresa no meio do caminho. Se tiver, eu volto para a prancheta e eu reorganizo as minhas unidades, eu reorganizo a circulação, eu reorganizo as paredes. Eu não tenho um compromisso e uma obrigação de entregar o que tá no meu memorial de incorporação", explica.

O projeto se insere em um movimento mais amplo de reocupação do centro, agora com novos formatos. A Citas mapeou cerca de 300 edifícios com potencial de retrofit na região central de São Paulo.

Hoje, a empresa soma três ativos em operação, três em obra e outros em estruturação.

A expectativa é que o JB104 entre em obras nos próximos meses, com entrega prevista para 2027.

Na prática, o centro volta ao radar — mas sob outra lógica: ativos baratos, capital privado e modelos que tentam combinar retorno financeiro com impacto urbano.

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