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Elie Horn, o magnata dos imóveis

Quem é e como trabalha Elie Horn, o enigmático empresário que fez da construtora Cyrela uma estrela do setor imobiliário e do mercado de ações

Elie Horn

Elie Horn

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Cristiane Correa

Publicado em 10 de março de 2011, 13h56.

Preste muita atenção na foto ao lado. É a primeira vez que uma imagem de Elie Horn, de 61 anos, fundador e controlador da Cyrela Brazil Realty, a maior incorporadora e construtora do país, é publicada pela imprensa. Com fortuna pessoal estimada em 1,3 bilhão de dólares, Horn faz parte do seletíssimo grupo de 16 brasileiros incluídos na lista dos maiores bilionários do mundo, organizada pela revista americana Forbes.

Dentre todos eles, no entanto, Horn é o mais desconhecido e enigmático, o que adiciona uma dose de charme à sua fascinante história empresarial. Judeu fervoroso, ele sempre evitou a exposição pública sob o argumento religioso de que deveria cultivar a humildade. Isso se expressa até mesmo em sua maneira de vestir. "Seus ternos são à la Antônio Ermírio de Moraes", diz o empresário João Dória Júnior, seu amigo. Horn mora com a família numa casa de 1 000 metros quadrados, na zona sul de São Paulo.

O imóvel, avaliado em 6 milhões de reais, é menos impressionante que muitos dos apartamentos que constrói e vende. Suas raras aparições sociais em geral acontecem em eventos organizados pela comunidade judaica, como casamentos e festas de bar mitzvah, ou em reuniões com propósitos filantrópicos. Horn é hoje um dos maiores filantropos do Brasil. Estima-se que ele doe a projetos sociais 20% de seus ganhos.

Quem é Elie Horn
Origem
Alepo, na Síria
Idade
61 anos
Família
É casado e tem três filhos
Formação
Direito
Experiência
Trabalha no ramo imobiliário desde os 17 anos. É controlador da Cyrela, a maior contrutora e incorporadora do Brasil
Fortuna pessoal
1,3 bilhões de dólares

Elie Horn conseguiu manter-se quase anônimo enquanto sua empresa era vista apenas como um dos grandes nomes do mercado imobiliário nacional -- uma companhia que, ao longo das últimas décadas, conseguiu resistir e crescer em meio aos altos e baixos do setor. Hoje, a Cyrela é muito mais que isso. Trata-se de um fenômeno financeiro capaz de atrair a atenção de investidores brasileiros e internacionais.

Quando o mercado de imóveis no Brasil deu sinais de que se transformaria num bom negócio, a Cyrela surgiu como uma das grandes alternativas de investimento. No ano passado, a empresa registrou faturamento líquido de 689 milhões de reais. Em setembro, Horn deu seu passo mais ousado para consolidar a liderança: abriu o capital da empresa no Novo Mercado da Bovespa, a Bolsa de Valores de São Paulo.

Ao colocar suas ações nessa espécie de "sala vip" da bolsa, a Cyrela levantou de uma só vez 902 milhões de reais -- e Horn ainda manteve o controle, com 51% de participação. Na época do IPO, o valor de mercado da companhia era 2,2 bilhões de reais. Hoje, está em 5,3 bilhões de reais. Foi a bolsa que o fez ingressar no clube dos bilionários brasileiros.

Nos próximos meses, a Cyrela deve fazer uma nova emissão. (Por causa disso, Horn e os demais executivos da empresa estão impedidos pela CVM, órgão que regulamenta as empresas de capital aberto, de fornecer qualquer informação sobre os negócios. As entrevistas -- que já eram raridade na empresa -- foram banidas.) Segundo dados da consultoria Economática, entre as empresas brasileiras com ações negociadas na bolsa, a Cyrela aparece como a 17a mais valorizada.

"Apesar de todo o mercado imobiliário estar aquecido, a Cyrela é a empresa que melhor está aproveitando essa fase", afirma um analista especializado no setor. A espetacular valorização da empresa já chama a atenção de alguns especialistas do mercado financeiro.

Considerando que o lucro da Cyrela foi de 128 milhões de reais em 2005, um investidor que comprasse ações da companhia hoje levaria 41 anos para começar a ter lucro (para chegar a esse resultado, basta fazer um cálculo clássico: dividir o valor de mercado pelo lucro líquido). É um sinal de alerta. Mas não chega a empanar o brilho de um negócio construído silenciosamente ao longo de décadas.

Com o dinheiro obtido no IPO, Horn rapidamente iniciou uma trajetória de expansão nacional. Nos últimos dois meses, associou-se a três empresas -- as paulistas Mac e Plano & Plano e a gaúcha Golsztein. Também adquiriu a construtora carioca RJZ, por meio de uma troca de ações.


"As vendas no Rio de Janeiro já respondem por 25% do total da Cyrela e a expectativa é que neste ano cheguem a 40%", afirma Rogério Jonas Zylbersztajn, fundador da RJZ e agora vice-presidente da empresa de Horn. Concorrentes como a mineira MRV e a paulista Klabin-Segall estariam no radar de Horn. Além disso, o empresário está de olho em oportunidades ligadas ao agronegócio.

No último dia 2, a BrasilAgro, uma sociedade entre Horn, a Tarpon Investimentos e a argentina Cresud, fez sua estréia na Bovespa. Comandada pelo executivo Ivo Cunha, ex-presidente da incorporadora Gafisa, a BrasilAgro tem como um dos objetivos a compra de terrenos destinados ao arrendamento para o setor agroindustrial.

Horn só é o que é graças à sua história na Cyrela. E a Cyrela só se transformou numa máquina de fazer negócios graças ao estilo de seu fundador. Nascido em Alepo, na Síria, ele chegou ao Brasil na década de  50, ainda garoto. Aos 17 anos, começou a trabalhar com um de seus irmãos mais velhos, Joe, dono de uma construtora.

Sua tarefa era pesquisar onde estavam os melhores terrenos para futuras incorporações. Seu faro para esse tipo de negócio -- algo decisivo no ramo imobiliário -- logo tornou-se evidente. Horn passou, então, de funcionário a sócio da Cyrel, nome da empresa nos anos 60. Em 1978, já separado do irmão, mudou o nome da companhia para Cyrela.

No início da década de 90, tornou-se sócio do grupo imobiliário argentino Irsa, ligado ao húngaro George Soros, um dos maiores investidores do mundo. Juntos fundaram a Brazil Realty. Foi um movimento inovador. Na época, os empresários brasileiros do mercado imobiliário, setor tradicionalmente familiar e pulverizado, não sonhavam com a perspectiva de contar com um sócio estrangeiro. Dez anos depois, sufocada pela crise argentina, a Irsa vendeu sua fatia a Horn.

A estratégia decisiva, porém, foi concentrar os negócios numa parcela do mercado pouco sensível às crises dos anos passados: os imóveis de alto padrão, com preços superiores a 250 000 reais. Favo  recidas pela ausência de concorrência mais feroz, tanto a Cyrela quanto a Brazil Realty -- unificadas em maio de 2005 -- fortaleceram a sua marca e sofreram menos as flutuações do mercado.

Com o aumento dos investimentos no setor, o grupo ganhou notoriedade. "Num mercado em que grandes empresas como a Encol simplesmente desapareceram, a Cyrela foi se firmando como uma companhia sólida e de qualidade", diz um ex-executivo da empresa.


Os números da Cyrela
Faturamento líquido(1)
689 milhões de reais
Lucro(1)
128 milhões de reais
Empreendimentos lançados (1)
19
Valor de mercado
5,3 bilhões de reais
Valorização das ações desde o ingresso no novo mercado (set/05)
130%
(1) Dados de 2005
Fontes: empresa e Economática

A mão de Elie Horn está em cada decisão tomada na Cyrela. Ele é presença diária na sede da companhia, no bairro do Itaim, zona sul de São Paulo. Suas jornadas de trabalho estendem-se por 15 horas. Aos domingos, é comum vê-lo nos estandes de vendas de edifícios em construção. Para ajudá-lo, Horn conta com meia dúzia de altos executivos.

Os mais próximos são Rafael Novellino, encarregado da área administrativo-financeira, e George Zausner, responsável técnico pelos empreendimentos desenvolvidos pelo grupo. Ambos têm assento no conselho de administração. Até hoje nenhum terreno é comprado sem que tenha sido pessoalmente vistoriado por Horn.

Durante o desenvolvimento de novos projetos, costuma ouvir a opinião de corretores de imóveis. "Ele mais escuta do que fala", afirma uma ex-corretora da imobiliária Abyara, que participou de várias reuniões de pré-lançamento de empreendimentos comandadas por Horn. Ao perceber que um concorrente teve uma boa idéia,   não se constrange em copiar. "Quando viu que a Rossi começou a fazer pesquisa de mercado, mais de uma década atrás, a Cyrela tratou de fazer o mesmo", diz um ex-executivo da companhia de Horn.


Embora tenha atitudes estratégicas ousadas, como no caso da sociedade com a Irsa, Elie Horn é visto por seus pares como um conservador na gestão do dia-a-dia. "Ele é pé no chão", afirma um empresário próximo. "Dificilmente se deixa levar por modismos ou impulsos." Existe uma razão óbvia para essa política.

Num setor que exige investimentos elevados e de longo prazo, um passo maior que as pernas pode significar a ruína de uma empresa. Os exemplos estão por toda parte. O americano Donald Trump, conhecido pelo topete indomável, pela megalomania e pelo sucesso em programas de reality show, quase sumiu do mapa nos anos 90, acumulando dívidas de mais de 9 bilhões de dólares após fracassar em alguns projetos de hotéis e cassinos.

A Olympia & York, que por muitos anos ocupou a posição de maior empresa do mercado canadense, também sofreu com os efeitos colaterais dos sonhos de grandeza. Na década de 80, a Olympia & York começou a construir em Londres o Canary Wharf, que deveria ser a maior obra de desenvolvimento urbano do mundo. Incapaz de garantir recursos para terminá-la, a empresa sucumbiu. Seu fundador, Paul Reichmann, foi afastado da presidência em março de 1992.

Dois meses depois, a Olympia & York faliu. Destino dos negócios à parte, no aspecto pessoal Reichmann tinha muito em comum com Horn. Evitava a imprensa, fazia grandes doações a projetos comunitários e era um judeu fervoroso, que levava os preceitos da religião para dentro da empresa.

Horn jamais se esforçou para separar negócios e religião. Em sua crença, as duas coisas caminham juntas e, de alguma forma, se relacionam. Entre o anoitecer de sexta-feira e o pôr-do-sol de sábado -- período conhecido como shabbat, o dia sagrado de descanso semanal judaico --, nenhum dos 1 200 funcionários da empresa trabalha, não importando suas convicções religiosas. Durante 24 horas, as obras silenciam, as vendas são suspensas e nenhum documento é assinado.

Como sábado é um dia em que muitos potenciais compradores saem às ruas, os corretores da Cyrela desenvolveram alguns expedientes para não perder vendas e reduzir, assim, suas comissões. "Para compensar o shabbat, já cheguei a marcar reuniões com clientes no sábado à noite", diz um dos corretores da empresa dedicado à área de imóveis de alto padrão.


Em eventos e reuniões da Cyrela, o cardápio é sempre kosher, com alimentos preparados de acordo com a tradição judaica. A revista trimestral Style, distribuída a clientes e fornecedores, publica a lista de feriados judaicos do período e seu significado. "Numa empresa em que o dono pára tudo às 17 horas para rezar, a religião está presente em todos os detalhes", afirma um ex-fornecedor.

Fora dos horários dedicados à prática religiosa, Horn é um negociador duro -- e eficiente. "Ele tem uma voracidade comercial muito grande", afirma Meyer Joseph Nigri, dono da construtora Tecnisa e amigo do empresário há mais de 20 anos. Esse seu traço transformou-se em parte da cultura da Cyrela. Uma das formas que a empresa encontrou para aumentar as vendas é garantir aos corretores uma das maiores comissões pagas pelo mercado imobiliário.

Quem vende mais recebe mais. "Em troca disso, o seu Elie exige muito trabalho e dedicação", afirma um corretor. Além disso, a empresa é uma das poucas incorporadoras do país a contar com uma corretora de imóveis própria, a Seller, com uma equipe de mais de 100 vendedores. Com essa estrutura, a Cyrela comercializa quase 40% de suas unidades. Horn acredita que, assim, consegue identificar melhor as demandas dos clientes e garantir que os corretores se dediquem exclusivamente à venda de seus imóveis. Em alguns casos, o próprio Horn participa do fechamento do negócio.

Aconteceu com um em   presário paulista tempos atrás. Ele estava prestes a desistir da compra de um apartamento devido à falta de acordo sobre o preço. A diferença entre fechar ou não o negócio era de apenas 15 000 reais, mas nem o comprador nem o corretor abriam mão do valor. Foi então que Horn entrou em cena. "Nem para mim, nem para você", propôs. Sua sugestão foi que cada uma das partes doasse 7 500 reais -- 50% do valor da disputa -- a uma instituição de caridade. "Diante da proposta, não tive como não comprar o apartamento", diz o empresário.

É em atitudes como essa que Elie Horn revela seu lado de filantropo. Suas doações vão para projetos tão diferentes quanto a implantação de um banco de medula em Israel e a Associação dos Amigos do Menor pelo Esporte Maior (Amem), de São Paulo. "Além de apoio financeiro, Horn dá idéias para o programa", afirma o empresário Marcos Arbaitmann, presidente da Amem e dono da Maringá Turismo.

Seu empenho não é motivado pelo conceito de responsabilidade social, que hoje virou quase uma  obsessão entre as grandes empresas. "Ele segue a orientação de seu rabino: dividir com quem tem menos, da maneira mais discreta possível", diz um amigo próximo. O rabino em questão é David Weitman, do Beit Chabad Morumbi, com quem Horn costuma ter aulas de religião às 5 da manhã.

Arrecadar fundos para projetos assistenciais é uma das poucas razões que o levam a abrir as portas de sua casa. Em setembro de 2005, Horn recebeu mais de uma centena de convidados -- entre eles o prefeito licenciado de São Paulo José Serra (acompanhado de vários secretários), o banqueiro e seu conterrâneo Joseph Safra e o empresário David Feffer, dono da Suzano Papel e Celulose -- num jantar para angariar doações para o programa São Paulo Protege, cujo objetivo é tirar crianças carentes das ruas.


Horn foi o primeiro a anunciar sua contribuição: 1 milhão de reais. Em apenas 20 minutos foram arrecadados 10 milhões de reais. "Ele tem tanto dinheiro que essas doações, além de ser quase uma obrigação religiosa, não fazem nenhuma diferença em sua conta bancária", diz um amigo.

As maiores do setor
As construtoras e incorporadoras líderes no mercado paulista (o maior do país)
Incorporadoras
Construtoras
1
Cyrela Brazil Realty
1
Cyrela
2
Tenda
2
Tenda
3
Rossi
3
Setin
4
Setin
4
Rossi
5
Redevco
5
Company
6
Helbor
6
Bancoop
7
Fal 2 (1)
7
Gafisa
8
Ez Tec
8
MRV
9
MRV
9
Schahin
10
Gafisa (1)
10
Hochtief
(1) Dados de 2004
Fonte: Embraesp

Nos últimos tempos, Horn tem dado sinais de que começa a pensar em sua sucessão no comando da Cyrela. Dois de seus três filhos, ambos na casa dos 20 anos de idade, já trabalham na empresa e estão sendo treinados para conduzir os negócios. Outro nome que começa a aparecer como possível substituto é o de Rogério Zylbersztajn, o fundador da recém-incorporada RJZ.

Segundo pessoas próximas a Horn, ele estaria contratando uma consultoria externa para ajudá-lo no processo. A esses amigos, o empresário confidenciou que também estuda a possibilidade de deixar parte de sua fortuna para uma fundação, a exemplo do que fez o dono da Microsoft, Bill Gates, que destinou mais de 50 bilhões de dólares para a Fundação Bill & Melinda Gates.

Essa entidade, porém, não poderia levar seu nome ou a marca Cyrela. A explicação para essa iniciativa iria além da filantropia. "Não quero tirar dos meus filhos o prazer de construir algo com as próprias mãos", disse Horn.

Com reportagem de Marcelo Onaga