Mercado Imobiliário

Ele queria apenas fazer churrasco no apê e criou negócio de varandas milionárias

A história revela nicho do alto padrão que viralizou nas redes, mas está longe dos apartamentos compactos

Fotos do antes e depois da obra de retrofit com adição de varandas de 43 metros quadrados cada. (BR Retrofit/Divulgação)

Fotos do antes e depois da obra de retrofit com adição de varandas de 43 metros quadrados cada. (BR Retrofit/Divulgação)

Letícia Furlan
Letícia Furlan

Repórter de Mercados

Publicado em 26 de abril de 2026 às 11h56.

Vídeos de apartamentos ganhando varandas novas viralizaram nas redes sociais. Em vídeos que circulam no Instagram, estruturas metálicas surgem do lado de fora de prédios já erguidos, como se o imóvel estivesse sendo expandido em pleno ar.

Por trás do fenômeno, há uma origem pouco óbvia. Tudo começou com o desejo de um executivo do mercado financeiro de fazer churrasco no próprio apartamento. Sem encontrar no mercado uma empresa que entregasse a solução completa — do projeto à aprovação e execução — Alberto Alves decidiu tocar o processo por conta própria, ainda em 2012.

“Quando fui fazer a minha varanda, percebi que teria que contratar oito profissionais diferentes. Não existia um one stop shop para isso até então”, afirma.

O projeto acabou revelando um nicho praticamente inexplorado no mercado imobiliário de alto padrão. A partir dessa experiência, nasceu a BR Retrofit, que ganhou tração depois que Alves se aposentou e passou a dedicar mais tempo ao negócio.

A demanda começou com amigos e conhecidos, mas ganhou escala após a pandemia, quando a busca por espaços abertos dentro de casa se intensificou. O que era uma solução individual virou tendência — e passou a circular com força nas redes sociais.

O que os vídeos não mostram é o nível de complexidade por trás dessas obras. A criação de varandas em prédios já construídos está longe de ser simples — e, na prática, é restrita ao altíssimo padrão, em bairros nobres.

O principal gargalo não está na engenharia, mas na burocracia. A aprovação exige anuência de todos os condôminos, além de licenças em diferentes órgãos públicos. “A obra é a parte mais simples. O difícil é o caminho até conseguir fazer”, diz Alves.

A metragem também segue regras rígidas. Nenhuma varanda construída pela empresa tem menos de 35 metros quadrados — algumas chegam a 90 m². Isso ocorre por causa da chamada “regra dos 5%”, que limita a expansão a uma fração da área do terreno por andar.

O contraste com o restante do mercado é evidente. Enquanto novos lançamentos têm, em média, até 40 m², há apartamentos de luxo ganhando varandas desse mesmo tamanho — ou maiores.

Dados da Housi mostram que unidades compactas já representam 41,1% das intenções de lançamento no país, reforçando que o movimento visto nas redes está distante da realidade da maior parte dos compradores.

A conta também limita o público. O modelo só funciona em regiões onde o metro quadrado supera R$ 30 mil. Construir a varanda custa entre R$ 10 mil e R$ 13 mil por metro quadrado — valor elevado, mas inferior ao preço de venda de imóveis novos nessas áreas. Isso permite uma valorização que pode chegar a 50%.

Como a obra acontece

Na prática, a intervenção segue uma lógica pouco intuitiva: é feita “de fora para dentro”. Toda a estrutura metálica é montada externamente, reduzindo a necessidade de intervenção nos apartamentos.

“A gente praticamente não entra na unidade durante a obra. Até a quebra de parede é feita pelo lado de fora”, afirma Alves.

O processo lembra a construção de um novo edifício acoplado ao original. Em muitos casos, varandas mais profundas exigem pilares que descem até o subsolo, com novas fundações.

A estrutura pode subir rápido — até 20 andares em um mês —, mas o cronograma total depende das etapas iniciais e do acabamento.

Além disso, o uso de guindastes, plataformas e elevadores de obra eleva os custos fixos. É um tipo de intervenção que exige escala e coordenação, especialmente em prédios ocupados.

“É uma obra complexa, feita com o prédio ocupado. Não é algo que as grandes construtoras costumam querer fazer”, diz.

No fim, o que viraliza nas redes não é uma solução simples para ampliar apartamentos, mas o retrato de um nicho específico — que nasceu de um churrasco e acabou criando um novo mercado no topo do setor imobiliário.

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