Mercado Imobiliário

Eles venderam o terreno da família no Ceará para um projeto de R$ 30 bi

Grupo Carnaúba reúne 12 milhões de metros quadrados próximos a Jericoacoara e estrutura um masterplan até 2034 que inclui bairros, hotéis, polos econômicos e clubes privados no litoral do Preá

A advogada Cleide Lousada e o marido, o comerciante Ivo Ferreira de Azevedo, mantêm há mais de três décadas uma relação direta com as terras onde está sendo construída a Vila Carnaúba (Imagem gerada com IA/Exame)

A advogada Cleide Lousada e o marido, o comerciante Ivo Ferreira de Azevedo, mantêm há mais de três décadas uma relação direta com as terras onde está sendo construída a Vila Carnaúba (Imagem gerada com IA/Exame)

Letícia Furlan
Letícia Furlan

Repórter de Mercados

Publicado em 1 de julho de 2026 às 09h30.

Cruz, Ceará -- O município de Cruz, no Ceará, está no centro de uma das mais ambiciosas apostas imobiliárias do país. O Grupo Carnaúba está investindo R$ 5 bilhões até 2034 para transformar 12 milhões de metros quadrados da Praia do Preá em um destino turístico totalmente planejado.

A advogada Cleide Lousada e o marido, o comerciante Ivo Ferreira de Azevedo, mantêm há mais de três décadas uma relação direta com as terras onde está sendo construída a Vila Carnaúba — condomínio residencial e um dos primeiros empreendimento do grupo dentro da área adquirida durante a pandemia.

Parte dessa área pertencia à família de Cleide há gerações e foi incorporada ao projeto após uma negociação que se estendeu por nove meses. “Esse terreno, inclusive onde hoje é o Vila Carnaúba, foi do meu pai, foi do meu avô, foi do meu bisavô, do meu trisavô”, conta à EXAME.

Vila Carnaúba: ocupando 516.000 metros quadrados, o projeto foi desenhado para integrar o estilo de vida de luxo à natureza nativa de dunas, ventos e água (Vila Carnaúba/Divulgação)

A decisão de vender uma fração das terras veio depois de garantias de que o desenvolvimento respeitaria as características da região. Segundo ela, havia resistência inicial a projetos de maior impacto urbanístico. “A gente não queria que fosse feito qualquer coisa no espaço, tipo a construção de prédio de vários andares”.

O casal vendeu cerca de 25 hectares ao Grupo Carnaúba — o equivalente a 250 mil metros quadrados. Mesmo assim, Cleide e Ivo seguem como proprietários de aproximadamente 276 hectares adicionais, além da Fazenda Santa Rita, próxima ao aeroporto de Jericoacoara.

A família já havia recebido outras propostas para o uso das terras, incluindo projetos de grande escala, mas optou por não avançar. “A gente já teve várias propostas de fazer empreendimento com 3.000, 6.000 unidades, Deus me livre… tem que ser uma coisa simples e que respeite o local que a gente tanto ama”, conta Ivo.

Segundo Cleide, as conversas com o grupo foram marcadas por alinhamento de visão. “Foram meses de conversas e negociações pra gente estabelecer um momento de confiança e de responsabilidade… o que foi combinado foi conhecido”, afirmou.

A localização dos terrenos, a cerca de 800 metros do Aeroporto de Jericoacoara, pesou na decisão de manter parte da área sob controle da família. O aeroporto, que era estadual, passou por um processo de concessão e agora é administrado pela Fraport, a mesma empresa alemã que opera os aeroportos Fortaleza e Porto Alegre.

O contrato de concessão prevê um investimento obrigatório de R$ 100 milhões nos próximos 18 meses. O investimento visa colocar o aeroporto no radar de voos internacionais e aumentar o fluxo de rotas.

Por isso, ela avalia que o resultado foi positivo também do ponto de vista patrimonial, valorizando o restante do terreno que ela ainda terá em mãos.

“Meu pai sempre falava que nós ainda iríamos ver o terreno valorizando muito. Na época, tínhamos amor pelo local, mas não percebíamos o tamanho do potencial que ele tinha”, complementa.

O casal continua em diálogo com o grupo para possíveis novas etapas de desenvolvimento, mantendo como premissa a preservação e o crescimento ordenado da região.

Hoje, uma casa de 560 metros quadrados, próximo ao mega terreno do Grupo Carnaúba, sem matrícula, é encontrado por R$ 4,2 milhões -- o equivalente a R$ 7,5 mil o metro quadrado de área construída.

O projeto

O desenvolvimento da Praia do Preá pelo Grupo Carnaúba é de longo prazo e tem horizonte de execução até 2034.

Até o momento, foram investidos R$ 170 milhões no Vila Carnaúba — empreendimento com cerca de 500 mil metros quadrados — e R$ 95 milhões no Wind House, que ocupa aproximadamente 100 mil metros quadrados.

Diferente de um hotel comum, o Wind House não vende diárias e funciona como um clube para quem quer praticar kitesurf. O cliente adquire um título que lhe dá direito a utilizar as estadias e a infraestrutura do local. Já a Vila Carnaúba funciona como um condomínio residencial que contempla 192 lotes residenciais divididos.

Diferente de um hotel comum, o Wind House não vende diárias. O cliente adquire um título que lhe dá direito a utilizar as estadias e a infraestrutura do local

Wind House: o cliente adquire um título que lhe dá direito a utilizar as estadias e a infraestrutura do local (Luiza Neto/Grupo Carnaúba/Divulgação)

Dentro da área da Vila Carnaúba, 50 mil metros quadrados serão destinados ao primeiro hotel Anantara do Brasil, além de 24 além branded houses sob a marca do hotel.

Esses são os primeiros empreendimentos de um projeto que pretende organizar um território de 12 milhões de metros quadrados com 4,2 quilômetros de frente para o mar. Mas a estratégia não é a criação de um enclave privado, e sim a estruturação de um destino planejado, com diferentes usos e níveis de ocupação.

A aquisição de todo o terreno ocorreu durante a pandemia, em um contexto de preços deprimidos e baixa liquidez no turismo global.

“Foi um momento em que todo mundo estava tentando sobreviver. Ninguém estava olhando para investimento novo. Nesse contexto, os vendedores acharam que a gente poderia desistir e aceitaram negociar”, afirma Eduardo Juaçaba, sócio do Grupo Carnaúba.

A maior parte das terras estava concentrada nas mãos de sete famílias tradicionais — entre elas, a de Cleide e Ivo — que já haviam recusado propostas anteriores de projetos de alta densidade. A tese apresentada pelo grupo, de um destino turístico planejado com preservação e desenvolvimento ordenado, foi o ponto de virada.

“Acabamos conquistando a confiança deles”, comemora Juaçaba.

As primeiras aquisições, entre 2020 e 2021, foram estruturadas via club deal com cerca de 30 investidores, incluindo amigos e executivos da XP.

Os preços variaram conforme localização: cerca de R$ 60 por metro quadrado em áreas centrais, entre R$ 70 e R$ 75 em alguns trechos, e de R$ 10 a R$ 15 por metro quadrado em áreas mais próximas ao aeroporto.

No consolidado dos 12 milhões de metros quadrados, o preço médio de entrada ficou em R$ 25 por metro quadrado.

Hoje, o potencial de VGV da área, em um horizonte de 15 a 20 anos, é estimado em quase R$ 30 bilhões, com lucro imobiliário projetado de R$ 5 bilhões.

Nos projetos já estruturados, a Vila Carnaúba tem VGV estimado em R$ 850 milhões, enquanto o Wind House deve alcançar R$ 1,2 bilhão.

Ecossistema completo

O Grupo Carnaúba mantém ainda cerca de 8 quilômetros quadrados em áreas adjacentes ou próximas aos terrenos já adquiridos, sujeitos ao exercício de preferência de compra.

Essa estratégia funciona como uma medida de proteção do projeto. O objetivo é garantir o controle sobre o entorno caso surjam propostas ou investidores com uma visão considerada desalinhada do modelo de desenvolvimento sustentável e de baixa densidade proposto para a região.

No momento das aquisições iniciais, a decisão foi não imobilizar capital adicional nessas áreas, preservando recursos e mantendo apenas o direito de compra futura como salvaguarda estratégica.

O projeto avança em fases. A Vila Carnaúba já está em operação desde 2024, com infraestrutura ativa e áreas de lazer. O Wind House também funciona e deve chegar a 137 suítes na maturidade do projeto.

Já a próxima etapa inclui a construção do hotel Anantara, novas lagoas, clubes e o avanço do masterplan, que prevê ainda polos industriais, logísticos e até uma fazenda solar de 20 hectares.

Julio Capua, CEO do grupo, enxerga potencial para o desenvolvimento de um hub logístico na região. Segundo ele, a localização permite uma cobertura eficiente da região.

“Falei muito com a turma da Fraport sobre isso. Eu falei, pô, para mim aqui faria muito sentido fazer algum hub logístico perto do aeroporto, porque a gente tá mais ou menos equidistante, né? Mais ou menos 4 horas de Fortaleza, 4 horas de São Luís e 4 horas lá de Teresina”, afirmou.

Capua cita ainda potenciais ocupantes para esse tipo de estrutura. “Acho que aqui faria sentido, sei lá, Mercado Livre, ter um hub, alguma coisa do gênero”, disse.

Mas ele pondera que a implementação não deve ocorrer no curto prazo, diante de movimentos recentes de grandes players na região.

O plano de longo prazo é transformar o Preá em um ecossistema completo, onde morar, trabalhar e circular deixam de ser funções separadas e passam a coexistir dentro de uma mesma estrutura territorial.

Por isso, Grupo Carnaúba planeja incluir o programa Minha Casa Minha Vida (MCMV) como uma peça central do masterplan.

A iniciativa não é tratada apenas como um produto imobiliário, mas como parte da estratégia de organização urbana do território, voltada a atender a demanda de moradia gerada pela chegada de trabalhadores atraídos pelo novo polo turístico.

"Se a gente lançar só produtos de alta renda o que acaba acontecendo é um efeito de desordem urbana no entorno, porque a pessoa que vem para trabalhar vai acabar se virando para construir alguma coisa em algum lugar, o processo de favelização vai tomando conta e depois ele sai do controle", explica Eduardo Juaçaba.

O projeto está em fase de negociação com a Caixa. "Se depender dela, ela está pronta para abraçar o projeto", afirma o sócio do grupo. O grupo também mantém conversas com incorporadoras especializadas nesse segmento para viabilizar o desenho operacional e construtivo.

No campo técnico, o Carnaúba estuda o uso de construção modular e soluções industriais para as unidades, com o objetivo de dar escala ao projeto e, ao mesmo tempo, diferenciar o padrão arquitetônico do modelo tradicional associado ao programa.

Os estudos indicam potencial de até 2.000 unidades, mas a primeira fase deve começar de forma mais gradual, com cerca de 300 casas. O foco inicial está nas faixas 1 e 2 do programa, com preços estimados entre R$ 170 mil e R$ 350 mil.

Estrutura financeira

A captação começou com o club deal privado, levantando US$ 32 milhões. Em 2023, o Grupo criou um FII em parceria com a XP Asset, captando R$ 217 milhões de mais de 1.100 cotistas, que passaram a ter 30% de participação na holding do grupo.

Além disso, o Banco do Nordeste financia entre 70% e 90% das obras do Hotel Anantara, com R$ 150 milhões via linha FNE, com prazo de 20 anos.

Cada empreendimento funciona como uma SPE (Sociedade de Propósito Específico), como a SPE Vila Carnaúba e a SPE Wind House, separando financeiramente os projetos e limitando o risco para os investidores.

A holding central, Flow Holding, concentra 70% dos fundadores e 30% do fundo da XP. A remuneração dos investidores e distribuição de dividendos ocorre ao final de cada ciclo de projeto, quando as unidades são vendidas e o lucro é apurado, com parte reinvestida em novos empreendimentos.

Guiado pelo vento

Hoje, o mesmo metro quadrado que na pandemia custou R$ 25 está muito mais caro diante da pressão de valorização provocada pelo aeroporto de Jericoacoara, pelo Parque Nacional e pelo crescimento do  "turismo de vento".

O nicho turístico, centrado no kitesurfe, atrai praticantes de todo o mundo graças às características únicas do local: temporada de vento prolongada por sete meses, mar quente e raso, ventos constantes na mesma direção e extensa costa ideal para longas travessias, conhecidas como downwinds.

Historicamente, a descoberta do Preá como polo do esporte começou com estrangeiros — franceses, holandeses, portugueses e italianos — antes de ser explorada por brasileiros.

A evolução tecnológica, com equipamentos mais seguros e acessíveis a partir de 2009, ampliou a prática para mulheres, crianças e famílias, transformando o esporte em um estilo de vida.

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