Nicholas Perez, presidente da divisão de condomínios da Related Group: 'a sensibilidade dos juros é assumida por nós' (Related Group/Divulgação)
Repórter de Mercados
Publicado em 14 de janeiro de 2026 às 06h00.
Última atualização em 20 de janeiro de 2026 às 11h01.
A Related Group, uma das maiores incorporadoras do sul da Flórida, vive um dos períodos mais intensos de sua história. Com cerca de 100 projetos ativos nos Estados Unidos, a companhia também avança em mercados estratégicos como Brasil e México, onde mantém operações relevantes. Quase 90% do foco da empresa está em empreendimentos residenciais multifamily, que vão de habitação acessível a coberturas que podem chegar até US$ 100 milhões.
No Brasil, a empresa está finalizando a quinta torre do Parque Global, em São Paulo, projeto desenvolvido em parceria com a incorporadora Bueno Netto. A operação brasileira — iniciada ainda em 2012 com o edifício V-House e depois pelo Parque Global — foi marcada por desafios no licenciamento ambiental, mas ajudou a consolidar o nome da Related entre os compradores brasileiros. Segundo Nicholas Perez, presidente da divisão de condomínios da companhia, essa presença fortalece a confiança dos investidores também em Miami.
A cidade, aliás, se mantém como epicentro da operação e se beneficia diretamente de ciclos de instabilidade na América Latina.
“Sempre que há turbulência política ou econômica na região, vemos um aumento nos investimentos aqui”, afirma Perez. Latino-americanos, entre eles os brasileiros, figuram entre os principais compradores de unidades residenciais e investidores em projetos comerciais da companhia, aproveitando a estabilidade cambial e a previsibilidade do modelo americano de construção e repasse.
"Quando vemos eleições se aproximando na Colômbia ou no Brasil, observamos muito atentamente, ouvindo nossos contatos locais para entender se brasileiros ou colombianos vão querer tirar dinheiro do país por medo do resultado eleitoral", explica.
Os apartamentos da Related partem de US$ 800 mil, valor que praticamente dobrou desde o período pré-pandemia. Perez destaca que os contratos são à vista e com preços fixos, sem repasse de custos da inflação ou juros ao comprador. “A sensibilidade aos juros é assumida por nós”, afirma.
Para os próximos anos, a incorporadora não descarta ampliar a atuação no Brasil, mas sinaliza que isso só ocorrerá com a presença de um parceiro local com conhecimento regulatório e de mercado.
A seguir, os principais trechos da entrevista com Nicholas Perez, presidente do Related Group:
Qual o modelo de negócio da Related? Vocês trabalham com multifamily, casas ou prédios comerciais?
Nicholas Perez – Somos cerca de 90% focados no segmento residencial. Já construímos alguns prédios de escritórios. Inclusive, construímos nossa sede corporativa, com cerca de 110 mil pés quadrados, aqui em Coconut Grove. Também fizemos escritórios em Wynwood e alguns espaços comerciais. Mas, predominantemente, somos uma incorporadora multifamily. Isso vai desde habitação acessível até coberturas de US$ 100 milhões.
Quantos projetos vocês têm em andamento agora?
Considerando toda a empresa, só nos Estados Unidos, temos em torno de 100 projetos ativos. Alguns estão em construção, outros entrando na fase de locação, e alguns ainda em pré-venda. Há também projetos em fase de planejamento. Temos também a divisão internacional: estamos finalizando a quinta torre do Parque Global, em São Paulo, e temos cerca de seis projetos ativos no México.
Qual foi o papel do Brasil nesse crescimento? Os investidores brasileiros participaram desse processo?
O Brasil é a maior economia da América do Sul, então é difícil não fazer parte do crescimento de Miami. Muitos bancos e instituições brasileiras abriram escritórios aqui para se conectar com o consumidor sul-americano. Vemos compradores brasileiros diversificando investimentos, não só comprando apartamentos, mas investindo diretamente em projetos. Temos uma relação próxima com um family office brasileiro, com quem estamos fazendo nosso terceiro projeto.
E como a diferença de taxas de juros afeta esse investimento?
Todos os nossos contratos aqui são à vista. O modelo é diferente do brasileiro. No Brasil, o preço sobe com os juros e a inflação durante a obra. Aqui, se você paga US$ 100 mil, vai custar isso mesmo na entrega. A inflação e o aumento dos custos de construção são responsabilidade nossa. O cliente tem previsibilidade total. A sensibilidade aos juros é minha, e não do comprador.
Com as notícias recentes sobre a Venezuela, como você vê a relação histórica entre o país e Miami?
Muitos venezuelanos investem aqui. Sempre que há turbulência política ou econômica, há movimento. Isso vale também para Colômbia, quando Gustavo Petro assumiu a presidência, e Brasil, já que vocês mesmos tiveram questões recentes com presidentes e candidaturas. Sempre que há instabilidade, o mercado de Miami se beneficia. As pessoas querem tirar dinheiro dos seus países e investir em ativos reais em dólar. Acompanhamos de perto eleições e cenários econômicos nesses países para entender o impacto na demanda.
É lamentável que a gente se beneficie dessas crises, mas é a realidade do mercado imobiliário do sul da Flórida. Por isso, acompanhamos de perto o cenário político e econômico, assim como as taxas de câmbio dessas moedas atreladas ao dólar.
Quando vemos eleições se aproximando na Colômbia ou no Brasil, observamos muito atentamente, ouvindo nossos contatos locais para entender se brasileiros ou colombianos vão querer tirar dinheiro do país por medo do resultado eleitoral. Acompanhamos isso de forma muito próxima.
Sobre posicionamento político, prefiro não comentar, embora seja positivo que uma pessoa ruim não esteja mais no poder.
Quanto dinheiro um brasileiro preciso ter para investir em Miami com a Related?
O apartamento mais barato que temos à venda hoje custa em torno de US$800 mil, e são unidades que estão sendo concluídas agora. Temos opções de US$ 800 mil até US$ 60 milhões atualmente no portfólio.
Do ponto de vista tributário, é fundamental falar com um profissional da área. Primeiro, você precisa de um corretor local. Segundo, precisa de um especialista em impostos, porque não sei exatamente quais são as implicações fiscais de uma compra internacional.
Há muitas opções para comprar condomínios novos no sul da Flórida. Gosto de pensar que, comprando conosco, você está comprando do melhor. Mas há muitos bons desenvolvedores no mercado.
O preço de entrada hoje para um condomínio novo é em torno de US$ 800 mil, mas cinco ou sete anos atrás, antes da pandemia, era metade disso. A valorização imobiliária no sul da Flórida foi exponencial. O crescimento dos últimos cinco anos normalmente levaria quinze para acontecer.
A pandemia colocou Miami e a Flórida como uma vitrine global. Menos regulação para negócios, ausência de imposto estadual sobre renda, boa qualidade do sistema educacional, o mar, a possibilidade de usar um barco qualquer dia da semana, proximidade com a América Latina e o Caribe. Geográfica e socioeconomicamente, estamos em uma posição muito favorável.
O que você aprendeu sobre o mercado brasileiro com a parceria do Parque Global?
Estamos no Brasil desde 2012, com o VHouse [complexo de residências de alto padrão em Pinheiros], e agora com o Parque Global. Durante o licenciamento, houve uma suspensão judicial das licenças. Acabamos ficando mais tempo do que esperávamos, mas temos uma parceria excelente com a Bueno Netto.
É uma parceria muito positiva. Gostamos de ir ao Brasil, gostamos da cultura. E isso ajuda a vender nossos projetos aqui na Flórida.
Quando as pessoas veem a marca Related Brasil lá e depois veem a Related aqui, isso cria notoriedade e confiança. Vendemos para brasileiros em Miami, mas também investimos no Brasil. Isso tem sido benéfico para nós.
Para os próximos anos, vocês pensam em investir em outras cidades do Brasil?
Estamos sempre abertos a analisar oportunidades com parceiros locais fortes.
Quando você entra em um país com regras diferentes, precisa de alguém de confiança no local.
Eu posso entender o mercado de forma macro, mas detalhes como tamanho de unidades, número de vagas, etc., exigem conhecimento local. Nós entramos com expertise em marketing, marca e design. Estamos abertos a novas oportunidades.