Hugh Forrest, ex-diretor do SXSW: executivo defende que, mesmo mais corporativo, o festival preserva sua base criativa e aposta no SP2B como desdobramento dessa lógica no Brasil (Julia Beverly/WireImage/Getty Images)
Editora-assistente de Marketing e Projetos Especiais
Publicado em 17 de março de 2026 às 11h46.
Última atualização em 20 de março de 2026 às 13h06.
AUSTIN - Poucas pessoas acompanharam tão de perto, e por tanto tempo, a transformação do South by Southwest quanto Hugh Forrest. Há 35 anos ligado ao festival, ele ajudou a moldar o evento que saiu de um encontro de música local para se tornar um dos principais pontos de convergência entre tecnologia, cultura e negócios no mundo. É dessa posição, agora fora da operação desde o ano passado, que ele observa a edição de 2026 e as mudanças recentes no formato.
Na leitura dele, o SXSW atravessa um movimento de reorganização que altera dinâmicas, mas não rompe com a base construída ao longo de décadas. “Por um lado, ele ficou um pouco mais corporativo, mas ainda há muitas coisas estranhas, únicas e criativas acontecendo”, diz à EXAME, em entrevista realizada na SP House. Essa dualidade surge em meio à expansão acelerada de Austin, às mudanças na organização do festival e a um cenário de tensões políticas nos Estados Unidos.
A saída do SXSW no ano passado abriu espaço para uma nova frente de atuação. Forrest passou a se envolver com iniciativas fora de Austin, entre elas o SP2B, megaconferência prevista para agosto, no Ibirapuera, em São Paulo. A proposta, segundo ele, não passa por replicar o modelo que ajudou a construir, mas por adaptar parte da lógica que fez o SXSW crescer — a conexão entre pessoas, cultura e negócios — com foco nas características do ecossistema brasileiro. “O evento será bem-sucedido na medida em que destacar aquilo que é único do Brasil”, diz. A seguir, a entrevista.
O que me motivou é que gosto de trabalhar com coisas novas, ideias novas, projetos novos. E, novamente, o Brasil tem sido uma parte muito importante da comunidade do South by Southwest e parece entender esse “vibe” do evento, que mistura negócios, cultura e experiências. Já fui ao Brasil meia dúzia de vezes nos últimos dez anos e tive experiências muito boas lá. Gosto muito da comunidade criativa, do espírito empreendedor e da visão que o Rafael Lazarine e o time têm de construir algo realmente especial e único, que celebre as melhores partes do Brasil com o SP2B. Acho que existe um apetite para recriar isso de uma forma própria em São Paulo, em agosto. Isso é incrivelmente empolgante para mim.
Se fizermos o SP2B da forma correta, vamos engajar e ativar a comunidade local, startups, empreendedores e fundadores. Ao mesmo tempo, podemos atrair VCs, investidores-anjo e outros aportadores de fora da região. Isso cria uma oportunidade relevante para que empreendedores se conectem com pessoas capazes de investir em seus projetos e ajudá-los a avançar para o próximo estágio de suas trajetórias. Essa, aliás, sempre foi a fórmula de sucesso do South by Southwest: permitir que pessoas se encontrem em Austin, em março, e que essas conexões se transformem em oportunidades concretas de crescimento. Nesse sentido, o SP2B pode impulsionar uma comunidade que já é muito forte.
Acho que o SP2B se inspira no South by Southwest, e isso é positivo. Dito isso, o sucesso do evento vai depender da capacidade de destacar, valorizar e dar visibilidade ao que o ecossistema brasileiro tem de único e forte, tanto do ponto de vista de startups quanto da cultura. Essa sempre foi a lógica do SXSW em Austin, enfatizar os pontos fortes da cidade. Portanto, a expectativa é que o Brasil consiga fazer o mesmo, evidenciar o que tem de mais consistente em termos de startups, fundadores e investimentos, e apresentar isso ao mundo. Se isso acontecer, o impacto tende a ser muito relevante.
Do meu ponto de vista, ainda que um pouco de fora, vi um aumento de eventos não oficiais neste ano. Também percebi muita criatividade ao lidar com as limitações impostas pela ausência do centro de convenções, com ativações espalhadas por diferentes pontos da cidade. Foi, em essência, uma forma de usar a criatividade para encontrar novas maneiras de conectar pessoas. Em eventos como o South by Southwest ou o SP2B, há boas apresentações, palestras e painéis com muito conteúdo. Mas, mais do que isso, existem inúmeras oportunidades de networking, em que as pessoas podem se conhecer, criar conexões, gerar ideias e abrir caminhos para novas oportunidades que levam a projetos relevantes. É isso que torna um evento especial por si só. E me anima ver que, para os milhares de brasileiros que vieram ao SXSW nos últimos anos, o SP2B pode levar essa mesma energia e esse tipo de experiência para quem não conseguiu estar em Austin. Isso amplia o acesso para um novo público, o que é, novamente, muito empolgante.
Com certeza. Acho que muito desse DNA vem da própria cidade de Austin, da personalidade dessa cidade, que sempre cultivou e valorizou pessoas muito criativas, empreendedoras, com grandes ideias. Se esse é o DNA da cidade, e ele acabou se infiltrando e sendo incorporado ao South by Southwest, não acredito que a perda do centro de convenções por alguns anos ou mesmo mudanças na liderança alterem tanto o evento assim. Isso porque, novamente, esse DNA vindo da cidade é uma parte muito central e integrada à história e à identidade do SXSW ao longo de quase 40 anos.
Você mencionou uma expressão que muita gente conhece, “Keep Austin Weird”. O atual prefeito, que também ocupou o cargo há cerca de 20 anos, Kirk Watson, costuma dizer que isso, na verdade, significa “Keep Austin Creative”. E acho que esse espírito criativo continua muito vivo em Austin, mesmo diante de desafios como demissões e prédios que foram construídos durante o boom e hoje não estão tão cheios quanto antes. Se você pensar apenas no “weird”, pode até ser um pouco mais difícil encontrá-lo na cidade hoje. Mas, se você procurar, ele ainda está lá. O mesmo acontece com o South by Southwest. Por um lado, o evento ficou um pouco mais corporativo. Por outro, ainda há muitas coisas únicas, criativas e fora do comum acontecendo. E, de certa forma, isso torna a experiência até mais interessante, porque é preciso buscar um pouco mais por esses elementos. Quando você encontra, eles se tornam ainda mais valiosos e mais satisfatórios.
Austin cresceu muito nos últimos 15 anos. Sempre foi uma cidade em expansão, mas isso se intensificou recentemente, especialmente durante a pandemia, com a chegada de muitas pessoas vindas da Califórnia e de outras regiões. Esse crescimento é positivo, mas também trouxe pressão sobre a identidade da cidade. Tenho falado bastante, nos últimos dias, sobre o desafio para os moradores locais: acolher quem chega, mas também transmitir os valores e o que torna Austin única. A ideia é que essas pessoas se integrem à cultura local, e não o contrário. E, de modo geral, isso tem acontecido. Ainda existe um espírito de cooperação, mais do que de competição, que continua marcando a cidade. A lógica de que uma maré alta levanta todos os barcos ainda é muito presente. Também segue sendo possível, por exemplo, conseguir uma reunião com praticamente qualquer pessoa em Austin em pouco tempo.
Não consigo traçar um paralelo direto com o Brasil, mas nas vezes em que estive em São Paulo e no Rio de Janeiro, encontrei um ambiente acolhedor, com cultura, gastronomia e encontros muito dinâmicos. Isso me dá confiança de que é possível construir algo tão especial e único com o SP2B quanto o que foi feito em Austin. Também diria que um dos segredos do South by Southwest é o fato de ter sido construído ao longo de 40 anos. Por isso, me anima ver que a equipe do SP2B tem uma visão de longo prazo para o que quer desenvolver no Brasil. A presença de Esther Perel como keynote já no primeiro ano é um começo forte, mas acredito que o evento será ainda mais robusto no terceiro, quinto ou décimo ano. Esse crescimento gradual, orgânico, incorporando novos elementos ao longo do tempo, tende a resultar em algo muito potente.
Acho que é por isso que experiências, e eu nem gosto tanto da palavra “eventos”, são tão poderosas: elas colocam as pessoas frente a frente. Hoje, grande parte da nossa cultura e da nossa tecnologia nos afasta disso. Seja em um grande festival como o South by Southwest, em um jantar, em um restaurante, em um evento esportivo, em uma biblioteca ou em um museu, a interação presencial continua sendo fundamental.
Você mencionou a solidão. E quando estamos mais solitários? Para a maioria de nós, é quando estamos em casa, rolando o feed sem parar, navegando na internet. Experiências como o SXSW funcionam como um lembrete do quanto é poderoso estar no mesmo espaço que outras pessoas, compartilhar uma refeição, um café, uma conversa. As conexões que surgem desses encontros presenciais são de outro nível, completamente diferentes daquelas que acontecem quando estamos apenas online.
Sobre a inteligência artificial, estamos, sim, em um momento desafiador, em que muitas funções mais operacionais podem ser substituídas. Como disse Esther Perel no palco do SP2B hoje, vivemos uma era de incerteza. Nesse contexto, o papel humano é lembrar que a IA pode ser uma grande assistente, uma parceira em diferentes atividades, mas não deve concentrar poder demais. É preciso preservar o que é essencialmente humano, como o humor e a criatividade, como os elementos mais importantes das nossas vidas.