Marketing

O feed morreu? O que a produção infinita diz sobre o futuro da influência

Com produção infinita via IA e custo marginal próximo de zero, volume cresce, originalidade perde espaço e o diferencial migra de criar para filtrar

Uso de celular para redes sociais (Getty Images)

Uso de celular para redes sociais (Getty Images)

Da Redação
Da Redação

Redação Exame

Publicado em 21 de fevereiro de 2026 às 09h00.

Última atualização em 2 de março de 2026 às 16h29.

*Por Eder Redder

No futuro que já é amanhã, produtores de conteúdo terão acesso a uma capacidade inédita: criar um volume praticamente infinito de conteúdos tecnicamente muito bons. IAs automáticas não apenas vão gerar ideias, roteiros e textos, mas também editar visualmente, ler algoritmos, interpretar audiências e sugerir ajustes contínuos para maximizar performance.

Postar todos os dias ainda hoje é um desafio operacional, porque mesmo usando IA dá trabalho operar, revisar e decidir. Em um futuro muito próximo, as próprias IAs vão sugerir pautas, criar os prompts e gerar conteúdos em ciclos autônomos, ajustando formatos, temas e narrativas em tempo real.

Com isso, a barreira da produtividade cai de forma brutal. Criar deixa de ser difícil. Qualquer pessoa passa a conseguir operar como um “ótimo influenciador” do ponto de vista técnico. É nesse momento que ocorre a ruptura. Quem entrar em uma rede social passará a encarar um volume gigantesco de conteúdos criados por IAs, com boa execução formal, mas com pouca ou nenhuma originalidade real.

Embora o caminho correto (e o mais valioso) seja a intervenção humana, o ponto de vista pessoal e a construção de algo genuíno, o fato é que o volume esmagador de conteúdos genéricos tende a soterrar quem se dedica de verdade.

O efeito é muito parecido com o que já acontece nas buscas do Google. Coisas boas existem, mas ficam escondidas sob uma camada imensa de sites medianos, superficiais e otimizados. Encontrar algo realmente relevante exige muitos scrolls, muita exploração e um esforço cognitivo cada vez menos viável.

Até que algoritmos consigam identificar com precisão o que tem valor humano, original e profundo, a quantidade de exploração necessária será simplesmente impraticável.

É nesse contexto que surge o ponto zero.

Existe um ponto zero silencioso acontecendo agora, e ele não é tecnológico, é estrutural. A produção de conteúdo tende ao infinito, o custo marginal tende a zero, a qualidade média sobe, mas a originalidade relativa despenca.

Quando todo mundo produz bem, “bem” deixa de ser diferencial. É nesse ponto que surge a inflação de conteúdo: quanto mais conteúdo existe, menos cada unidade vale. Não porque ficou ruim, mas porque ficou abundante demais.

O efeito disso não é que as pessoas passam a consumir mais. O efeito real é que elas desistem mais rápido. O feed entra em colapso cognitivo.

O modelo atual foi desenhado para um mundo que já não existe, um mundo em que havia escassez relativa de bons conteúdos, em que a curadoria algorítmica era suficiente e em que a atenção humana parecia elástica.

Hoje, nenhuma dessas premissas se sustenta. O algoritmo não consegue explorar todo o espaço de produção, o usuário não aguenta explorar, e o sistema entra em entropia.

O fenômeno é parecido com o que aconteceu nos mecanismos de busca, mas nas redes sociais ele é mais profundo. Aqui não se trata apenas de informação, mas de tempo, emoção, identidade e pertencimento.

Por um período, as pessoas até se contentam com a superficialidade. Surge um nivelamento confortável, feito de conteúdos agradáveis, pouco conflitantes, pouco profundos, fáceis de consumir e fáceis de esquecer. É o fast food cognitivo.

Mas o cérebro humano não se satisfaz indefinidamente com estímulo sem significado. Ele tolera, ele consome, mas inevitavelmente procura outra coisa.

A partir daí, a audiência aberta se dilui, o alcance médio cai, a sensação de invisibilidade aumenta e creators medianos desaparecem emocionalmente. O feed vira um lugar de muito conteúdo, pouca memória e nenhum vínculo.

Ao mesmo tempo, o algoritmo esgota sua capacidade de gerar sentido. Ele continua excelente em repetir padrões e otimizar o passado, mas estruturalmente incapaz de reconhecer ruptura, sentido profundo e relevância futura. Quando todos otimizam para ele, surge um loop de mediocridade eficiente. O sistema continua funcionando, mas já não produz valor cultural novo.

Não é o fim do conteúdo. É o fim do feed como forma dominante de mediação cultural. No lugar, a curadoria humana volta a ser luxo e status. As pessoas passam a seguir quem escolhe bem, não quem produz muito.

O valor deixa de ser criar e passa a ser filtrar. A atenção migra para micro-mundos, comunidades fechadas, grupos pequenos e espaços com identidade clara, não por elitismo, mas por sobrevivência cognitiva. Nesse ambiente, conteúdo com risco volta a importar. Opinião clara, visão impopular, profundidade real e conflito passam a marcar mais do que formatos otimizados.

É nesse ponto que o papel do creator muda de vez. Em um mundo de produção infinita, criar não é diferencial. Ser referência é.

Influenciadores e produtores de conteúdo passam a depender cada vez mais de um trabalho consistente para alcançar curadores de qualidade, pessoas, comunidades e espaços capazes de reconhecer, sustentar e amplificar o que realmente importa. E é aqui que morre o influenciador mediano que sobrevive apenas como surfista de algoritmo.

Aqueles que hoje dominam técnicas de retenção, mas não constroem nada original, humano ou relevante, serão inutilizados pela saturação.

Paradoxalmente, isso é uma ótima notícia. Boa notícia para quem domina um assunto, para quem tem experiência vivida, visão própria e algo genuinamente relevante a acrescentar. Teremos menos creators, mas muito mais qualidade. Um mundo menos frenético, com menos ruído e mais sentido.

Quando tudo é bom, nada é especial. Quando tudo é produzido, o valor migra para aquilo que não pode ser automatizado: experiência, responsabilidade por uma opinião, risco reputacional, coerência ao longo do tempo e confiança acumulada.

O feed não some, mas vira camada superficial, ruído de fundo, vitrine descartável. O que importa migra para relações, curadorias, comunidades e referências humanas.

Em um mundo onde qualquer pessoa pode produzir conteúdo tecnicamente excelente, a pergunta decisiva passa a ser: quem você escuta quando quer algo que realmente importa?

Essa resposta define quem sobrevive — não como creator, mas como voz.

Vem logo futuro!

  • *Eder Redder é CEO da gen_c, agência de marketing de influência do Grupo Dreamers
Acompanhe tudo sobre:estrategias-de-marketing

Mais de Marketing

Conexão deve sustentar a próxima economia trilionária do bem-estar, diz Kasley Killam

'Se você se apoia demais na IA, para de usar a própria criatividade', diz criador do PDF

O 'ingrediente secreto' do bem-estar, segundo Jennifer Wallace, autora de best-seller

Baden Baden lança cerveja de 'Língua de Gato' com a Kopenhagen