Ian Beacraft, CEO da Signal and Cipher, durante palestra no SXSW 2026, em Austin (Marc Tawil)
Estrategista de Comunicação
Publicado em 17 de março de 2026 às 05h00.
Última atualização em 18 de março de 2026 às 12h04.
Sua empresa não tem problema de inteligência artificial (IA). Tem problema de design.
Foi isso que Ian Beacraft, CEO da Signal and Cipher, veio dizer ao SXSW, em sua palestra “Designing Companies for the AI Age”, uma das mais aguardadas desta edição. E a plateia ficou em silêncio.
A provocação veio logo na abertura: “A maioria das empresas está usando IA para fazer as mesmas coisas de sempre – só um pouco mais rápido”. Isso, na análise dele, é o maior desperdício da história recente do mundo do trabalho.
Beacraft, que tem como sócia a brasileira Michelle Schneider, também palestrante nesta edição do SXSW, dirige um laboratório focado no futuro do trabalho na interseção entre IA e design organizacional.
O talk dele, com casa cheia, não foi sobre ferramentas. Foi sobre como reengenheirar o sistema inteiro e por que ignorar isso é uma aposta contra o relógio.
Dez pontos que não saíram da minha cabeça e eu os divido com você.
A maioria das empresas trata IA como um instrumento mais sofisticado, “como uma câmera cara nas mãos de um mau fotógrafo”, disse Beacraft. O resultado é incremental, não transformador. Tratar IA como ferramenta só permite novas formas de fazer uma tarefa. O verdadeiro potencial da IA é reescrever as regras do sistema inteiro. Quem não entende essa distinção vai continuar otimizando para um mundo que já não existe. O slide que ficou na minha cabeça dizia, em letras garrafais: “Ferramentas possibilitam novas formas de realizar uma tarefa. A IA reescreve as regras do sistema”.
Beacraft citou uma pesquisa direta com profissionais: quando perguntados o que fazem com o tempo que a IA libera, a resposta foi quase unânime: mais trabalho. A textura do trabalho não mudou. Só a velocidade. Isso não é transformação. É aceleração do mesmo erro. O paradigma do trabalho permanece intacto porque as pessoas ainda estão operando dentro das mesmas estruturas organizacionais que foram construídas para um mundo sem IA.
Durante 150 anos, construímos organizações baseadas nas limitações humanas: atenção finita, expertise escassa, tempo limitado. Com agentes de IA, o custo de executar tarefas despencou. Hoje, é muitas vezes mais barato construir um protótipo do que realizar a reunião para planejar esse protótipo. Mas o custo de coordenar pessoas, alinhar culturas e tomar decisões estratégicas continua alto — e está crescendo. Quem não entende essa distinção vai continuar investindo no lado errado da equação.
Toda empresa é simultaneamente um sistema de coordenação e distribuição de trabalho, e uma cultura que mantém pessoas unidas em torno de identidade e propósito. O problema, como Beacraft mostrou com o caso da Klarna, é que esses dois sistemas estão tão entrelaçados que as organizações não conseguem separá-los. A Klarna demitiu 700 funcionários de atendimento ao cliente e substituiu por IA e precisou contratar de volta uma parte significativa porque a IA resolvia operações padrão, mas falhava nos casos extremos e não conseguia atender às necessidades humanas mais profundas dos clientes. O slide era direto: “Toda organização é duas coisas fingindo ser uma só”. Não saber distinguir coordenação de cultura é o erro que gera paralisia quando a IA começa a assumir a parte operacional.
Beacraft apresentou uma das estruturas mais claras que vi no SXSW. Operar é executar tarefas com IA: escrever o e-mail, o relatório, o briefing. Cerca de 95% do trabalho hoje está nesse nível. Desenhar é criar sistemas que resolvem classes inteiras de problemas, não casos individuais, como prompts, agentes, fluxos automatizados. Arquitetar é codificar valores, julgamento e cultura nos sistemas que os agentes vão usar. É o nível onde a intenção humana se torna infraestrutura.
A pergunta de sucesso muda em cada nível: no operar, “estou fazendo o trabalho certo do jeito certo?”; no desenhar, “meu sistema está melhorando sozinho?”; no arquitetar, “estou otimizando para o futuro certo?” A maioria das pessoas está em 90% operar. O futuro inverte essa proporção.
As histórias de agentes deletando e-mails, fazendo compras milionárias ou tomando decisões erradas não são bugs de tecnologia. São falhas de design organizacional. Beacraft foi direto: esses comportamentos acontecem porque não existe um ecossistema de governança que defina o que é sucesso, o que é falha, como escalar decisões para humanos e o que os agentes podem e não podem fazer. “Uma linha de comando dizendo ‘não faça isso’ não é suficiente. Você precisa de um ecossistema inteiro que diga como se comporta.” A governança não é uma camada sobre o sistema; ela é o sistema.
Essa frase, dita por Beacraft com naturalidade, parou a sala. Quando falhar é barato e rápido, toda a lógica de tomada de decisão muda. A estratégia que ele propõe é direta: não escolha a melhor ideia e execute. Execute múltiplas versões e deixe a realidade decidir qual funciona. “Planejamento é só reverter suas suposições. Construir te dá feedback real.” O novo slide da palestra dizia: “Construa três. Implante todas. Deixe a realidade decidir”.
Para trabalhar bem com IA, você precisa articular com precisão o que quer e o que não quer. Para trabalhar bem com agentes, você precisa saber delegar, dar contexto claro, definir sucesso e falha antecipadamente. São habilidades humanas fundamentais – comunicação e gestão – que sempre importaram, mas que a IA está tornando incontornáveis. Quem nunca desenvolveu essas habilidades vai encontrar na IA um espelho muito honesto.
As ferramentas mudam toda semana. Quem foca nas ferramentas entra em ir e vir permanente. O que não muda são os valores, as políticas, a governança e os critérios de qualidade da organização. É aqui que entra o conceito central da palestra: AIOS – Architected Information for Organizational Systems ou Informação Arquitetada para Sistemas Organizacionais. Um framework para estruturar a identidade, os valores e os processos de decisão de uma organização num dataset que programa os agentes de IA para operar segundo os padrões da empresa. Quando esse trabalho está feito, qualquer nova ferramenta pode ser plugada no sistema sem perder contexto e a organização deixa de ser dependente de qualquer provedor específico. “Cavamos a fundação antes de tentar construir o edifício. A maioria das pessoas está tentando começar pelo nonagésimo nono andar.”
Beacraft foi o único palestrante desta edição do SXSW que nomeou isso com clareza: a disrupção no trabalho vai criar uma crise de identidade em escala massiva. Não porque a IA seja melhor do que humanos em tudo, mas porque setores inteiros vão se reinventar mais rápido do que as pessoas conseguem se reposicionar. As barreiras para abrir um negócio estão desaparecendo. Uma pessoa com capacidade de articular intenção de forma eficaz pode competir com equipes muito maiores. Mas para quem não se reposicionar, o impacto vai ser real. “Não há precedente para isso em escala social. Essa falta de precedente vai gerar caos.”
Ian Beacraft veio ao SXSW falar sobre design organizacional numa era em que as restrições que moldaram o trabalho por 150 anos estão desaparecendo uma a uma.
A pergunta que fica está distante do “como uso IA?” e próxima de outra, mais difícil: “Como eu reestruturo o sistema inteiro para um mundo onde execução é barata e coordenação é o verdadeiro ativo?”
O sistema operacional da organização está sendo construído agora. A fronteira que sobra para humanos é a cultura ou o porquê por trás do trabalho.
Quem responder isso primeiro vai definir a mudança, e não apenas sobreviver a ela.