Nos últimos dias, Trump recuou das ameaças de usar força militar para adquirir a Groenlândia, um território autônomo dinamarquês (icarmen13/Getty Images)
Repórter de ESG
Publicado em 24 de janeiro de 2026 às 20h30.
Última atualização em 24 de janeiro de 2026 às 21h46.
As ameaças de Trump de tomar a Groenlândia abriram uma crise que desencadeou uma reação entre consumidores e investidores da Dinamarca, detentor da região do Ártico.
Nas últimas semanas, aplicativos de celular voltados ao boicote de produtos americanos dispararam em popularidade no país, sinalizando um desgaste nas relações entre aliados históricos.
O principal deles é o UdenUSA (“Sem os EUA”, em dinamarquês), que permite ao consumidor escanear produtos no supermercado para identificar sua origem.
Marcas americanas recebem um “X” vermelho, indicando reprovação, enquanto produtos de outros países ganham sinal verde.
O aplicativo tornou-se o mais baixado da Apple Store na Dinamarca, impulsionado pelas declarações de Trump sobre o território gelado, alvo de interesse sob o pretexto de "segurança nacional" e pela sua abundância em terras raras.
Criado por Jonas Pipper, de 21 anos, e um amigo de escola, o UdenUSA é descrito pelo desenvolvedor como uma “arma na guerra comercial para os consumidores”.
Segundo o fundador, a ferramenta permite que cidadãos comuns enviem um recado político aos Estados Unidos por meio de suas escolhas de consumo.
A Dinamarca tem cerca de 6 milhões de habitantes e uma economia equivalente à do estado americano de Maryland, o que limita qualquer impacto relevante sobre as exportações americanas. Por outro lado, o movimento chama atenção pelo seu simbolismo.
Outro aplicativo com proposta semelhante, o Made O Meter, também vem ganhando força e adesão dos usuários.
Segundo analistas, o boicote enfrenta obstáculos em meio ao alto engajamento. O principal é que identificar a real origem de uma marca nem sempre é simples. A cervejaria dinamarquesa Carlsberg, por exemplo, é responsável por engarrafar e distribuir produtos da Coca-Cola no país.
Além disso, tentativas de boicote a produtos americanos já ocorreram em outros momentos, inclusive após o tarifaço anunciado por Trump em 2 de abril, no chamado “Dia da Libertação”. Historicamente, porém, esses movimentos variaram em intensidade e duração.
Por enquanto, o UdenUSA segue em expansão. O aplicativo está sendo traduzido para outros idiomas, como alemão e inglês, deve chegar em breve ao sistema Android e já está disponível para download até mesmo nos Estados Unidos.
“Não sei se o Trump tem um iPhone”, disse o fundador. “Mas ele poderia usar o aplicativo, se quisesse", disse o fundador.
A reação não se limita aos consumidores. No campo político, até o Partido Popular Dinamarquês, legenda de extrema direita e historicamente simpática a Trump, passou a criticar duramente o presidente americano.
Em discurso no Parlamento Europeu, em 21 de janeiro, o deputado Anders Vistisen atacou diretamente Trump por sua retórica sobre a Groenlândia, sendo posteriormente advertido por violar regras da Casa ao usar palavrões.
O desconforto com os Estados Unidos chegou ao mercado financeiro. Em 20 de janeiro, o fundo de pensão AkademikerPension anunciou que havia se desfeito de toda a sua posição em títulos do governo americano. A venda, de cerca de US$ 100 milhões em Treasuries, teve impacto limitado em termos financeiros, mas grande repercussão.
A decisão provocou reação em Washington. Trump passou a ameaçar “grande retaliação” contra investidores que se desfizessem de ativos americanos em resposta às suas políticas.
Já no Fórum Econômico Mundial, em Davos, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, minimizou o movimento e afirmou que tanto os investimentos dinamarqueses em títulos americanos quanto a própria Dinamarca seriam “irrelevantes”.