Mercado imobiliário: O otimismo operacional reflete resiliência de demanda; a cautela estratégica reflete vulnerabilidade estrutural. (Leandro Fonseca/Exame)
Idealizadora e diretora-presidente do Instituto Mulheres do Imobiliário
Publicado em 27 de janeiro de 2026 às 08h30.
As discussões sobre o futuro do mercado imobiliário brasileiro costumam oscilar entre otimismo e cautela. O que as opiniões mais recentes revelam, porém, é uma divisão menos ideológica e mais estrutural.
A leitura do mercado muda conforme o lugar ocupado na cadeia produtiva e conforme o contexto regional em que se atua. Quem está na operação percebe sinais de continuidade e oportunidade. Quem ocupa posições estratégicas observa limites, riscos e restrições mais amplas.
Quando executivas, empreendedoras, advogadas, arquitetas e gestoras, distribuídas por diferentes regiões do país, convergem em suas preocupações, o debate deixa de ser opinativo. Passa a ser um retrato mais fiel das tensões que moldarão o setor em 2026.
A primeira diferença aparece logo na percepção de mercado. As empreendedoras demonstram otimismo moderado para o ano, enquanto, entre as altas lideranças, a cautela predomina, com expectativa de estabilidade. Não se trata de pessimismo gratuito, mas de uma leitura estratégica.
Quem está no topo da cadeia decisória lida com variáveis macroeconômicas, pressões de investidores, estrutura de capital e risco sistêmico. Quem está na operação lida com o cliente real, o produto que vende e a necessidade que atende, o que gera uma confiança mais imediata, ainda que vulnerável a mudanças de cenário. A questão não é quem está certo, mas o fato de que ambas as visões leem realidades complementares.
Escutei dois perfis distintos dentro do Instituto Mulheres do Imobiliário. De um lado, o Think Tank Amazonita, que reúne C-levels e lideranças estratégicas. De outro, o Clube Âmbar, formado por empreendedoras e profissionais que atuam diretamente na operação, da incorporação à gestão, do jurídico ao marketing. Não se trata de uma pesquisa quantitativa e, justamente por isso, ganha contornos ainda mais relevantes. Trata-se de uma sensibilidade qualificada.
O otimismo operacional reflete resiliência de demanda; a cautela estratégica reflete vulnerabilidade estrutural. Há consenso também quanto aos principais riscos: taxa de juros, polarização política e reforma tributária lideram as preocupações em ambos os grupos.
São vozes que ocupam diferentes lugares na cadeia produtiva e que compartilham o mesmo compromisso com a transformação do mercado imobiliário brasileiro.
A escassez de mão de obra é outro tema central para quem busca compreender o que o setor enfrentará nos próximos meses. Diante da crise de talentos, a pergunta é direta: o maior desafio está em reter ou capacitar?
Aqui, a diferença de perspectiva se torna ainda mais nítida. Para as empreendedoras, o principal desafio é a retenção de talentos. Faz sentido. Estão no dia a dia, vivenciando saídas frequentes, equipes desmontadas e projetos interrompidos por falta de continuidade.
Já entre as C-levels, o foco se divide entre capacitação e retenção, com uma mensagem clara: não adianta reter quem não está preparado para entregar o que o mercado exige. “Como sempre repito, falta muita capacitação para o setor", enfatiza Victoria Herendy, head de Incorporação Imobiliária no Banco Pine, com sede em São Paulo.
“A escassez de mão de obra qualificada e o menor interesse das novas gerações por engenharia e arquitetura não são conjunturais, mas estruturais. Investir em qualificação, melhorar condições de trabalho e oferecer trajetórias profissionais mais sustentáveis deixou de ser pauta de RH e passou a ser um tema estratégico de competitividade para o setor", opina Aline Liborio, arquiteta e coordenadora de produtos na Graal Engenharia, em São Paulo.
A convergência está no diagnóstico. Sem pessoas preparadas e engajadas, não há crescimento sustentável.
Outro ponto de divergência relevante aparece na agenda de governança socioambiental. Para as profissionais e empreendedoras, ESG é, antes de tudo, uma questão de cultura interna. Para a alta liderança, o principal motivador são os valores empresariais e as demandas de investidores.
Não se trata de contradição, mas de hierarquia de influência. Quem está na operação vivencia ESG como prática cotidiana, algo que precisa estar incorporado à cultura para funcionar. Quem está na estratégia entende que este tema se consolidou como métrica de investimento, exigência regulatória e fator de diferenciação competitiva.
“De sustentabilidade abstrata para benefício pessoal, hoje as práticas devem ser concretas”, resume Valéria Giolo, responsável pelo marketing da Financial Negócios Imobiliários, empresa do Mato Grosso do Sul. O mercado está amadurecendo. ESG deixou de ser discurso para se tornar decisão.
Um tema que independe de análises socioeconômicas e que segue impactando, de forma significativa, as profissionais do setor é a maternidade. Aqui, os dados são duros. Entre as respondentes que não ocupam cargos decisórios, a maioria precisou adaptar a carreira em função da maternidade. Já entre aquelas que atuam em posições estratégicas, a maternidade não impactou suas trajetórias.
A diferença pode estar no estágio de carreira, no tipo de função ou na estrutura das empresas. Ainda assim, uma leitura é inescapável. Quanto mais operacional a função, maior o impacto da maternidade. Posições estratégicas, geralmente associadas a maior autonomia e flexibilidade, permitem adaptações que cargos operacionais não comportam.
E isso não é apenas uma questão de gênero. É uma questão de modelo de trabalho. Se o setor pretende reter talentos, e já vimos que esse é um desafio crítico, será necessário repensar estruturas que ainda penalizam a maternidade com invisibilidade, estagnação ou exclusão.
Apesar das diferenças de lente, três eixos aparecem com força em ambos os grupos
Profissionalização
Joana Farias, proprietária de imobiliária e corretora de imóveis na Bahia, é cirúrgica: “O mercado imobiliário brasileiro chega a 2026 em um ponto decisivo. É hora de crescer com consistência. Não existe mais espaço para o corretor generalista que ‘vende de tudo um pouco’. O profissional do futuro é especialista."
Profissionalização não se resume a treinamento. Envolve processo, governança, transparência e especialização.
Liquidez
Sandra Lima, advogada e sócia no escritório de direito imobiliário Lima & Becker Advogados, aprofunda: “fortalecer o setor imobiliário em 2026 passa, necessariamente, por três pilares: segurança jurídica, acesso ao crédito sustentável e valorização de pessoas."
O mercado não cresce sem crédito. E o crédito, hoje, segue travado por juros elevados e incertezas.
Pessoas
Seja em capacitação, retenção ou atração, o capital humano é o principal gargalo competitivo. Eneia Verdi, fundadora e diretora da Verdi Imóveis em Passo Fundo (RS) e vice-presidente do Lide Sorocaba (SP), traz uma perspectiva essencial: “Capacitação para analisar dados e tomar decisões através delas e ter uma leitura de mercado antecipada e mais estratégica."
A convergência de percepções entre quem decide e quem executa aponta para uma verdade incômoda. O mercado imobiliário brasileiro não precisa escolher entre otimismo ou cautela, mas entre improviso e maturidade.
Em 2026, permanecerão relevantes aqueles capazes de profissionalizar suas estruturas, destravar o crédito com responsabilidade e tratar pessoas como ativo estratégico, não como custo operacional.