A grande jogada da mídia americana: aquisições e novos negócios

Atualmente investidores procuram publicações online construídas sobre uma base sólida de assinaturas
Prédio do The New York Times em Nova York: empresa acaba de comprar a The Athletic, de conteúdo esportivo | Foto: Lucas Jackson/Reuters (Lucas Jackson/Reuters)
Prédio do The New York Times em Nova York: empresa acaba de comprar a The Athletic, de conteúdo esportivo | Foto: Lucas Jackson/Reuters (Lucas Jackson/Reuters)
Carlo Cauti
Carlo CautiPublicado em 22/01/2022 às 11:48.

Nas últimas semanas, o mundo da mídia americana exibe uma efervescência caótica.

O The New York Times comprou o The Athletic por 550 milhões de dólares. A Vox Media comprou o Group Nine. O BuzzFeed, após o HuffPost, levou a Complex Networks, mas não conseguiu evitar o colapso de suas ações na Nasdaq.

Uma nova SPAC (empresa de aquisição de propósito específico, na sigla em inglês) tentou listar a VICE Media, mas ninguém quis entrar.

Essas foram apenas algumas das mudanças que o mercado da informação dos Estados Unidos está enfrentando no último período.

Especialistas do setor consideram que esse turbilhão de aquisições e cotações é a base de modelos de negócios que continuam mudando na velocidade da luz.

Tudo isso em uma indústria muito complexa que, sem dúvidas, não é para os fracos de coração.

O que deixa investidores mais perplexos são as valuations das empresas de mídia, especialmente daquelas 100% digitais, que estão sendo atribuídos sem nenhuma lógica aparente.

A Axios, uma startup com cerca de sessenta funcionários criada há cinco anos por três ex-jornalistas do site americano Politico, que sonhavam em criar algo entre a The Economist e o Twitter, recentemente foi avaliada em 430 milhões de dólares, cinco vezes o faturamento.

O próprio Politico foi comprado pelo grupo alemão Axel Springer por cerca de 1 bilhão de dólares, também cinco vezes a receita.

Mas o The New York Times, com seus 1.700 jornalistas, 132 Pulitzers conquistados (recorde absoluto) e 8,4 milhões de assinantes, tem um valor na Bolsa de Nova York de "apenas" 3,2 vezes seu faturamento.

Além disso, muitas ex-estrelas do mercado de informação digital estão conhecendo um momento complicado.

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É o caso do BuzzFeed, ex-galinha dos ovos de ouro que conquistava hordas de cliques com imagens de gatinhos fofos, mas que também sabia produzir furos. O BuzzFeed chegou a valer na Nasdaq 1,7 bilhão de dólares em 2016.

Hoje, após vários cortes e aquisições, como o do HuffPost e da Complex Networks, encontra-se com um valor de cerca de 700 milhões de dólares, apenas 1,2 vez o seu faturamento.

Outro caso parecido é o da VICE Media, que em 2017 foi avaliada em astronômicos 5,7 bilhões de dólares. Apenas dois anos depois, foi abandonada pela Disney, um de seus maiores investidores.

Após alguns cortes de funcionários e a aquisição da revista online feminina Refinery29, no ano passado a Vice tentou levantar 3 bilhões de dólares por meio de um SPAC para abrir seu capital. Pena que não encontrou investidores interessados.

Uma humilhação dupla se considerarmos que, nas mesmas semanas, Jon Kelly, ex-jornalista da Vanity Fair, levantou 7 milhões de dólares para criar a Puck, uma publicação online cujo modelo de negócios é baseado em assinaturas, contratando jornalistas famosos que mais tarde se tornaram acionistas.

Existe uma lógica em tudo isso? Pouca, mas há.

Em primeiro lugar, deve-se considerar que atualmente há pouco dinheiro circulando na indústria de mídia. A festa de investimentos que o setor vivenciou há alguns alguns anos, cujo ápice foram os rios de dinheiro que a Andreessen Horowitz colocou no BuzzFeed, acabou.

No ano passado, fundos de venture capital investiram em mídia digital apenas 115 milhões de dólares. Um décimo dos cheques nababescos assinados em 2015, que chegaram a 1,1 bilhão de dólares.

Além disso, o bolo do modelo de negócios baseado em cliques e publicidade online, o mesmo que nos bons velhos tempos fez a fortuna do BuzzFeed e da VICE, foi devorado pelas redes sociais.

Facebook e Google deixaram as ex-galinhas dos ovos de ouro da mídia digital com migalhas. Resultado: hoje os investidores procuram publicações online construídas sobre uma base sólida de assinaturas, não sobre a areia da propaganda online.

Essa abordagem faz a fortuna de pequenas startups centradas em grandes nomes do jornalismo e na informação de qualidade.

O Substack é um exemplo disso. A plataforma permite que qualquer jornalista publique seu conteúdo pedindo aos leitores que paguem para ler. E parece dar certo. Os dez melhores jornalistas do site geram receitas de 20 milhões de dólares por ano. Obviamente muito mais do que eles ganhariam como funcionários de grupos editoriais.

A estratégia baseada em assinatura é o que está movendo gigantes como o The New York Times. O jornal, conhecido no mundo jornalístico como a "Dama de Cinza", conta com 8,4 milhões de assinantes, a maioria dos quais digitais.

Com isso, o New York Times tem receitas trimestrais superiores a 500 milhões de dólares e lucros operacionais trimestrais de 65 milhões de dólares, com 1.700 jornalistas na folha de pagamento.

A mesma abordagem está permitindo a volta por cima do The Washington Post, comprado pelo fundador da Amazon, Jeff Bezos. Em quatro anos, o WP triplicou seus assinantes, contratando jornalistas e focando em inovação tecnológica.

Com a publicidade online devorada pelos gigantes das redes sociais, o caminho das assinaturas digitais não apenas parece o certo mas também o único que resta para mídia digital, seja nos Estados Unidos ou no Brasil.

*Carlo Cauti é Editor Multimídia da EXAME Invest. Jornalista e analista geopolítico italiano com mais de 15 anos de experiência, formado na LUISS G. Carli de Roma em Ciências Política, é mestre em Relações Internacionais, em Comércio Internacional e em Jornalismo Internacional e de Guerra, além de ter obtido um MBA na FIA - B3 no Brasil. Já foi correspondente no Brasil pelas agências NOVA e ANSA e editor-chefe do portal SUNO Notícias.