Tesouro: o Tesouro IPCA+ 2032 passou a pagar cerca de IPCA + 8,45% ao ano, um dos maiores retornos reais já registrados na história recente do Tesouro Direto (Canva Images)
Repórter
Publicado em 23 de junho de 2026 às 09h29.
Última atualização em 23 de junho de 2026 às 09h30.
O Tesouro Nacional cancelou nesta segunda-feira, 22, uma oferta de NTN-Bs, os títulos públicos federal atrelados à inflação, em meio a um forte estresse no mercado de juros. A decisão ocorre justamente quando o Tesouro IPCA+ 2032 passou a pagar cerca de IPCA + 8,45% ao ano, um dos maiores retornos reais já registrados na história recente do Tesouro Direto. Para investidores, porém, o momento cria um dilema: aproveitar uma remuneração considerada excepcional ou redobrar a cautela diante dos riscos que levaram as taxas a esses patamares.
Os juros reais dos títulos públicos vêm acumulando forte alta nas últimas semanas. A NTN-B com vencimento em maio de 2029, por exemplo, avançou mais de 80 pontos-base desde o início do mês, chegando a 8,81%. O desconforto do mercado ficou evidente na decisão do Tesouro de suspender o leilão de NTN-Bs previsto para esta terça, 23.
A medida afeta diretamente a oferta primária semanal de NTN-B, cujos benchmarks intermediários atualmente em calendário de leilão são os vencimentos de 2033 e 2037. Ainda assim, qualquer desorganização nesses pontos da curva contamina o restante da curva real e, por consequência, afeta preço e taxa dopapel de 2032 normalmente negociado no varejo.
Especialistas em renda fixa explicam, contudo, que o cancelamento não significa ausência de compradores para os títulos públicos. A leitura predominante é que os investidores continuam interessados, mas exigindo taxas que o governo considera excessivamente elevadas.Guilherme Almeida, head de renda fixa da Suno Research, avalia que a suspensão do leilão faz parte da gestão da dívida pública e busca evitar que o Tesouro valide juros considerados desfuncionais.
"Quando o Tesouro cancela a oferta, a interpretação mais direta é que o mercado só topa comprar os papéis a taxas que o governo considera excessivamente altas. Existe demanda, mas não nos preços que o emissor está disposto a aceitar", afirma.
Na avaliação do especialista, uma emissão com juros reais próximos de 8,5% representaria um custo muito elevado para a dívida pública. "Historicamente, uma taxa real de 8% já é muito alta. Se o Tesouro emitisse nesses níveis, estaria contratando um custo excessivo para financiar a dívida", diz.
Renan Diego, consultor financeiro, segue a mesma linha. O consultor aponta que o cancelamento deve ser interpretado como uma medida de cautela diante das condições de mercado. "Não significa necessariamente falta de demanda, mas sim que o governo não está disposto a emitir dívida a qualquer custo", afirma.
A abertura da curva de juros ganhou força após a reunião mais recente do Comitê de Política Monetária (Copom). Embora o Banco Central tenha reduzido a taxa básica de juros, a Selic, em 0,25 ponto percentual, para 14,25% ao ano, na semana passada, a comunicação da autoridade monetária foi interpretada pelo mercado como dura em relação ao cenário inflacionário.
Ao mesmo tempo, investidores continuam monitorando as contas públicas e os desdobramentos da política monetária nos Estados Unidos. "O mercado vem revisando suas expectativas para os juros tanto no Brasil quanto no exterior. Isso acaba aumentando a percepção de risco e exigindo um prêmio maior para financiar o governo", afirma Almeida.
Na prática, a suspensão reduz temporariamente a oferta de novos títulos no mercado.
"No curto prazo, a medida tende a ajudar na estabilização do mercado. Ao suspender a emissão de novos títulos, o Tesouro reduz a oferta de papéis. Paralelamente, a estratégia de recompra de títulos oferece liquidez para quem deseja vender posições. Essa combinação reduz a pressão sobre os preços dos títulos e pode ajudar a conter a alta das taxas exigidas pelo mercado", diz Daniel Borges, CEO da Route Investimentos.
Viviane Las Casas, especialista de renda fixa da Valor Investimentos, ressalta, no entanto, que há também um efeito de sinalização "menos favorável". "Cancelar um leilão comunica ao mercado que o próprio Tesouro considera o ambiente ruim o suficiente para suspender a rotina de emissão, o que confirma, na margem, que a curva está sob estresse relevante mesmo que a volatilidade tática diminua", diz.
Las Casas observa que, com isso, o cancelamento do leilão tem "efeito predominantemente técnico". "Não resolve a causa estrutural (incerteza fiscal e trajetória da inflação), apenas posterga a precificação formal de uma curva mais aberta".
Do ponto de vista dos investidores em títulos públicos, especialmente os indexados à inflação, o efeito é misto. Segundo Borges, a redução temporária de oferta de novos títulos no mercado ajuda a reduzir a volatilidade, mas também pode adiar uma eventual valorização dos papéis caso a curva de juros continue pressionada.
Os sinais apareceram ainda nesta segunda. Os contratos futuros de juros de Dpósito Interfinanceiro (DI) fecharam em queda. O DI para janeiro de 2029 recuou de 14,94% para 14,755%, enquanto o DI para janeiro de 2031 caiu de 14,90% para 14,685%.
"Já para quem leva o investimento até o vencimento, a rentabilidade contratada permanece inalterada", complementa o CEO da Route Investimentos.
Diante desse quadro, os especialistas em renda fixa consideram que o papel do Tesouro IPCA+ 2032, cujo rendimento passou a ser IPCA + 8,45%, representa sim uma oportunidade histórica para o investidor.
Almeida, da Suno, destaca que essa taxa atual está muito acima da média histórica dos títulos indexados à inflação. "A média de juros reais das NTN-Bs desde a criação do Tesouro Direto é próxima de 5,76%. Um papel pagando IPCA + 8,44% está em um patamar historicamente muito elevado", afirma.
Na avaliação do head de renda fixa da casas, o investidor que carregar o título até o vencimento pode travar uma remuneração rara no mercado brasileiro.
"É uma oportunidade tática com viés de longo prazo. Estamos falando de um juro real extremamente elevado e que oferece um colchão relevante de proteção patrimonial", acrescenta Borges.
O consultor financeiro Renan Diego ressalta que investidor precisa entender que oportunidade não significa ausência de risco. Diego lembra que quanto maior a taxa, maior costuma ser a volatilidade do título. "Quem compra um IPCA+ 2032 precisa estar confortável com oscilações relevantes no preço caso precise vender antes do vencimento", afirma.
Ele afirma que a pergunta correta não é "a taxa está boa?", mas sim "esse título está alinhado ao meu objetivo?".
"Para quem possui horizonte de médio e longo prazo, não pretende resgatar antes do vencimento e busca proteção contra a inflação, um IPCA+ 2032 próximo de IPCA + 8,45% pode representar uma das melhores relações entre risco e retorno disponíveis hoje no mercado brasileiro. Por outro lado, para quem pode precisar do dinheiro nos próximos anos, a cautela continua sendo necessária por conta da marcação a mercado", diz.