Renda fixa: taxas de títulos americanos e japoneses batem recorde (IA/Gemini/Google/Reprodução)
Repórter de Invest
Publicado em 20 de janeiro de 2026 às 06h00.
Última atualização em 20 de janeiro de 2026 às 09h35.
O mercado financeiro global vive um momento de cautela e o motivo vem também de potências que costumam ditar o ritmo do dinheiro no mundo: Estados Unidos (EUA) e Japão. O rendimento dos títulos públicos de longo prazo desse dois países, também chamado de yield, não só voltou a subir como bateu recordes.
Nos EUA, o governo vendeu US$ 138 bilhões em títulos do Tesouro e viu a taxa de retorno dos papéis de dez anos saltar para 4,24%, o nível mais alto desde o último mês de setembro. Já no Japão, houve disparada dos rendimentos de títulos de dez a 40 anos, devido a promessas eleitorais de cortes de impostos que podem impactar as contas públicas do país, de acordo com especialistas ouvidos pelo The Economic Times.
Quando há um aumento no percentual de retorno desses títulos – ou seja, uma elevação de quanto um título paga por ano em relação ao seu preço –, o valor de face dos títulos fica mais barato, abrindo, talvez, uma janela de oportunidade de investimentos. Será que algo parecido poderia ocorrer por aqui?
O economista e sócio da Garantia Capital, André Perfeito, pondera que aquela relação automática de “subiu lá, sobe aqui” não é mais uma certeza absoluta, pois o dólar vem perdendo força globalmente em meio, ainda, a posturas do presidente americano Donald Trump que geram desconfianças nos investidores, mudando o rumo global.
“Uns cinco anos atrás eu teria falado que a alta dos yields nos Estados Unidos iria pressionar uma alta dos rendimentos a longo prazo também aqui no Brasil. Só que isso hoje em dia não necessariamente mais é verdade”, acrescenta. “Pode acontecer, mas não é tão esperado assim.”
O economista destaca que o cenário doméstico brasileiro pode falar mais alto: o Boletim Focus indicou uma leve queda na inflação nacional, e o Banco Central (BC) pode ter maior espaço para cortar a Selic, o que teria um efeito mais potente nos rendimentos dos títulos brasileiros do que qualquer barulho vindo de Washington ou Tóquio.
Para o investidor pessoa física, esse cenário é um prato cheio de contrastes. O risco mora na volatilidade para quem está exposto a títulos prefixados ou indexados à inflação (IPCA+) de longo prazo, já que as oscilações de preço podem assustar no curto prazo. Perfeito indica, em um ambiente de incerteza, alocar em pós-fixados, como o Tesouro Selic.
Já o economista e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), Paulo Gala, vê esse momento como uma “janela de oportunidade”. Com os preços dos títulos mais baixos, quem entra agora consegue “travar” retornos mais elevados. “Acredito que já estamos próximos de um topo histórico nos yields e que, no médio e no longo prazo, a tendência seja de queda" tanto aqui quanto lá fora.
“Esse movimento de alta dos yields lá fora está ligado a um ambiente internacional mais tenso. Há o caso do Japão, com perspectiva de inflação, uma desvalorização cambial e yields curtos ainda muito baixos, além das tensões geopolíticas nos EUA relacionadas às políticas do Trump. Tudo isso acaba pressionando os yields para cima”, explica Gala.
O movimento pode, também, tornar mais atraente os títulos lá fora do que os brasileiros para o investidor estrangeiro, especialmente no curto prazo, segundo o sócio-fundador da Guardian Capital, Thiago Azevedo.
“Com retornos mais altos em mercados considerados mais seguros, como EUA e Japão, parte do capital global migra para ativos de menor risco.”
Gala adiciona que, quando há elevação do retorno desses títulos, há um pouco de migração de recursos para o exterior.
“Com isso, o Real se desvaloriza e as taxas dos títulos brasileiros sobem, até um ponto em que esses ativos voltam a ficar atraentes novamente. Os mercados vão se ajustando.”
Mas o panorama só viraria uma oportunidade, para Azevedo, se a alta nas taxas de retorno no exterior não virem acompanhadas de estresse global e se o Brasil conseguir reduzir o seu prêmio de risco doméstico. “Taxas elevadas permitem travar bons retornos e capturar ganho de capital no fechamento futuro da curva.”
“Para quem está em pós-fixados curtos, pouco muda. Já investidores expostos a prefixados longos ou IPCA+ longos precisam de atenção maior à volatilidade. O risco aqui é de preço, não de crédito”, complementa Azevedo. Segundo ele, caso haja impacto para o Brasil, isso deve aparecer primeiro em títulos públicos, bem como em maior defasagem no crédito privado.
Existe, assim, um debate sobre o quanto o Brasil realmente será afetado desta vez. A ideia de “fuga para a segurança” parece não estar mais concentrada na moeda americana e tampouco no Japão. Por isso, a alta dos yields lá fora, que reflete menor demanda por títulos, não significa, necessariamente, um Real mais fraco ou retornos mais altos no Brasil.