Renda fixa será o ‘cisne’ de 2022; veja como aproveitar as oportunidades

A redução de incertezas no cenário de juros e inflação e o próprio fato de que as aplicações voltarão a render perto de 1% ao mês tornam a renda fixa uma das apostas de gestores para o ano que vem
Com alta dos juros, renda fixa deve voltar a render 1% ao mês em 2022 | Crédito: iStock/Thinkstock (iStock/Getty Images)
Com alta dos juros, renda fixa deve voltar a render 1% ao mês em 2022 | Crédito: iStock/Thinkstock (iStock/Getty Images)
Por Bianca AlvarengaPublicado em 23/12/2021 07:45 | Última atualização em 23/12/2021 16:00Tempo de Leitura: 7 min de leitura

O histórico brasileiro de juros altos deixou o investidor habituado a bons ganhos na renda fixa. Essa tese, no entanto, foi colocada à prova nos últimos anos e, em particular, no período em que a taxa Selic despencou até chegar a 2% ao ano. Durante essa fase, as aplicações mais conservadoras acabaram se tornando o "patinho feio" da carteira de investimentos, justamente pelo baixo rendimento e pela incapacidade de fazer frente sequer à inflação.

Tudo isso mudou recentemente, quando os juros escalaram dos 2% para os atuais 9,75% ao ano. Ainda que a alta da Selic tenha devolvido a atratividade aos investimentos de renda fixa, esse caminho foi marcado por bastante turbulência.

A forte alta da inflação ao longo deste ano e, principalmente, das projeções do índice de preços (o IPCA) para 2022 e 2023 causou a chamada abertura da curva de juros: o mercado começou a precificar taxas de juros futuras mais elevadas, tentando calibrar a Selic que seria necessária para conter a alta dos preços e ancorar as expectativas.

Esse efeito penalizou a precificação presente de parte dos títulos de renda fixa na chamada marcação a mercado, o que frustrou o investidor que esperava um rendimento atraente, estável e sem sustos dessa categoria de ativos.

Em 2022, esses riscos parecem mais claros. As últimas sinalizações do Banco Central indicam uma Selic na casa dos 12% ao ano até o fim do primeiro trimestre, e o início de uma queda gradual na reta final do segundo semestre. A inflação também deve ceder pouco a pouco e terminar o ano perto dos 5%. Ao contrário do que ocorreu em 2021, no próximo ano o investidor deve voltar a conviver com um juro real positivo (ou seja, a Selic voltará a superar a inflação).

Assim como ocorreu na fábula do "patinho feio", a renda fixa deve, em 2022, completar seu ciclo para se tornar um belo cisne. A redução do grau de incertezas do cenário de juros e inflação e o próprio fato de que as aplicações voltarão a render perto de 1% ao mês tornam essa categoria uma das maiores promessas para o ano que vem.

"O mercado começou a ver o fim do ciclo com mais clareza. Antes, a curva longa de juros estava precificando parte da incerteza do cenário, mas agora parece certo que vamos chegar ao pico da Selic em 2022 e, a partir daí, veremos um movimento contracionista dos juros", explica Odilon Costa, diretor de renda fixa e crédito privado do BTG Pactual (BPAC11).

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Renda fixa em 2022: o que escolher?

Mas, ainda que as perspectivas sejam melhores para a renda fixa em 2022, é necessário que o investidor se prepare para alguma turbulência. Costa, do BTG Pactual, lembra que a disputa eleitoral e a discussão de pautas que implicam em aumento dos gastos do governo federal podem trazer volatilidade para o mercado no primeiro trimestre.

A recomendação da área de renda fixa do BTG tem sido a de títulos pós-fixados atrelados ao CDI com o duration de até três anos; e, no horizonte de três a cinco anos, títulos corrigidos pelo IPCA. Essa combinação permite, segundo ele, que o investidor tome proveito do ciclo de alta dos juros ao mesmo tempo em que protege seu patrimônio da inflação.

"Quando o investidor tem um objetivo de médio e longo prazo, ele deve se preocupar com a correção de preços, porque a ideia é preservar o patrimônio. Já no curto prazo, o CDI se torna uma opção mais interessante, dado que os juros reais ficarão muito além da média histórica", afirma o analista do BTG.

A contraindicação são os títulos prefixados. Embora seja possível encontrar opções com rendimento de 12% ou 13% ao ano, especialmente na classe de ativos de crédito de bancos, a dose de volatilidade prevista para o próximo ano traz um risco para quem aceita ficar preso a uma taxa fixa.

"Dificilmente os juros vão superar esse patamar. Nosso entendimento é que a maior parte da abertura da curva já aconteceu, mas as variáveis de incerteza tornam o prefixado muito mais arriscado. O investidor tem boas opções pós-fixadas e não faz sentido que ele especule com a taxa de juros", afirma Lucas Radd, chefe da área de portfólios e recomendações do banco Inter (BIDI11).

Qual a melhor classe da renda fixa em 2022?

Dado que as principais recomendações são para aplicações pós-fixadas, é hora de escolher qual tipo de título é melhor. Odilon Costa diz que a maior variedade está nos títulos de crédito bancários, como CDB, LCI, LCA e Letras Financeiras.

"Vemos bancos com risco de crédito excelente, triplo A, pagando algo próximo de 105% do CDI. Se olharmos a curva de juros para a janela de 6 a 12 meses, isso significa um rendimento na ordem dos 11%, o que é bastante relevante", diz o analista.

Outra opção são os chamados IPCA+ (títulos que pagam a inflação + um prêmio de risco). Atualmente, a classe de IPCA+ do Tesouro Direto está oferecendo um rendimento em torno de 5% mais a correção de preços.

Ainda que a parte prefixada do papel (o percentual do prêmio de risco) possa sofrer mais com a volatilidade em 2022, as taxas chegaram a um patamar atrativo, principalmente para quem investe para além de um prazo de 18 meses.

Investimento em crédito privado

Há também boas oportunidades além do mundo de títulos bancários e do Tesouro Direto. Os ativos de crédito privado, como debêntures e os próprios fundos de renda fixa que aplicam em títulos de crédito de empresas, voltaram a oferecer um bom rendimento. A questão, no entanto, é saber "garimpar" essas oportunidades.

"Quando a Selic começou a cair, lá em meados de 2019, as empresas deixaram de emitir títulos atrelados ao CDI, porque o rendimento era baixo. Ou seja: as opções que existem no mercado são de emissões mais antigas, do período entre 2016 e 2019. Agora que a Selic subiu, ninguém quer se desfazer desses papeis", explica Odilon Costa, do BTG Pactual.

Uma alternativa é buscar papeis atrelados ao IPCA. Helio Pio, sócio da gestora Devant, lembra que a alta da inflação modulou a oferta de títulos indexados aos índices de preços.

"Hoje em dia temos diversos ativos do mercado de crédito estruturado indexados ao IPCA. Até um ano e meio atrás, a preferência era pelo IGP-M", explica Pio.

Ele lembra que o investidor que não tiver confiança suficiente para "garimpar" esses papeis por conta própria pode apostar em um fundo de crédito privado, cuja função é justamente avaliar o que há de disponível e atrativo no mercado secundário (títulos emitidos mais antigamente) e primário (títulos emitidos recentemente).

"Os gestores estão buscando retornos em torno de 130% do CDI, o que significa, em taxas nominais, um rendimento de 12% a 15% ao ano. Pensando que teremos um 2022 complicado pela frente, em razão das eleições e da própria pandemia, o crédito privado e a renda fixa serão um bom porto seguro para o investidor", finaliza o sócio da Devant.

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