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Por que títulos de prazo médio ganharam a preferência desses gestores

Eles contam com a queda dos juros, mas olham para a Selic muito além do curto prazo

Renda fixa: a escolha dos gestores tendo a Selic como base (OsakaWayne Studios/Getty Images)

Renda fixa: a escolha dos gestores tendo a Selic como base (OsakaWayne Studios/Getty Images)

Ana Luiza Serrão
Ana Luiza Serrão

Repórter de Invest

Publicado em 29 de janeiro de 2026 às 06h57.

Compreender como os gestores estão se posicionando ao longo da curva de juros para 2026 vai além da percepção desses profissionais sobre a taxa Selic no curto prazo.

Esses profissionais não olham apenas para a perspectiva dos juros brutos (nominais) — também colocam na conta as expectativas para a inflação naquele horizonte de tempo. Afinal, o valor dos ativos costuma embutir as variações de preço na economia, aquilo que o mercado conhece como inflação implícita.

São elementos que reagem de forma específica às decisões do Banco Central (BC), à saúde das contas públicas e ao ruído típico de um ciclo eleitoral. O investidor, portanto, precisa entender essas diferenças para saber em qual parte do caminho vale a pena assumir risco e onde deve optar por proteção.

Relação de risco e retorno ao longo do tempo

O sócio e economista-chefe da Way Investimentos e professor do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec-RJ) e da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), Alexandre Espirito Santo, resume a estratégia: o curto prazo serve para defesa, o médio para o risco calculado e o longo como um risco elevado.

"O curto prazo está muito ancorado na política monetária. Já o longo prazo embute um prêmio fiscal e político elevado, com baixa visibilidade. O médio oferece uma relação risco x retorno melhor a meu ver", explica o docente do Ibmec-RJ e da ESPM.

Para ele, a oportunidade em títulos indexados à inflação pagando IPCA + 8% é "excepcional".

“Não dá para ficar de fora”, diz.  Segundo o economista, a inflação de serviços segue pressionada, o que pode levar o BC a reduzir a Selic de forma mais lenta do que o esperado. Isso tende a penalizar títulos prefixados que ja estão pagando retornos menores, contando com o alívio monetário.

O 'miolo' da curva é a preferência dos gestores

Os juros nomiais definem as taxas dos títulos prefixados e refletem de imediato as decisões do Banco Central. Por essa ótica, os retornos do curto prazo já recuaram, porque o mercado antecipou os cortes da Selic.

"Se o Banco Central cortar os juros exatamente como o esperado, o investidor receberá apenas a taxa contratada, o chamado carry. O ganho adicional via marcação a mercado tende a se concentrar nas pontas intermediária e longa; na curta, esse espaço praticamente não existe mais", explica Almeida.

O foco dos gestores, assim, tem recaído sobre o chamado miolo da curva, que engloba vencimentos médios entre 2026 e 2029. Esses títulos de média "duration" — métrica que indica a sensibilidade do preço do papel às variações de juros — tendem a se valorizar com a queda esperada da Selic, sem a volatilidade extrema observada nos papéis mais longos.

O gestor de renda fixa da EQI Asset, Alejandro Schiuma, também prefere essa posição por oferecer um prêmio interessante, diz ele.

“Onde eu estou mais confortável é nesse miolo da curva, de preferência via posição relativa, uma posição de inclinação de curva para ser um pouco mais defensiva e de um tamanho mais controlado.”

Já os juros reais, que representam o ganho efetivo do investidor acima da inflação, são considerados, ainda, um dos pilares mais atraentes da renda fixa brasileira hoje.

Eles refletem tanto a política monetária restritiva quanto às incertezas fiscais do país, explicam os especialistas.

Risco afasta gestores de vencimentos mais distantes

O principal fator que afasta os gestores da ponta longa da curva é o risco fiscal e político, além da inflação implícita muito alta. Os vencimentos mais distantes refletem preocupações estruturais do país, e não apenas ruídos de curto prazo.

O economista e especialista em fundos e previdência do Sistema Ailos, Sérgio Samuel dos Santos, lembra que, historicamente, anos eleitorais costumam trazer aumento de gastos e poucas reformas, o que eleva a incerteza apesar do ano de 2026 conter inflação dentro da meta, diferentemente do cenário de 2022, marcado pelos efeitos pós-pandemia.

Para mudar essa percepção, seria necessário um arcabouço fiscal crível, com sinais claros de controle de gastos obrigatórios e reformas que melhorem a trajetória da dívida pública. Espirito Santo reforça que, para atravessar 2026, é mais importante preservar a liquidez do que tentar capturar ganhos adicionais em trechos mais arriscados da curva.

Além dos fatores domésticos, Schiuma chama atenção para o risco de contaminação externa. Movimentos nas curvas de juros de países como o Japão e ruídos em economias do G7 podem aumentar a volatilidade das taxas longas no Brasil, afetando inclusive o médio prazo — o que reforça, mais uma vez, a importância da liquidez.

Dos Santos acrescenta que o conforto do investidor hoje está na boa composição da carteira, com uma reserva estratégica, enquanto se aproveitam os retornos elevados ainda oferecidos pelos juros atuais sem perder liquidez dos ativos.

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