Novo Fiagro de R$ 150 milhões aposta em soja da Boa Safra (SOJA3)

SNAG11 investirá em Certificados de Recebíveis Agrícolas (CRA) emitidos pela Boa Safra e em dois terrenos rurais, onde estão um centro de distribuição e uma unidade beneficiadora de sementes
Soja: R$ 150 milhões levantados pela Boa Safra serão dedicados ao beneficiamento de sementes (Lucas Ninno/Getty Images)
Soja: R$ 150 milhões levantados pela Boa Safra serão dedicados ao beneficiamento de sementes (Lucas Ninno/Getty Images)
Bianca Alvarenga
Bianca Alvarenga

Publicado em 08/08/2022 às 16:17.

Última atualização em 08/08/2022 às 17:03.

A disparada de preços das commodities criou uma espécie de "porto seguro" na bolsa. Enquanto setores como tecnologia, varejo e serviços acumulam perdas de dois dígitos, em razão da alta dos juros no Brasil e no mundo, as ações de empresas exportadoras conseguiram, de uma forma ou outra, navegar melhor durante a crise.

É natural que, dada a sensação de proteção, os investidores busquem mais ativos expostos ao mercado de produtos básicos. E é importante dizer que a bolsa não é o único caminho para isso, embora nos últimos anos mais empresas do agronegócio e extração tenham decidido abrir capital.

A Boa Safra (SOJA3) é uma delas. Listada em maio do ano passado, em um IPO de mais de 400 milhões de reais, a empresa está, agora, buscando recursos no mercado de crédito privado. Em parceria com a gestora Suno, a Boa Safra lançou, hoje, 8, um Fiagro (Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais) negociado na bolsa com o ticker SNAG11.

Portfólio do SNAG11

O patrimônio total do fundo é de 150 milhões de reais, e a maior parte dos recursos (125 milhões de reais) está atrelada a um Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA) com vencimento em 20 anos emitido pela Boa Safra. Os 25 milhões de reais restantes foram usados para comprar dois terrenos rurais nos municípios de Sorriso e Primavera do Leste, em Mato Grosso. As propriedades pertencem ao fundo, mas foram locadas para a empresa de sementes, e poderão ser adquiridas pela Boa Safra ao fim do contrato.

O SNAG11 terá como meta de rentabilidade CDI + 3% ao ano, que é o valor de referência para o rendimento dos CRA inseridos no portfólio. Já os imóveis rurais têm o aluguel de 8% ao ano e são reajustados pelo IPCA.

A propriedade do fundo é sobre os terrenos dos imóveis, mas serão construídos dois galpões no local. Um deles, em Sorriso, será um centro de ditribuição refrigerado, e o de Primavera do Leste será uma unidade de beneficiamento de sementes.

O primeiro imóvel está quase pronto, e o segundo está em fase de terraplanagem. Além dessas duas unidades, a Boa Safra possui outros oito galpões operacionais – parte deles pertence à empresa, e parte é arrendada.

O principal negócio da Boa Safra é o de beneficiamento de sementes. Trata-se de um processo de seleção e de tratamento tecnológico para a melhora dos grãos de plantio. Depois, as sementes melhoradas são vendidas para o mercado. No total, a Boa Safra opera cerca de 150 mil hectares de plantação distribuídos entre 200 fornecedores.

O CFO da Boa Safra, Felipe Marques, explica que os valores arrecadados no Fiagro serão usados nas duas pontas: na compra de matéria-prima e na venda dos grãos beneficiados.

"Temos uma robusta carteira de crédito de revenda, cujo vencimento é em abril, no chamado 'prazo safra'. No entanto, o fundo foi estruturado para distribuir rendimentos mensalmente", explicou Marques.

A emissão inicial de 125 milhões de reais em CRA pode ser expandida para 500 milhões de reais nos próximos meses, a depender da demanda pelas cotas. Se o dinheiro sair, vai tomar a mesma direção dos planos do levantamento inicial de recursos.

Aliás, foi essa, também, a receita para o dinheiro levantado no IPO da Boa Safra. Embora esteja em um setor altamente pulverizado (os 10 maiores produtores de sementes de soja do Brasil possuem apenas um quarto do mercado), as últimas operações da empresa não tiveram como alvo a aquisição de concorrentes. O avanço da capacidade produtiva tem sido pavimentado com o crescimento orgânico.

"Os analistas têm enxergado nosso balanço mais pesado, em termos de capital de giro, mas tendo a estrutura do CRA, conseguimos diminuir a necessidade de capital para financiar operações com clientes e fornecedores. Dessa forma, a empresa fica livre para focar no principal, que é a produção e beneficiamento de sementes", pontuou o CFO da Boa Safra.

FII-Fiagro

O fundo tem o perfil de um Fiagro do setor imobiliário, assim como a maior parte de seus concorrentes na bolsa. A opção por estruturar um fundo focado em crédito tem a ver não só com a necessidade de distribuição mensal de dividendos, mas também com o momento do mercado. Expor a maior parte da carteira a títulos atrelados ao CDI são uma forma de aproveitar os juros altos.

"Embora o prazo do CRA seja longo, a carteira de crédito é renovada anualmente. Além disso, a Boa Safra garante os 10% iniciais [first loss] de qualquer tipo de inadimplência", explicou Vitor Duarte, CIO da gestora de fundos da Suno.

Ele explica que isso torna o fundo mais robusto e seguro, embora a rentabilidade-alvo esteja abaixo de outros Fiagro listados na bolsa.

"Não será o Fiagro de maior rendimento, mas é um fundo com um nível de segurança adequado. A experiência que a Boa Safra tem em administrar carteiras de crédito é importante, porque o mercado só vê esse tipo de ativo rodando em tesourarias de bancos, e não sabe bem como funciona", observou Duarte.

A oferta, iniciada hoje, foi orquestrada em uma estrutura diferente. O SNAG11 foi listado com a Boa Safra como única cotista, e a empresa passou a revender suas cotas no mercado balcão apenas a partir desta segunda-feira, 8. O investimento inicial do fundo é de 100 reais, e a taxa de administração é de 0,91% ao ano.