'Momento exige escolha de empresas resilientes', diz Linhares, da SPX

Leonardo Linhares e Bruno Pandolfi, sócios da SPX Capital, alertam para o impacto da guerra sobre os juros no exterior e apontam ativos para atravessar o cenário negativo
Leonardo Linhares, sócio e diretor executivo da SPX, responsável pela área de ações, no escritório da gestora no Rio (Leandro Fonseca/Exame)
Leonardo Linhares, sócio e diretor executivo da SPX, responsável pela área de ações, no escritório da gestora no Rio (Leandro Fonseca/Exame)
Por Marcelo SakateGuilherme Guilherme
Publicado em 24/03/2022 às 07:43.

A guerra entre Rússia e Ucrânia terá implicações que vão além do agravamento da inflação global, com efeitos sobre os juros e a forma como o sistema financeiro opera. No Brasil, por outro lado, a alta do preço de commodities como o petróleo deve exercer efeito limitado nessa frente, dado que o ciclo de aperto monetário já dura um ano e a atividade econômica está “muito fraca”.

Essa é a visão de Leonardo Linhares e Bruno Pandolfi, sócios e membros do comitê executivo da SPX Capital, eleita a gestora do ano de 2021 pela EXAME na premiação Melhores do Mercado.

Confira trechos da entrevista à EXAME Invest:

Qual é a expectativa para a inflação global com a guerra entre Rússia e Ucrânia?

Leonardo Linhares: Há grandes consequências. O mundo vai gastar mais em armamento, principalmente na Europa. Os países devem se dividir mais em blocos econômicos e até financeiros, devido às sanções sobre a Rússia. O modelo globalizado, em que o dólar representa 100% do sistema financeiro global, vai ser rediscutido.

Além disso, como Rússia e Ucrânia são grandes produtoras de commodities, há um novo choque de oferta, o que dificulta o crescimento econômico. Há um impulso para o preço não só de petróleo e gás natural mas também de fertilizantes, aço, minério de ferro, níquel e commodities agrícolas. Isso tudo vai alimentar ainda mais a já elevada inflação global.

O preço do petróleo foi um dos temas centrais do último comunicado do Copom. O Banco Central terá de subir a Selic acima de 12,75% ao ano?

Bruno Pandolfi: O Banco Central vai puxar a Selic em mais 100 pontos-base [para 12,75%] na próxima reunião. Mas, em vez de continuar puxando, quer ficar parado por um tempo. Diferentemente de outros bancos centrais, o do Brasil está subindo os juros há um ano. E tem o efeito lag [atraso] da política monetária.

Não faz sentido o BC puxar muito os juros para combater choque de oferta. A atividade está muito fraca. Como os juros no Brasil já estão mais restritivos, não acredito que o petróleo terá grande impacto nos juros.

E nos Estados Unidos e na Europa?

Pandolfi: Para os bancos centrais desenvolvidos, especialmente para o americano, o efeito é nitidamente de juros para cima. Nos Estados Unidos, a alta da inflação está ligada ao petróleo. Mas, como são autossuficientes em gás, eles têm vantagem em relação à Europa.

O choque na Europa vai causar muito mais inflação. Isso pode levar a alguma disrupção no consumo, porque o preço do gás subiu muito para o consumidor. O BCE [Banco Central Europeu] deve promover até duas altas de juros neste ano, mas o efeito sobre a atividade é mais dúbio, porque, além da alta das commodities, há efeitos sobre a cadeia de produção.

Como fica o cenário para a bolsa brasileira? Ações ligadas ao consumo doméstico continuam a sofrer?

Linhares: O cenário é negativo. O país vai crescer pouco, o ciclo de alta de juros está próximo do fim, e a inflação segue elevada e com mais pressão inflacionária. É difícil achar que os resultados internos não vão decepcionar. O cenário é ruim, mas tudo isso já é consenso. Não é algo generalizado, mas há bons preços sendo formados. Não só pelo fluxo de saí­da [em ações], mas a alta incerteza do cenário tem levado os agentes de mercado a diminuir o prazo de investimento e operar mais no curto prazo. Isso amplifica os efeitos das decepções.

O momento exige escolher empresas mais resilientes, que não tenham muita alavancagem financeira e que, passado o pior cenário, tenham capacidade de gerar resultados. É um jogo em que se tem de tomar bastante cuidado para evitar companhias que vão decepcionar muito.

A SPX aumentou sua exposição ao exterior aproveitando a queda das ações neste início de ano?

Linhares: Em certos temas globais que queremos operar, tentamos buscar no exterior ativos em que a variável principal seja muito parecida com a do Brasil, mas a preços menores. Neste ano, estávamos animados com a parte de petróleo e substituímos posições que tínhamos no Brasil por petrolíferas europeias.

O desempenho [operacional] seria parecido, mas poderia haver algum estresse pelo fato de a Petrobras não repassar a alta de preços, pelo risco Brasil ou por qualquer coisa no país sem levar em conta o cenário de alta do petróleo. O objetivo tem sido mais esse do que substituir o risco direcional. Foram mais substituições.