Mais títulos públicos, menos risco: a receita dos gestores de renda fixa na crise

Fundos de duration curta e que investem em títulos públicos ou empresas grandes lideram a captação da renda fixa no ano
Fundos de renda fixa: duração mais curta e títulos mais seguros são receita de gestores (Getty Images/Getty Images)
Fundos de renda fixa: duração mais curta e títulos mais seguros são receita de gestores (Getty Images/Getty Images)
Bianca Alvarenga
Bianca Alvarenga

Publicado em 25/08/2022 às 06:04.

Última atualização em 25/08/2022 às 13:42.

Sombra e água fresca? Para os gestores de renda fixa, os juros e inflação altos não são sinônimo de tranquilidade. Um IPCA perto dos 10%, no acumulado de 12 meses, e um CDI de 13% não são suficientes para garantir os rendimentos que o investidor espera. A volatilidade no cenário externo, com a indefinição sobre o teto dos juros nos Estados Unidos, e a turbulência eleitoral no cenário interno trouxeram muitos altos e baixos para os ativos da classe.

Nas palavras de um experiente gestor de renda fixa: "juros de 2% são um pesadelo, juros de 8% até me deixam confortável, mas juros de 13% me tiram o sono". Uma Selic no patamar atual não é bem um facilitador do trabalho dos gestores, porque além de adicionar volatilidade às expectativas futuras, o crédito caro ainda complica a situação das empresas, e comprar títulos de crédito se torna uma tarefa mais seletiva.

Para navegar em tempos incertos, a receita dos gestores de fundos (e dos investidores) tem sido a busca por ativos mais seguros e de vencimento mais curto. Os dados divulgados nesta semana pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), referentes ao mês de julho, são um raio-x do crescimento desigual da renda fixa.

Embora os fundos da classe tenham captado mais de R$ 150 bilhões no ano, praticamente todo o saldo positivo pode ser creditado ao crescimento de apenas quatro categorias do segmento.

Títulos públicos e high grade

Segundo os dados da Anbima, as classes que mais captaram recursos na renda fixa entre janeiro e julho foram, basicamente, fundos de menor duration (ou seja, com menor prazo para que o investimento atinja o rendimento-alvo), e fundos de risco soberano ou grau de investimento. Veja abaixo o desempenho dos fundos de renda fixa até julho:

Classificação (Valores em R$ milhões) 
Mês Ano
Renda Fixa 66.141,9 151.106,3
Renda Fixa Simples 4.314,6 -31.581,4
Renda Fixa Indexados -1.008,2 -25.695,5
Renda Fixa Duração Baixa Soberano 27.919,9 55.033,9
Renda Fixa Duração Baixa Grau de Investimento 16.758,1 49.162,0
Renda Fixa Duração Baixa Crédito Livre 126,7 -568,0
Renda Fixa Duração Média Soberano -50,2 900,1
Renda Fixa Duração Média Grau de Investimento 2.505,7 6.145,9
Renda Fixa Duração Média Crédito Livre 577,1 1.314,1
Renda Fixa Duração Alta Soberano -269,7 -13.682,0
Renda Fixa Duração Alta Grau de Investimento 627,7 532,2
Renda Fixa Duração Alta Crédito Livre 38,3 1.192,2
Renda Fixa Duração Livre Soberano 4.885,2 31.502,8
Renda Fixa Duração Livre Grau de Investimento 7.084,9 62.619,2
Renda Fixa Duração Livre Crédito Livre 2.496,0 15.675,7
Renda Fixa Investimento no Exterior 139,1 -1.189,7
Renda Fixa Dívida Externa -3,3 -255,1

Os fundos que levam a classificação de "soberano" são, basicamente, os que investem em títulos públicos. A estratégia de buscar principalmente os de baixa duração, que representa a classe com a segunda maior captação do ano (R$ 55 bilhões) conversa com uma avaliação praticamente unânime entre os gestores: as taxas longas estão pagando praticamente o mesmo que as taxas curtas.

"Teremos um mercado de juros mais volátil no curto prazo, com a reprecificação de juros futuros, a depender do cenário. A questão é que, agora, há pouco prêmio nos títulos longos. A NTN-B [Tesouro IPCA+] com vencimento em 2050 tem praticamente a mesma taxa da NTN-B com vencimento em 2030. Não faz sentido tomar mais risco por um prêmio tão pequeno", defendeu Odilon Costa, analista de renda fixa e crédito privado do BTG Pactual.

A outra face da moeda dessa estratégia está, justamente, no saldo negativo de R$ 13 bilhões dos fundos de renda fixa soberanos de duração alta, que investem em títulos públicos mais alongados. Parte desse registro tem a ver, também, com o fato de que, em julho, as NTN-B com vencimento após 2040 tiveram rentabilidade negativa de 4%, e a maior parte deles acumula prejuízo desde o início do ano.

No entanto, a mudança recente no cenário de inflação, com os índices de preços de julho registrando queda e os de agosto seguindo pelo mesmo caminho, já serviu para "acomodar" a curva de juros. Sendo assim, os títulos prefixados e os atrelados ao CDI deixam de trazer grandes oportunidades. O grande call dos gestores tem sido em ativos cujo rendimento está ligado à inflação.

Por outro lado, especialistas alertam que os fatores de instabilidade no cenário, como as próprias eleições, podem desequilibrar a equação.

"Se o próximo presidente decidir colocar a caneta de gastos para funcionar, a queda da curva longa de juros pode mudar", alertou Luis Barone, CIO da Galapagos Capital.

Embora as pesquisas eleitorais apontem para a vitória do candidato do PT, Luis Inácio Lula da Silva, a avaliação dos gestores é que ainda há muito chão até o segundo turno, e que a disputa com Jair Bolsonaro, candidato a reeleição pelo PL, vai ser mais acirrada. O melhor, nesse caso, é buscar proteção.

Mesmo com taxas de retorno mais espremidas, os gestores de renda fixa tem optado por investir em empresas maiores, com notas mais altas de crédito – o chamado mercado high grade. Os fundos de duração baixa e de duração livre de grau de investimento captaram R$ 49 e R$ 62 bilhões, respectivamente, desde janeiro.

"O que esperar do próximo governo é incerto, mas o que parece precificado é que, de uma maneira ou outra, teremos uma Selic mais alta por mais tempo. Embora as empresas estejam mais preparadas, principalmente os bancos e grandes companhias, eventos de crédito não estão descartados. É muito ruim para o país um quadro alongado de juros mais altos, pois testa a capacidade das empresas", avaliou Leonardo Ono, gestor de crédito privado da Legacy.

Ele avalia alguns setores, como as empresas ligadas ao mercado consumidor e o varejo, mais expostos aos riscos dos juros mais altos. Por isso, a escolha da empresa tem sido a de setores mais tradicionais, como infraestrutura. Essas empresas, segundo Ono, estão mais protegidas, pois reajustam suas tarifas de acordo com a inflação.