Ibovespa: especialistas dizem que bolsa pode subir mais (Germano Lüders/Exame)
Repórter de finanças
Publicado em 29 de janeiro de 2026 às 13h10.
O Ibovespa superou, pela primeira vez na história, os 184 mil pontos em um fechamento. Apesar de diminuir ganhos nesta quinta-feira, 29, a bolsa vem de uma sequência de máximas históricas: só em 2026, foram oito vezes. Neste momento surge o questionamento: será que dá tempo de se posicionar em bolsa? Segundo especialistas consultados pela EXAME, sim.
Nos últimos dias, o principal índice de referência da B3 tem mostrado força sustentado por um grande fluxo estrangeiro, inflação mais controlada e expectativa de cortes de juros no horizonte, o que favorece mercados emergentes como o Brasil.
“No entanto, isso não significa que o rali seja linear ou crescente. Movimentos de realização de lucro ou períodos de volatilidade podem ocorrer”, diz Sidney Lima, analista da Ouro Preto investimentos.
Ângelo Belitardo, gestor da Hike Capital, concorda: anda dá tempo de surfar o rali, mas de forma seletiva em setores específicos que continuam apresentando espaço para melhorias operacionais e fortalecimento de geração de caixa.
“Setores como transportes, farmácias, distribuição de medicamentos, estacionamentos, proteína animal e meios de pagamento têm mostrado ciclos de desalavancagem e redução de necessidades de Capex, o que melhora a geração de caixa livre mesmo antes de quedas significativas nas taxas de juros”, explica.
Enrico Cozzolino, CEO da CZZ Capital, complementa: “Não é que porque aconteceu essa alta agora que não tem espaço para subir mais”. Inclusive, já há no mercado analistas falando de bolsa em 220 mil pontos, em um cenário otimista.
Contudo, a bolsa já não está mais tão barata quanto estava. Há anos o mercado repete que o Ibovespa está negociando abaixo da média histórica. Agora, depois de muito tempo, parece que os múltiplos estão convergindo.
A média histórica dos últimos 20 anos do preço sobre lucro (P/L) do Ibovespa é na casa de 13 vezes — exatamente o múltiplo que está agora — segundo cálculos do João Daronco, analista da Suno Research.
Esse P/L serve para entender se a bolsa está “cara” ou “barata”. Funciona assim: soma-se todos os preços das ações e divide-se pelo lucro dessas mesmas ações, dado os devidos pesos de cada uma no Ibovespa. Cada economista tem uma forma de calcular, o que pode gerar múltiplos diferentes, mas o consenso é: se está próximo da média histórica, a bolsa não tão barata assim.
“Não está mais aquela barganha do 2024, no P/L de 6,5 vezes, dependendo do período que a gente corta”, diz Cozzolino. No entanto, segundo ele, quando o Ibovespa é corrigido pela inflação, ele ainda está longe do pico histórico. Isso acontece porque o Brasil passou muito tempo convivendo com inflação elevada, o que corrói o valor real dos ativos ao longo dos anos.
“Não é simples recuperar essa defasagem apenas com novas máximas nominais. Existe um peso estrutural na conta: histórico fiscal frágil, renda das famílias pressionada, inadimplência, incerteza política e o fato de sermos uma moeda emergente. Tudo isso faz com que, mesmo com o índice renovando recordes em termos nominais, em termos reais o mercado ainda esteja distante dos níveis do passado.”
Há diversos meios de alocar capital na bolsa, entre eles, o ETF que replica o Ibovespa, voltado para um perfil mais conservador.
Para se ter ideia, se uma pessoa tivesse investido R$ 952,38 na abertura do dia 2 de janeiro no BOVA11, índice mais conhecido de referência para o Ibovespa, resgataria no final do dia 22 de janeiro R$ 1.023,92, considerando o Imposto de Renda (IR) de 15% pago sobre o rendimento — um retorno de 7,44% no mês.
Mas, para Belitardo, a melhor forma de aproveitar o rali no cenário atual é focar em ações individuais. Isso porque uma alocação seletiva permite capturar assimetrias de valorização em empresas com forte geração de caixa, ciclos de desalavancagem e redução de Capex, independentemente de cortes significativos na taxa de juros.
No portfólio do gestor estão nomes como Ecorodovias, Movida, Vamos, JSL Simões, Profarma, Pague Menos, Bemobi, Marfrig, Estapar, Allied, CVC, Banco Pine e Banco ABC.
“Para investidores mais experientes, a seleção de ações específicas pode gerar retornos superiores, especialmente em empresas com alta liquidez, boa geração de caixa e valuation ainda descontado. Nesse grupo, costumam se destacar bancos bem capitalizados, empresas ligadas a commodities e setores com receitas mais previsíveis, que têm sido os principais receptores do capital externo.”
Daronco concorda: as bluechips se beneficiam de todo esse cenário. Entretanto, as small caps, como não apresentaram a performance que a bolsa como um todo apresentou, com a taxa de juros caindo, deve ter uma irrigação de fluxo de investidores locais, seja institucional, seja investidor pessoa física na bolsa, o que pode beneficiá-las. “É uma classe de ativos que ainda eu vejo oportunidades”, conclui.