Fundos imobiliários, exterior e criptomoedas: onde investir agora

Com a proximidade das eleições brasileiras e temor de recessão em 2023, especialistas indicam alocações
 (Witthaya Prasongsin/Getty Images)
(Witthaya Prasongsin/Getty Images)
Marília Almeida
Marília AlmeidaPublicado em 31/08/2022 às 06:00.

Temor de recessão em 2023, eleições locais e muita volatilidade. O cenário para investimentos não está fácil de navegar, especialmente quando tratamos de ativos de risco.

Mas ainda que o investidor precise ter agora uma fatia maior de sua carteira alocada na renda fixa, ele não pode dispensar as aplicações de renda variável. E não estamos falando apenas em ações, mas também investimentos alternativos, como fundos imobiliários, criptomoedas e ações e títulos no exterior.

Estar posicionado em dólar, aliás, costuma ser uma proteção imprescindível em cenários de muito sobe e desce.

Veja abaixo as dicas de especialistas para se posicionar em cada segmento de ativo:

Fundos imobiliários

Os fundos imobiliários são sensíveis a alta da Selic e à curva de juros futuros, que é influenciada por incertezas fiscais e aumento de taxas lá fora. Em um cenário de Selic de dois dígitos com possibilidade de aumento residual e manutenção do patamar até 2023, essa característica fica mais veemente.

Mas grande parte desse cenário já está embutido no preço das cotas dos FIIs, acredita Marx Gonçalves, analista especialista em FIIs da casa de análises Nord. O cenário macroeconômico pesa, mas os fundamentos do mercado imobiliário e resultados dos fundos permanecem saudáveis. Ou seja, não há mais espaço para grandes desvalorizações, e até será possível observar crescimento.

Um exemplo são fundos de shoppings, que sofreram na pandemia mas já começam a registrar resultados acima do nível de 2019.

Fundos imobiliários: como escolher em qual investir?

Outro caso, paralelo, é o de lajes corporativas. O segmento registra uma maior atividade do que a de trimestres passados em regiões mais nobres, como Faria Lima, Paulista e na Vila Olímpia, no caso da cidade de São Paulo. Esse movimento é incentivado pelo arrefecimento da pandemia e retorno de colaboradores para um modelo híbrido de trabalho.

Como resultado desta recuperação, muitos fundos que estavam com descontos relevantes valorizaram nos últimos meses. Os de lajes ainda oferecem descontos maiores do que os de shoppings, mas Gonçalves ainda vê espaço para os preços aumentarem.

Já o segmento de logística surfou na onda da aceleração do comércio eletrônico ao longo da pandemia e deve, agora seguir um fluxo mais contido. Neste segmento, o analista não vê espaço para aumento de rentabilidade.

É a mesma visão sobre os CRIs, que ofereceram bons rendimentos em um momento de inflação crescente. Agora que o aumento de preços parece ter chegado a um pico, esses fundos perdem atratividade.

A exceção são os fundos de papéis indexados ao CDI, que devem apresentar um bom desempenho daqui para a frente, diz Gonçalves. "A Selic deve ter um aumento residual e ficará neste patamar alto por um bom tempo. Nesse cenário, fundos como KNCR11 e VGIR11 vão continuar a gerar bons rendimentos".

Os FIIs continuam sendo uma alternativa para diversificar o portfólio, conclui o especialista, mas no médio prazo. Portanto, quem adquirir cotas dos fundos deve pensar em horizontes de investimento a partir de um ano, ao menos.

Além disso, é recomendável aplicar nos ativos de forma gradual, com o objetivo de fazer um preço médio melhor. "Após as eleições, quando o cenário clarear, os preços serão outros, e as oportunidades irão diminuir", conclui Gonçalves.

Investimento no exterior

A aceleração inesperada dos juros nos Estados Unidos fez a bolsa de valores americana derreter. Mas na visão de Maurício Lima, gestor da Western, esse movimento pontual foi causado por uma bomba inflacionária, formada por diversos choques de oferta.

Agora, as últimas sinalizações do BC americano, o Fed, deixaram o cenário mais claro e os ativos passaram por um ajuste de valor. "Vemos as empresas americanas bem posicionadas, e o mercado de trabalho americano forte. Muito da desvalorização provocada pelo cenário já aconteceu".

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Estruturalmente, é sempre indicado ter uma fatia da carteira de investimentos no exterior por uma série da razões. As principais são diversificação geográfica do risco e a exposição ao dólar.

Moeda forte, o dólar atua como contrapeso em um cenário de aumento do risco, explica Lima. "Quando a bolsa cai, os juros prefixados sobem e o real se desvaloriza ante o dólar. Neste cenário, quem investe na moeda americana ganha".

Mas, e taticamente, pode fazer mais sentido investir no exterior agora? Lima acredita que sim. "O mercado americano está volátil, mas o brasileiro também está. Estamos nos aproximando de uma eleição polarizada. Portanto, mais do que nunca, faz sentido diversificar e não se expor 100% ao risco Brasil".

O gestor da Western recomenda, no atual cenário, dividir a fatia da carteira lá fora em ativos de renda fixa e renda variável. "Caso o mercado erre nas previsões, e a recessão venha forte, é possível se proteger com a porção em títulos de renda fixa. Se a recessão não vier, as empresas tendem a registrar melhores resultados e a posição em bolsa deve se valorizar. Dessa forma, se minimiza riscos".

Criptomoedas

O mercado de criptomoedas iniciou a semana em busca de uma recuperação. Depois do preço do bitcoin, a principal criptomoeda, ser cotado abaixo de US$ 20 mil, a recuperação ainda é pouco significativa. 

O principal fator que pressiona o mercado é o cenário macroeconômico, especialmente as falas do presidente do Fed, o BC americano. Jerome Powell ressaltou que a inflação continua a ser um problema sério a ser enfrentado no país.

Segundo Nicholas Sacchi, chefe de pesquisa sobre ativos digitais no BTG Digital, esses sucessivos aumentos nas taxas de juros do mundo todo, especialmente nos Estados Unidos, afastam o investidor do mercado de risco. "Como os criptoativos são uma tecnologia nova e emergente, é natural que sofram. Tanto que há um aumento expressivo da correlação do bitcoin com o da Nasdaq, que reúne ações de tecnologia".

Além de fatores macroeconômicos, Sacchi também cita que fatores micros, ocorridos dentro do mercado de criptoativos, também não colaboram para uma valorização dos ativos. "Recentemente ocorreram problemas importantes no mercado, especialmente com o protocolo Terra, que tinha uma criptomoeda chamada Lula e serve para emissão de stablecoins (criptomoeda cujo valor está atrelado a uma moeda fiduciária).

O protocolo, chamado UST ou TerraUS$, era usado para aplicações em finanças descentralizadas e centralizadas. Até que em um determinado momento um investidor assumiu uma posição grande contra a estabilidade dessa paridade.

Dado que a stablecoin era algorítmica, ou seja, se apoiava na emissão e queima de Lunas para tentar estabilizar seu preço, quando uma posição grande assume uma ponta contrária, o ativo perde essa paridade. Na tentativa de recuperá-la, o protocolo emitiu várias Lunas, o que fez o token desvalorizar, e a confiança no protocolo ruísse.

Muitas empresas de venture capital se apoiavam no TerraUS$ para efetuar operações. Quando o token desvalorizou, criou-se quase uma crise sistêmica no mercado, que gerou um efeito em cadeia, explica Sacchi. A Luna Foundation também era uma dos maiores detentoras de bitcoin, e para manter a paridade do TerraUS$ vendeu uma quantidade expressiva de moedas.

Diante desse cenário, o especialista do BTG acredita que algumas coisas precisam acontecer antes de o mercado melhorar. "Precisamos de um maior controle da situação das empresas após esta crise no mercado. Algumas ainda estão sofrendo ainda consequencias, diretas ou indiretas, da diluição do protocolo: mais de 25 exchanges quebraram, e plataformas de empréstimos de ativos ficaram insolventes. E outras empresas ainda passam por risco de default".

Ainda que os efeitos da crise do protocolo Terra sejam controlados, isso não será suficiente para que os criptoativos parem de sofrer. "Enquanto a prática de aumento dos juros permanecer, e não houver estagnação da inflação, os criptoativos devem continuar a se desvalorizar", conclui Sacchi.

A previsão do analista é de que o preço do bitcoin opere entre US$ 18 mil e US$ 24 mil enquanto não houver novas informações ligadas ao mercado de criptomoedas e uma mudança na direção da política monetária por parte do Fed.