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Eleições e Selic alta são risco à renda fixa em 2022, aponta CA Indosuez

André Fadul, gestor de renda fixa, diz à EXAME Invest que a alta da Selic encarece o financiamento das empresas e aumenta o risco no mercado de debêntures

André Fadul, gestor de renda fixa (à esquerda), e Nelson Chaves, analista de crédito, da CA Indosuez (Leandro Fonseca/Exame)

André Fadul, gestor de renda fixa (à esquerda), e Nelson Chaves, analista de crédito, da CA Indosuez (Leandro Fonseca/Exame)

Bianca Alvarenga
Bianca Alvarenga

14 de abril de 2022, 07h25

Pode parecer que sim, mas juros altos não são sinônimo de tranquilidade para os gestores de renda fixa. Embora uma Selic elevada implique, à primeira vista, um retorno maior para títulos atrelados ao CDI, as mudanças nas perspectivas causam variações nas taxas dos títulos, fator que é acompanhado de perto por quem comanda os fundos do setor.

Para a gestora CA Indosuez, a cautela tem sido o principal guia para as decisões de alocação. O fundo CA Indosuez Debêntures Incentivadas foi premiado como o melhor na categoria de mesmo nome do Melhores do Mercado, elaborado pela EXAME em parceria técnica com a Quantum Finance (Veja mais sobre o ranking aqui).

Em entrevista à EXAME Invest, André Fadul, gestor de renda fixa da CA Indosuez, explicou as estratégias que levaram o fundo a um desempenho destacado em 2021 e revelou quais são as projeções da casa para o segmento de renda fixa ao longo dos próximos meses, considerando as mudanças esperadas na taxa Selic e a disparada da inflação.

Leia abaixo a entrevista:

A que o senhor atribui o rendimento do fundo de debêntures incentivadas da gestora?

A estratégia de 2021 pode ser sintetizada pela palavra cautela. Nos dois anos anteriores, focamos na escolha dos melhores ativos possíveis para momentos de turbulência, dado que estávamos diante de um possível ciclo de aumento de juros. Precisávamos ser cautelosos com a evolução da situação financeira das companhias, porque haveria tanto um impacto nos resultados quanto no refinanciamento de dívidas.

Aproveitamos a distorção de alguns preços, porque durante a pandemia empresas muito sólidas, como Vale e Usiminas, foram negociadas com prêmios mais atrativos. Mesmo assim, utilizamos derivativos para fazer o trabalho de redução de duration [prazo médio ponderado para recebimento do valor investido em um título de renda fixa] dos papéis ou para adotar uma proteção para os títulos mais longos. O derivativo não foi uma aposta de que curva de juros abriria ou que haveria um movimento de piora. Foi uma estratégia de hedge para garantir que o prêmio ficasse estável.

Outro ponto é que mantivemos o caixa bastante líquido para aproveitar oportunidades. Conseguimos capturar oportunidades justamente por termos essa "folga" na alocação.

Os títulos atrelados à inflação têm sofrido bastante com a marcação a mercado. Como isso impactou as debêntures?

Os fundos do segmento precisam ter 85% do patrimônio investido em debêntures, e os títulos ou são prefixados ou são corrigidos pelo IPCA. No mercado, mais de 90% dos ativos são emitidos com retorno atrelado ao IPCA. Isso acaba fazendo com que a carteira tenha um prazo mais longo. Na CA Indosuez, procuramos sempre manter o fundo exposto a prazos mais curtos, e a parte de vencimento mais longo é protegida pelos derivativos que eu citei.

Mas, olhando para o cenário, já no final de 2020 tínhamos preocupação com a inflação. Nossa visão era que teríamos um IPCA mais elevado, porque os índices se deterioraram e havia uma preocupação com o fato de que o Banco Central parecia ter exagerado na queda dos juros. Por isso, fizemos uma estratégia de compra de inflação implícita, o que protegeu o fundo de variações principalmente no primeiro semestre.

Como o senhor avalia o risco de uma Selic mais alta em 2022 para os títulos de crédito privado?

As empresas fizeram bem o dever de casa e entraram em 2022 com um perfil de alavancagem muito saudável. Mas, olhando para frente, nos preocupa o custo maior de refinanciamento de dívidas. Além disso, as empresas precisam entregar resultados mais sólidos, dado que o "perdão" da pandemia acabou. Quando avaliamos as taxas das novas emissões de debêntures e os desafios que essas empresas têm à frente, os prêmios não estão conversando.

Os riscos à frente, considerando além da questão dos juros -- pois estamos em ano eleitoral --, devem ser considerados. Por isso, estamos acompanhando as novas emissões de títulos, no mercado primário, mas não acreditamos que há tantas oportunidades assim. A maior parte da captura de resultados aconteceu no mercado secundário para o nosso fundo.