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Efeito Americanas: escândalo gerou temor, mas criou oportunidade para fundos em títulos de crédito

Caso da varejista causou aumento de spread que não condiz com risco das empresas, avaliam gestores no CEO Conference

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Susto com Americanas causou distorção técnica que pode ser oportunidade de compra, dizem gestores (Americanas S.A./Divulgação)

Susto com Americanas causou distorção técnica que pode ser oportunidade de compra, dizem gestores (Americanas S.A./Divulgação)

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Beatriz Quesada

Publicado em 15 de fevereiro de 2023, 14h46.

O escândalo na Americanas que apontou a existência de R$ 20 bilhões em inconsistências contábeis abalou o mercado de brasileiro e não foi diferente no crédito privado. A indústria de emissão de dívidas empresariais viu a incerteza nublar seus negócios quando uma das maiores companhias emissoras pediu recuperação judicial e entrou em disputa com seus credores.

O efeito foi uma abertura dos spreads – prêmios pagos ao investidor pelo risco de comprar o papel. O susto fez investidores resgatarem o dinheiro investido em fundos, o que, por sua vez, obrigou os gestores a vender papéis em busca de liquidez, causando o efeito sobre os spreads.

Sendo assim, a abertura dos spreads está muito mais relacionada a uma questão técnica de liquidez do que a uma precificação de risco. E é justamente neste ponto que está a oportunidade de investimento, segundo Ana Luísa Rodela, diretora da área de crédito da gestora Bradesco Asset.

“Claro que é um ano difícil, mas vemos empresas de setores muito resilientes, como empresas do setor de saneamento, com papel de menos de cinco anos negociando a CDI + 2%. Isso é realmente uma oportunidade. Em termos históricos, momentos em que isso aconteceu eram janelas nas quais seria muito interessante ter comprado o papel", afirmou Rodela durante painel no CEO Conference, evento do BTG Pactual (do mesmo controlador da EXAME).

E para além da oportunidade de preço, o efeito sobre os spreads pode ser mais curto que o esperado. Eduardo Arraes, sócio da BTG Pactual Asset Management, argumentou que a rápida precificação do evento nos ativos foi uma amostra do nível de desenvolvimento do mercado de crédito. E que, assim como o efeito foi rápido, suas consequências devem se dissipar em pouco tempo.

“O caso Americanas foi muito mais uma fraude que um evento ligado ao crédito. Ainda pode gerar um pouco de abertura no spread, mas marginal. É coisa de curto prazo: em um ou dois meses o dinheiro volta a entrar no mercado”, afirmou. Arraes comentou que a gestora já voltou a comprar de olho nos spreads atrativos.

A oportunidade, no entanto, vem acompanhada de uma dose extra de cautela. Jean Pierre Cote Gil, sócio e gestor de crédito da Vinland, lembrou que o caso Americanas teve um efeito maior depois que outras companhias começaram a apresentar problemas.

“O que mais afetou foram os efeitos subsequentes: empresas pedindo recuperação judicial, entrando em contato com consultorias para renegociar dívidas. Foi algo que se acumulou sobre a Americanas e gerou efeitos maiores [de incerteza]”, apontou.

Os gestores reforçaram ainda que o caso traz uma lição geral para a indústria, em redobrar as atenções ao adquirir ativos, que podem não ser bons apesar da reputação de seus emissores.

“A análise é muito importante mesmo para grandes empresas. E existem momentos de falha na análise e coisas que a análise não pega – ninguém é infalível. Nestes momentos é essencial a disciplina da gestão. Ter alocações aderentes aos mandatos, perfil de risco do fundo estar coerente aos papéis comprados e lembrar sempre da diversificação. Um evento como este traz isso à tona”, completou Rodela.

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Beatriz Quesada

Beatriz Quesada

Repórter de InvestFormada pela USP, trabalha na cobertura de mercados e negócios na EXAME. Foi repórter na revista Capital Aberto e produtora na Rádio Band News FM.