Como encontrar oportunidades em meio à crise e recessão, segundo estes dois gestores

André Caldas, da Clave Capital, e Sarah Delfim, da Dahlia Capital, participam do BTG Talks
Painel de cotações da B3 (Germano Lüders/Exame)
Painel de cotações da B3 (Germano Lüders/Exame)
Beatriz Quesada
Beatriz Quesada

Publicado em 13/07/2022 às 07:00.

Última atualização em 13/07/2022 às 16:33.

O ano de 2022 não tem sido simples para quem quer investir em ações. Ameaça de recessão nos Estados Unidos, alta da inflação global, escalada de juros, guerra na Ucrânia e lockdowns na China são alguns dos grandes fatores macroeconômicos que têm derrubado as bolsas e movimentado as carteiras dos investidores.

Diante de tantos desafios, a saída é proteger o portfólio com diversificação. O conselho é de André Caldas, sócio da gestora Clave Capital, e Sarah Delfim, sócia-fundadora da Dahlia Capital, que participaram nesta terça-feira, 12, do BTG Talks com mediação de Renato Mimica, sócio do BTG Pactual e CEO da EXAME.

“Ficamos na defensiva, monitorando o cenário. Mantemos uma carteira diversificada – calibrada diariamente – entre setores e empresas mais confiáveis”, conta Delfim.

Alguns dos principais riscos vêm dos Estados Unidos, maior mercado de ações do mundo. A alta global da inflação iniciou uma tendência de elevação de juros por parte do Federal Reserve (Fed, o banco central americano). O ciclo de aperto monetário, por sua vez, preocupa os investidores, que temem um estrangulamento da economia, terminando em recessão. 

O resultado foi um forte movimento de aversão a risco nos últimos meses no mercado de ações americano. As commodities também foram impactadas, com investidores esperando uma queda de demanda caso a recessão se concretize. No mais recente exemplo do movimento, o mercado de petróleo encerrou a sessão de terça abaixo da marca dos US$ 100 dólares.

Outro ponto de atenção é a China, cuja política de “Covid zero” tem levado o país a adotar restrições severas. O impacto dos lockdowns pode se reverter em desaceleração econômica, o que também preocupa os investidores.

“São várias ‘pragas do Egito’ ao mesmo tempo. Por outro lado vemos muita ação barata na bolsa, com qualidade. É um quebra-cabeça entre atacar e se proteger que precisa ser montado o tempo todo”, ressalta Delfim.

Onde investir

Em um momento global de incertezas, diversificação é a palavra-chave, e os gestores buscam empresas que atendam, principalmente, a três fatores: geração de caixa, pagamento de dividendos e baixa alavancagem. 

E mesmo com a recente queda, o mercado de commodities é uma das principais apostas dos dois gestores.

“[A crise] não nos permite dizer se o preço do petróleo vai cair a US$ 60 ou subir a US$ 120, mas acredito que existe uma probabilidade que a commodity se mantenha nos patamares atuais pelo equilíbrio entre oferta e demanda. Isso significa que a Petrobras (PETR3/PETR4) pode pagar 40% de dividendo”, diz Delfim.

“Já o minério no nível atual significa a Vale (VALE3) ter 20% de geração de taxa e recomprar 10% do seu valor no mercado. Nessa crise de agora, as empresas estão muito bem. Tem muita coisa boa, muita coisa barata, mas temos esses riscos”, completa.

Caldas concorda com a avaliação, e reforça que é preciso garimpar as oportunidades mesmo no mercado de commodities. A Vale, por exemplo, sairia na vantagem por estar mais conectada a um único complicador do cenário global, a China.

O gestor também fica atento às companhias que são menos prejudicadas em um cenário de inflação e juros altos. “No curto prazo, empresas voltadas à alta renda tendem a se favorecer porque continuam consumindo. Temos menos exposição a companhias voltadas para o consumo e varejo de baixa renda”, diz.

Delfim e Caldas destacam ainda que a crise gerou oportunidades de consolidação no mercado brasileiro, com alguns negócios saindo vencedores do período de volatilidade.

“O cenário é difícil para as empresas mas é bom para a consolidação. Vimos uma série de fusões e aquisições que fortalecem os grandes negócios a médio prazo”, afirma Caldas.

Eleições e o risco local

No cenário local, o Brasil conta com mais um desafio extra: as eleições presidenciais de outubro. A proximidade aumenta o risco fiscal do País, tanto que o último movimento do governo para aumentar a popularidade do presidente Jair Bolsonaro no pleito foi a criação de uma brecha para movimentar R$ 41 bilhões fora do teto de gastos. A PEC que cria benefícios em ano eleitoral foi aprovada na Câmara em primeiro turno.

Delfim reforça que o mercado deve monitorar os gastos do governo, mas não vê a atual situação com preocupação. 

“Um impacto de R$ 41 bilhões conseguiria ser subsidiado apenas com o dividendo da Petrobras. O Brasil está bem se comparado a outras geografias locais e as empresas brasileiras estão caminhando bem. E sobre o fato da eleição trazer volatilidade, esta não é a primeira e não vai ser a última [vez em que isso acontece]”, afirma.

Caldas completa afirmando que a disputa de 2022 não deve gerar uma ruptura que prejudique o mercado. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que está liderando as pesquisas de intenção de voto, é o favorito do investidor estrangeiro. O gestor destaca, por outro lado, que Bolsonaro tem algumas conquistas caras ao mercado em seu governo, como a aprovação da reforma da previdência, herdada do governo Temer, e a recente privatização da Eletrobras (ELET3/ELET6).

“Pela primeira vez não temos um candidato queridinho do mercado. Mas, ao mesmo tempo, não enxergamos o risco de uma ruptura institucional em nenhum dos dois casos. Não será uma eleição com um eleito nocivo para o mercado”, afirma.