O crescimento da demanda de energia é algo bastante claro para os especialistas.
Repórter de Invest
Publicado em 27 de janeiro de 2026 às 06h00.
Energia não é só aquele boleto que chega todo mês em casa. É também um dos ciclos de investimento mais quentes das últimas décadas. O que antes era visto como um setor pacato da “velha economia” ganhou uma nova roupagem, com tendências que vão da inteligência artificial (IA) aos carros elétricos.
O crescimento da demanda por energia é uma realidade concreta que já aparece nos projetos e no bolso de quem busca as melhores opções de investimento. Mas, como em qualquer mercado, é preciso entender onde estão as oportunidades reais e quais são as armadilhas regulatórias e técnicas que podem apagar o seu lucro.
No Brasil, as opções são variadas para alocar o capital no setor, indo desde as clássicas ações de empresas elétricas listadas na bolsa de valores até instrumentos um pouco mais sofisticados, como fundos imobiliários que investem em geração distribuída e Fundos de Investimento em Participações em Infraestrutura (FIP-IEs).
Sócio responsável por crédito privado, infraestrutura e previdência da JiveMauá, Samer Serhan aponta que a geração, a autogeração e a infraestrutura associada — especialmente centros de dados e telecomunicações — são elos fortes da cadeia hoje. Isso acontece porque muitas empresas preferem alugar a infraestrutura física do que construir uma própria.
“Há momentos em que o excesso de oferta prevalece quando fontes alternativas como a solar e a eólica são conectadas ao sistema de transmissão nacional. Isso não muda a visão de médio prazo de demanda crescente por energia, seja no meio produtivo (indústria, comércio e agronegócio) seja no meio consumidor (residências e veículos)”, pontua Serhan.
Já o CIO da Suno Asset, Vitor Duarte, destaca que o maior crescimento da demanda está nas expectativas “bastante realistas”, puxadas pela internet das coisas e pela eletrificação geral da sociedade, como data centers, veículos, IA, entre outros. “Em alguns países, a demanda de energia tem crescido acima do PIB (Produto Interno Bruto) e da inflação”.
Um exemplo que pode ser capturado já no curto prazo pelos investidores é o Fundo de Investimento Imobiliário Suno Energias Limpas (Snel11), o primeiro desta modalidade na B3. O Inter explica que, após análise individual do perfil do investidor, o Snel11 pode valer a pena para quem busca diversificação e inovação, com potencial de oferecer tanto dividendos quanto valorização do patrimônio.
Os investidores brasileiros olham, também, para nomes tradicionais da Bolsa, como Axia Energia (ex-Eletrobras), Engie Brasil, ISA Energia e Taesa, como para veículos mais “modernos”: fundos de investimentos — KNIP11, VIFI11, SPF11, entre outros. Construtoras, fabricantes de equipamentos elétricos e produtoras de metais essenciais estão no radar, caso da Alcoa e Nucor.
Lá fora, gigantes como NextEra Energy, Duke Energy e Iberdrola seguem como um ponto de atenção por combinarem escala, previsibilidade e transição energética, enquanto empresas ligadas à infraestrutura crítica da nova economia, como Brookfield Infrastructure, Digital Realty e Equinix, surfam a explosão dos data centers.
O avanço da inteligência artificial mudou, também, o jogo da infraestrutura. O gerente de portfólio de ações globais de infraestrutura e recursos naturais da gestora de investimentos americana Cohen & Steers, Tyler Rosenlicht, explica à Bloomberg que os data centers são consumidores vorazes de energia e exigem um fornecimento estável.
É por isso que o mundo está redescobrindo o valor da energia nuclear, na sua visão, sendo limpa e funcionando 24 horas por dia. Esse cenário cria o que Rosenlicht descreve como a oportunidade de investir em “picaretas e pás” na “corrida do ouro tecnológica”: empresas de engenharia, construção e até fundições de alumínio que viabilizam toda essa expansão.
Além disso, algumas concessionárias de energia podem se beneficiar ao atrair data centers para sua área de atuação, o que pode até reduzir a conta de luz ao diluir custos fixos. No entanto, os riscos operacionais e regulatórios nunca devem ser subestimados, pois novas regras ou falhas podem comprometer o retorno sobre o capital investido.
Mesmo em meio ao otimismo, o investidor precisa estar atento aos gargalos estruturais. Um dos problemas mais discutidos atualmente é o chamado “curtailment” — quando o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) corta a geração de energia de usinas eólicas ou solares por excesso de oferta ou falta de linhas de transmissão.
E é, neste cenário, que algumas transmissoras de energia estão muito caras para o CIO da Suno Asset. Ele acredita que é preciso, assim, ampliar as linhas de transmissão, mas não vê um grande upside nessas companhias apesar de serem o elo da cadeia mais seguro e com menor volatilidade, o que fez elas alcançarem já um grande patamar de preço.
Segundo o diretor técnico científico do Grupo de Estudos do Setor Elétrico do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Gesel-UFRJ), Roberto Brandão, quem investiu em geração renovável recentemente enfrentou resultados financeiros, muitas vezes, difíceis devido a esse desequilíbrio ocasionado pelos curtailments.
“Esse é um tema complicado porque há expectativa de crescimento de demanda, mas a gente está num momento em que os últimos investimentos em geração renovável, que foram os principais investimentos dos últimos anos, seja solar, seja eólica, tiveram resultados financeiros muito ruins”, explica Brandão.
“Uma grande parte dos projetos, tinha uma perspectiva de retorno que não se realizou em função da crise, o problema é parcialmente endereçado pela nova legislação do setor, que deve ter algum tipo de importante ressarcimento para uma parte dos curtailments, mas o problema para frente não está totalmente endereçado”, acrescenta o diretor do Gesel.
O Brasil sofre, ainda, com a volatilidade entre momentos de seca (baixa oferta hídrica) e excesso de oferta de fontes alternativas, o que oscila os preços no curto prazo. Outro ponto fundamental é a alavancagem das empresas. Algo que Duarte alerta: algumas companhias do setor operam com dívidas altas.
“O risco de quem quer investir é criar uma oferta nova sem estar muito bem casado com essa demanda nova, e ficar há algum tempo sem receita até que a demanda chegue, porque a demanda vai chegar. Acho que o crescimento da demanda de energia é algo bastante claro”, afirma Duarte.