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Captação no mercado de capitais cai 12% no 1º semestre, mas renda fixa segue brilhando

Volume em renda fixa avança 25% e ameniza queda de outros segmentos; debêntures são destaque

86% de todo o volume captado no 1º semestre vem da renda fixa (Getty Images/Getty Images)

86% de todo o volume captado no 1º semestre vem da renda fixa (Getty Images/Getty Images)

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Beatriz Quesada

Publicado em 7 de julho de 2022, 17h03.

Última atualização em 7 de julho de 2022, 17h04.

O volume de captação no mercado de capitais brasileiro caiu 12,1% no primeiro semestre do ano em comparação com o mesmo período de 2021. 

Segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais, a Anbima, a queda foi puxada pelo recuo nas captações de renda variável. O volume do segmento diminuiu 75,1% nos seis primeiros meses de 2022 em comparação ao mesmo período do ano passado.

O total captado via ofertas primárias de ações (IPO, na sigla em inglês), caiu 98,8%, de R$ 37,5 bilhões para R$ 400 milhões. Já as ofertas secundárias de ações, os follow-ons, tiveram redução de 53,7% no volume – foram R$ 35,7 bilhões captados no primeiro semestre de 2021, contra R$ 18,5 bilhões este ano.

Para José Eduardo Laloni, vice-presidente da Anbima, o movimento já era esperado e faz parte de um contexto global de juros e inflação altos. “A taxa de juros no Brasil saltou de 2% para 13,75% em pouco mais de um ano. É algo que inibe a decisão do empresário de ir ao mercado buscar financiamento porque é difícil conseguir um preço justo pelas ações”, afirmou em conversa com jornalistas.

“Do lado do investidor, os fundos de ações foram muito afetados pela queda nos preços dos papéis e pelos saques dos investidores. O bolso para aplicar na renda variável ficou menor”, disse.

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Laloni reforça, no entanto, que o mercado de ações está pronto para se recuperar. Prova disso seria a captação da Eletrobras que, sozinha, captou em torno de R$ 33,7 bilhões. O número ficou fora do levantamento da Anbima para o primeiro semestre porque a emissão ainda segue em andamento. Ainda assim, o apetite em em momento de crise mostra a resiliência do investidor, segundo a associação. 

“É um movimento que irá se ajustar ao longo do tempo, o mercado continua forte e está pronto para um momento melhor – tanto que tivemos uma procura forte por Eletrobras. Muitos já veem a bolsa em patamar atraente, com ações descontadas”, completou Laloni.

Ainda assim, a ameaça de recessão no exterior e a proximidade das eleições presidenciais no Brasil devem manter o volume mais contido no segmento de renda variável.

Renda fixa segue nos holofotes

Quem se beneficia neste cenário é a renda fixa. O segmento cresceu 25% no primeiro semestre de 2022, com R$ 202 bilhões em captações. O valor representa 86% de todo o volume captado no mercado no período.

Do ponto de vista do investidor, os aportes ficam mais atraentes uma vez que os retornos sobem junto com os juros. E, para os emissores, o mercado de dívida entra no radar como forma de financiamento.

“Usualmente existem duas fontes de recurso para crescer e investir: o mercado de ações e o mercado de dívida. Só que com as recentes correções, as empresas não querem captar com o nível de preço que as ações estão negociando hoje. Então acabam fazendo suas aquisições e investimentos financiados via dívida”, avaliou Cristiano Cury, vice-coordenador da comissão de renda fixa da Associação.

Dentro dos mais de R$ 200 bilhões captados em renda fixa, as debêntures ocupam lugar de destaque, sendo responsáveis por R$ 133,8 do montante captado. O volume total de emissões em debêntures foi 35,3% maior do que no primeiro semestre de 2021 enquanto no mercado secundário, as negociações de debêntures subiram 50,8% em volume no mesmo período.

“É um indicativo de que o mercado de capitais vem ganhando profundidade e capacidade de financiamento do crescimento muito relevante. Há cinco anos atrás era muito difícil ver operações grandes acima de R$ 1 bilhão em debêntures. Este ano, foram 49 emissões acima desse valor”, destacou Laloni.