Juros menores podem mudar o jeito que o brasileiro investe (Getty/Getty Images)
Repórter de Projetos Especiais
Publicado em 10 de setembro de 2026 às 11h13.
Os investimentos das pessoas físicas no Brasil chegaram a R$ 9,1 trilhões no primeiro semestre de 2026. O valor representa uma alta de 6,4% em relação ao fim do ano passado. Os dados são da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais).
Pode parecer muito dinheiro. Mas o valor não significa necessariamente que mais brasileiros começaram a investir. Os R$ 9,1 trilhões incluem tanto novos aportes quanto a valorização dos investimentos que já estavam nas carteiras. “Podemos dizer que o brasileiro está acumulando mais patrimônio”, explica Elaine Borges, professora de finanças da USP.
A fotografia do primeiro semestre mostra, portanto, um investidor que acumula mais dinheiro. Mas, na avaliação da especialista, ainda não parece disposto a correr grandes riscos para fazê-lo crescer.
A maior parte dos recursos segue em aplicações de renda fixa. Mas isso não é exatamente uma surpresa. Com a Selic em 14% ao ano, o dinheiro rende sem exigir do investidor o estômago para enfrentar grandes oscilações.
Os títulos públicos tiveram a maior alta no semestre. O patrimônio aplicado neles cresceu 32,9%, um aumento de R$ 86,6 bilhões. Nos CDBs, o avanço foi de 8,5%, ou R$ 113,1 bilhões.
Com os juros nesse patamar, fica menos atraente abrir mão de uma remuneração alta e previsível em busca de aplicações que podem oscilar mais. É por isso que, para Borges, a Selic ajuda a explicar a preferência pela renda fixa. “Quando você tem uma Selic muito alta, não há um incentivo do investidor a assumir risco. Então, quem cresce são os títulos públicos, LCI, LCA, CDB.”
Selic alta mantém brasileiro longe do risco e perto da renda fixa (Jonathan Kitchen/Getty Images)
É o velho paradoxo dos juros altos. Eles tornam o dinheiro mais caro para quem precisa dele, mas também fazem com que seja mais confortável para quem pode simplesmente deixá-lo aplicado.
Há, porém, um movimento menos óbvio no meio dos números. Os ETFs, fundos que acompanham índices e permitem ao investidor comprar, de uma só vez, uma cesta de ativos, cresceram 38,8% no primeiro semestre, para R$ 25,4 bilhões. Entre os investidores de varejo, a alta foi ainda maior: 41,3%.
Ainda é pouco diante dos R$ 9,1 trilhões acumulados pelas pessoas físicas. Mas o ritmo chama atenção. Parte desse avanço está relacionada à própria simplicidade do produto. Em vez de escolher ação por ação, o investidor pode comprar uma cota de um fundo que reúne vários ativos. É uma maneira simples de diversificar sem precisar se transformar, da noite para o dia, em um analista de mercado.
Há também outro movimento: o interesse crescente por investimentos no exterior, favorecido pela queda do dólar no período. Para Elaine, os dois fenômenos ajudam a explicar o avanço dos ETFs. O produto oferece uma forma mais barata de diversificar, enquanto o investidor começa a olhar para além das aplicações tradicionais disponíveis no país.
Nos Estados Unidos e em países europeus, ETFs já fazem parte da carteira de muitos investidores. No Brasil, chegaram depois e ainda ocupam um espaço pequeno. Mas começam a deixar de ser uma aplicação para iniciados.
A composição das carteiras pode mudar de maneira mais perceptível se os juros começarem a cair. Hoje, um investimento de renda fixa consegue oferecer uma recompensa considerável sem que o investidor precise assumir muito risco. Com uma Selic menor, essa conta fica menos generosa. É nesse momento que aplicações mais voláteis podem voltar a parecer interessantes.
Ações, debêntures, CRIs e CRAs estão entre os investimentos que podem ganhar espaço nesse cenário. São produtos diferentes entre si e com diferentes níveis de risco, mas têm algo em comum: podem oferecer ao investidor alternativas ao conforto momentâneo da renda fixa.
Ações e crédito privado podem ganhar espaço com Selic menor (Getty Images)
A mudança também interessa à economia. Quando uma parcela maior da poupança das famílias chega a ativos de maior risco, mais recursos podem ser direcionados para empresas e projetos produtivos.
Por enquanto, contudo, não há uma grande fuga em direção à bolsa ou a investimentos mais sofisticados. A fotografia do primeiro semestre é mais comportada. O brasileiro está acumulando mais patrimônio, mas ainda prefere fazê-lo sentado sobre uma boa taxa de juros.