Com a negociação pela rival Extrafarma, para onde vai a Pague Menos?

PagueMenos é a terceira rede no ranking da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias. Caso confirmada, aquisição deve fazer com que a empresa salte para o segundo lugar
 (Divulgação/Facebook/Extrafarma)
(Divulgação/Facebook/Extrafarma)
Por Victor Sena, Bianca AlvarengaPublicado em 18/05/2021 14:52 | Última atualização em 18/05/2021 18:52Tempo de Leitura: 5 min de leitura

À primeira vista, a notícia de que a Pague Menos tem interesse em comprar a Extrafarma pode dar a entender que a rede está com um grande apetite. Isso até é verdade, mas por trás da estratégia da empresa está mais um senso de autoproteção do que de fome de grandeza. Esta é a análise do analista do mercado do varejo André Pimentel.

Como a Pague Menos (PGMN3) é forte no Nordeste e está crescendo no Norte, a aposta na Extrafarma (que opera principalmente no Norte) mostra um desejo de consolidação na região e de ser proteger. A notícia de que a Pague Menos tem interesse na Extrafarma foi divulgada pela Reuters na manhã desta terça-feira e confirmada pela empresa apenas no início da noite.

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"Essa aquisição parece fazer todo sentido primeiro porque o grupo Ultra está colocando a Extrafarma à venda e quer se concentrar em óleo e gás. Já a Pague Menos está vendo essa aquisição como um movimento defensivo. Se esse esse ativo estivesse indo para o mercado e fosse adquirido por uma concorrente, ela teria uma ameaça", explica André Pimentel.

Hoje, a Pague Menos é a terceira rede no ranking da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma). Caso confirmada, a aquisição deve fazer com que a empresa salte para o segundo lugar, com a entrada de novas 400 lojas. Hoje, a Pague Menos tem 1.100 lojas. As duas marcas são consideras parecidas e atendem o mesmo público-alvo, apesar de Extrafarma ter lojas com infraestrutura mais moderna.

Para o presidente da Associação, Sergio Mena Barreto, a notícia mostra que a Pague Menos quer reforçar seu posicionamento no Norte e no Nordeste. Além disso, Mena Barreto aponta que as redes ganham em margem conforme ampliam seu tamanho.

"Você ter 400 lojas a mais nesse mercado te dá um poder de barganha e negociação com o fornecedor. Você tem maior margem, maior resultado", explica.

Esse investimento no Norte e no Nordeste foi confirmado no fato relevante divulgado no início da noite desta terça, com uma declaração do CEO da Pague Menos, Mario Queirós:

“A aquisição da Extrafarma potencializa a nova fase de expansão da Pague Menos. Aceleramos o nosso crescimento e fortalecemos a nossa presença no Norte e Nordeste, bem como no atendimento à classe média expandida brasileira. Estamos preparados para continuar a trajetória da marca Extrafarma em uma região que conhecemos como ninguém, confiantes no potencial de expandir o Hub de Saúde Pague Menos a milhões de brasileiros, e firmes em nosso propósito de fazer com que os nossos clientes Vivam Plenamente”.

O presidente da Abrafarma também avalia que o valor de 700 milhões de reais que a Pague Menos deve pagar pelo Extrafarma, divulgado pela Reuters, é de um bom negócio.

"É um bom valor, porque você investe entre 1,5 milhão de reais e 2 milhões de reais em aquisição. Com esse dinheiro, estão captando 400 unidades a um custo de abertura, e as lojas já estão maduras. Geralmente você vende uma loja madura por um valor maior, porque ela valoriza."

Embora as grandes redes de farmácia, como RaiaDrogasil (RADL3), Panvel (PNVL3) e DPSP (dona da Pacheco e da Drogaria São Paulo), tenham tomado o mercado das grandes cidades, no Brasil o cenário do varejo farmacêutico ainda é bastante pulverizado. As 26 maiores redes de drogarias detêm aproximadamente metade de market share, e as pequenas farmácias de bairro ocupam o espaço restante.

Em 2020, a Extrafarma obteve uma  receita bruta de R$2,1 bilhões, com margem bruta de 28% e R$ 84,3 milhões de EBITDA. A Extrafarma é controlada pelo Grupo Ultra desde 2014.

Em entrevista concedida à EXAME em março deste ano, o vice-presidente financeiro da Pague Menos, Luiz Novais, contou que o objetivo da varejista era abrir lojas em regiões menos exploradas pela grande concorrência. Vale lembrar que mais de 60% dos 850 milhões de reais levantados no IPO devem ser destinados à expansão física.

“Entre e 80% e 90% das lojas abertas até metade de 2022 serão nas nossas regiões core: o Nordeste e Norte. Apesar de sermos líderes na maioria dos estados dessas regiões, ainda há bastante espaço para crescer em micromercados”, disse Novais, na ocasião.

A possível compra da Extrafarma parece ser a confirmação dessa estratégia. Nesse sentido, a rede de farmácias pertencente ao Grupo Ultra pode oferecer uma boa cobertura complementar, já que é líder nos estados do Amapá, Pará e Maranhão. Por outro lado, ainda que tenha unidades nesses estados, a Pague Menos tem atuação mais forte em Pernambuco, Alagoas, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará.

A compra poderia acelerar o crescimento da rede no Norte e consolidar a liderança no Nordeste, minando a competição de outras grandes redes de varejo farmacêutico nessas regiões.

“Vemos diversos micromercados onde a Pague Menos tem menos de 30% de market share, e é nesses locais que queremos agir”, explicou Novais, à EXAME.

A compra ainda não confirmada pelo Pague Menos e precisa ser aprovado pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Para André Pimentel, pode haver uma dificuldade dessa aprovação porque existe a possibilidade de concentração e monopólio.