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Como transformar imóvel em dinheiro sem precisar se mudar: a nova estratégia da alta renda

Na Rooftop, 47,4% dos clientes buscam reorganizar as finanças e 16,5% direcionam o recurso para a própria empresa

Patrimônio imobiliário: donos de imóveis buscam novas formas de transformar patrimônio em liquidez (Leandro Fonseca/Exame)

Patrimônio imobiliário: donos de imóveis buscam novas formas de transformar patrimônio em liquidez (Leandro Fonseca/Exame)

Letícia Furlan
Letícia Furlan

Repórter de Mercados

Publicado em 29 de setembro de 2026 às 05h00.

Última atualização em 1 de outubro de 2026 às 15h46.

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O imóvel está ganhando uma nova função entre famílias de alta renda. Em vez de ser apenas patrimônio ou um ativo para venda, casas e apartamentos podem ser transformados em liquidez para reorganizar as finanças sem que o proprietário precise deixar a residência.

Esse é o modelo do HomeCash, da Rooftop: a empresa compra o imóvel e permite que o antigo proprietário continue morando nele por até 18 meses, pagando aluguel, com a possibilidade de recomprá-lo durante o período. A operação é voltada a imóveis residenciais de alto padrão e funciona como uma alternativa à venda tradicional ou ao crédito bancário.

Segundo Daniel Gava, CEO da Rooftop, o movimento não deve ser interpretado como uma saída do mercado imobiliário.

“Eu não chamaria de desinvestir. Quem procura uma operação de liquidez imobiliária quer usar o valor do imóvel sem abrir mão dele. No HomeCash, o cliente continua morando no imóvel e mantém o direito de recomprá-lo”, afirma.

Levantamento da Rooftop mostra que 47,4% dos clientes que contrataram uma operação de liquidez imobiliária utilizaram o recurso para reorganizar a vida financeira. Outros 16,5% direcionaram o dinheiro para a própria empresa, enquanto apenas 6% usaram a operação para antecipar a venda do imóvel.

“O imóvel está deixando de ser só patrimônio e passando a trabalhar pelo dono”, diz Gava.

O perfil dos clientes ajuda a explicar por que a operação é procurada mesmo por pessoas de renda elevada. Entre os clientes com renda informada, 68,7% recebem mais de R$ 20 mil por mês. Cerca de 72,8% são homens e 70% têm mais de 50 anos.

São Paulo concentra 36% dos clientes, enquanto o Rio de Janeiro aparece em seguida, com 6%.

Os empresários representam 20,83% dos clientes da Rooftop. Depois aparecem incorporadores, com 16,5%, contadores, com 12,5%, e advogados, também com 12,5%. Arquitetos e médicos ou dentistas representam 8,33% cada.

Para Gava, o perfil mostra que a operação não está concentrada em pessoas sem patrimônio, mas em proprietários que possuem riqueza imobiliária e precisam transformá-la em dinheiro.

“Historicamente, quem tinha patrimônio em imóvel e precisava de liquidez tinha duas opções: vender, geralmente com pressa e com desconto, ou buscar crédito bancário, que no Brasil é caro e burocrático para quem tem renda variável, como empresários e profissionais liberais”, afirma.

Por que alguém com renda alta precisa de dinheiro?

A presença de clientes com renda elevada não significa necessariamente que essas famílias estejam perdendo capacidade financeira. Para Gava, o principal problema é o custo do dinheiro.

Em um cenário de juros elevados por períodos prolongados, dívidas podem pressionar o orçamento mesmo de quem possui patrimônio relevante. Ao mesmo tempo, empresários e profissionais liberais podem ter dificuldade para acessar crédito tradicional em condições favoráveis por terem renda menos previsível.

“Não é o imóvel que perdeu atratividade. Tanto que o cliente quer continuar nele e manter a opção de recomprar no futuro. O que pesa é o custo do dinheiro”, afirma.

Parte dos clientes usa os recursos para trocar dívidas caras, como cartão de crédito e cheque especial, por uma estrutura de custo menor. Outros aproveitam o capital para financiar o próprio negócio.

“É gente com patrimônio e renda, mas que precisa de liquidez num momento específico, seja para arrumar a casa ou para investir no próprio negócio”, afirma Gava.

Segundo o executivo, grande parte da riqueza das famílias brasileiras está concentrada em imóveis, mas esse patrimônio é pouco utilizado como fonte de liquidez.

“O brasileiro concentra grande parte da riqueza em imóveis, mas usa muito pouco esse patrimônio como fonte de liquidez, bem menos do que em mercados como os Estados Unidos”, diz.

A mudança, portanto, não está necessariamente na percepção sobre o imóvel, mas na forma como o proprietário utiliza esse patrimônio.

Não são, em sua maioria, herdeiros vendendo imóveis

Uma hipótese para esse tipo de operação seria a de que imóveis estivessem chegando ao mercado porque seus proprietários morreram e os herdeiros decidiram transformar o patrimônio em dinheiro. Os dados da Rooftop, porém, não sustentam essa leitura.

Segundo Gava, o perfil predominante é de pessoas acima de 50 anos que construíram o próprio patrimônio e continuam morando nos imóveis.

“O perfil predominante é de empresários e profissionais liberais acima de 50 anos, pessoas no auge da vida produtiva, que construíram esse patrimônio e continuam morando nele”, afirma.

A sucessão aparece em alguns casos, mas não é, segundo ele, o principal fator por trás das operações.

O movimento está mais relacionado à tentativa do próprio proprietário de reorganizar o uso de um patrimônio que já possui — transformando parte do valor concentrado no imóvel em dinheiro para resolver uma necessidade financeira, investir no negócio ou atravessar uma mudança de vida.

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