Tesouro Direto: títulos públicos de vencimento longo perdem até 9% em julho

Enquanto o Tesouro Selic e os prefixados tiveram valorização de cerca de 1% no mês, os títulos IPCA+ registraram perdas elevadas. Entenda o motivo
Tesouro Direto: mudança nas perspectivas de juros e inflação afetam o rendimento dos títulos públicos (Alicia Llop/Getty Images)
Tesouro Direto: mudança nas perspectivas de juros e inflação afetam o rendimento dos títulos públicos (Alicia Llop/Getty Images)
Bianca Alvarenga
Bianca Alvarenga

Publicado em 01/08/2022 às 16:19.

Última atualização em 01/08/2022 às 19:36.

Julho foi mais um mês turbulento para os investidores do Tesouro Direto. Os títulos públicos seguem operando com muita volatilidade, dadas as mudanças nas expectativas de juros e inflação. Na avaliação geral, as aplicações do Tesouro com vencimento mais longo seguem mais penalizadas, enquanto os papeis inexados pelo CDI e de vencimento mais curto se saíram melhor no mês.

A principal mudança de cenário ocorreu pela redução do ICMS cobrado sobre os combustíveis nos postos, ainda na primeira semana do mês. Os preços da gasolina, diesel, gás de cozinha e outros subprodutos do petróleo eram um dos principais pontos de pressão da inflação.

Com o recuo nos preços dos combustíveis, as projeções para o IPCA mudaram. Segundo analistas, houve uma "transferência" de inflação de 2022 para os anos seguintes, o que influenciou a curva de juros.

"Apesar da redução em preços administrados resultar em uma redução das expectativas de inflação em 2022, o viés para o IPCA ficou mais altista em 2023 e 2024", observou o banco BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME) em relatório divulgado hoje, 1.

Segundo as projeções do boletim Focus, elaborado pelo Banco Central, a inflação deve terminar 2022 perto de 7%. No começo de julho, a projeção era de uma taxa de 8%. Já o IPCA de 2023 saiu de 5% para 5,33%, e o de 2024 aumentou ligeiramente, de 5,25% para 5,3%.

Veja abaixo o rendimento do Tesouro Direto em julho:

Aposta em prefixados e Selic

O "alongamento" da inflação fez o mercado precificar juros mais altos por mais tempo. A taxa básica de juros da economia está em 13,25% atualmente e deve subir um pouco mais na quarta-feira, 3, quando o Comitê de Política Monetária do Banco Central vai decidir o novo patamar anual da Selic.

Espera-se que a Selic escale para os 13,75% na próxima reunião, e um novo aumento em setembro, que levaria a taxa para mais de 14% ao ano, não está descartado. Por outro lado, a "trégua" imposta pelo recuo dos combustíveis pode fazer o BC esperar para avaliar a efetividade das últimas altas nos juros.

Foi essa possibilidade que deu um ânimo extra para os títulos prefixados, cujo rendimento é acordado no momento da aplicação. Atualmente, esses papeis estão oferecendo um retorno anualizado que vai de 13,9% (no caso do prefixado 2023) até 12,83% (no caso do prefixado 2026).

A diferença de rendimento entre os títulos prefixados curtos e longos é pequena, o que indica, primeiro, que o mercado está aplicando todo o "prêmio" da incerteza nos papeis curtos (o que é natural), e, segundo, indica que juros devem ficar altos por bastante tempo.

"A possibilidade de uma Selic mais longa por ainda mais tempo do que o esperado pelo mercado é o principal risco dessa estratégia [de investir em títulos prefixados], alertou o BTG, em relatório.

A prova disso é que o cenário positivo para os prefixados é bastante recente. No acumulado do ano e nos últimos 12 meses esses títulos acumulam perdas, especialmente os mais longos. Isso porque, embora a Selic esteja em um patamar elevado, há ainda a chance de a taxa continuar subindo.

O cenário de juros mais altos, no entanto, é boa notícia para quem investe em Tesouro Selic (conhecidas como LTN). Esses títulos são menos voláteis, pois acompanham o rendimento mensal da taxa básica de juros (ou seja, o CDI daquele mês). O retorno de 1% ao mês deve entregar, ao ano, o valor anualizado da Selic.

Títulos longos em baixa

Enquanto prefixados e Tesouro Selic navegaram bem no mês de julho, o Tesouro IPCA+ (também chamado de NTN-B) teve dias mais difíceis. As projeções de inflação perto de 5% para 2023 e 2024 indicam que o retorno dos títulos vai continuar subindo.

Apesar disso, o rendimento mensal dos títulos de inflação variou de -0,48% (no caso do IPCA+ com juros semestrais e vencimento em 2024) até -8,63% (no caso do IPCA+ com vencimento em 2045).

Se as projeções de inflação estão em alta, por que a rentabilidade do IPCA+ está em queda?

Para entender o "paradoxo", é importante revisitar a composição de rendimento dos títulos. No caso dos ativos da classe IPCA+, o retorno é calculado com base em duas variáveis: uma taxa, que varia diariamente, e o valor acumulado do IPCA no período.

A parte da taxa está subindo, por causa de uma combinação de dois fatores: primeiro, o mercado acredita que os juros vão permanecer em patamares elevados, e a parte fixa do rendimento funciona como uma espécie de "prêmio", para equiparar as NTN-B com os títulos que pagam o mesmo valor da Selic.

E segundo, quando o grau de incerteza sobre o futuro da economia aumenta, os investidores pedem um "bônus" para investir nos títulos de inflação, e esse extra é refletido na taxa fixa que compõe o rendimento.

Dito isso, vamos para a lógica que explica a desvalorização do Tesouro IPCA+: toda vez que a taxa sobe, o rendimento do título cai. Isso acontece por causa da marcação a mercado, mecanismo que reflete o preço de um ativo ao longo do tempo.

Basicamente, a explicação aqui é a seguinte: quem comprou esse título no mês passado contratou uma taxa menor do que a atual, e por isso ele está, em tese, perdendo a chance de ganhar mais dinheiro.

É importante explicar o termo "em tese", porque trata-se de uma desvalorização virtual. O investidor só vai sentir a perda de rentabilidade no bolso se ele decidir vender o título antes do vencimento. Quanto ele vai receber depende do dia da venda (e é isso que a marcação a mercado calcula).

Agora, se o investidor decidir carregar o título até o vencimento, ele receberá exatamente o que foi acordado no momento da aplicação (ou seja: receberá a taxa + a variação do indexador nesse período).