Para que serve cada título do Tesouro Direto

Qual o melhor título para o atual momento econômico? Quais as características de cada título? Para que tipo de objetivo cada um serve?

	Tesouro Direto: plataforma é online e permite investimento direto, mas ainda provoca muitas dúvidas
 (SXC)
Tesouro Direto: plataforma é online e permite investimento direto, mas ainda provoca muitas dúvidas (SXC)
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Julia WiltgenPublicado em 30/07/2013 às 17:24.

São Paulo – Quem investe ou quer investir no Tesouro Direto – plataforma online do Tesouro Nacional para venda de títulos públicos para a pessoa física – volta e meia se vê cercado de dúvidas acerca de que título comprar em meio àquela sopa de letrinhas que se apresenta na tela do computador. O Tesouro Nacional dispõe de alguns tipos de títulos, de prazos e formas de remuneração diferentes, cada qual beneficiado por um tipo de cenário econômico. Mas afinal, qual deles comprar, quando e para qual objetivo?

Qual o melhor título do Tesouro neste momento?

Esse é um questionamento muito comum entre os investidores do Tesouro Direto. Existe um cenário econômico mais favorável ou mais prejudicial para cada um desses títulos de renda fixa. Porém seu preço atual e forma de remuneração incorporam não as circunstâncias econômicas de hoje, mas sim o cenário futuro – previsões do mercado para indicadores como juros e inflação.

Em função disso, especialistas recomendam que o investidor pessoa física se preocupe menos em tentar adivinhar para onde vai a economia a fim de especular com os títulos públicos, e mais em adequá-los a seus objetivos financeiros.

Segundo Samy Dana, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP), existe certo equilíbrio no mercado de títulos, pois se um papel é muito procurado, seu preço (valor da face) sobe e sua remuneração cai; do contrário, seu preço cai e sua remuneração sobe. É a chamada marcação a mercado.

Além disso, o risco de crédito de todos os títulos é o mesmo: o risco de calote do governo, de quem o investidor se torna credor.

O que diferencia um título do outro são os prazos e a forma de remuneração, fatores que interferem na variação do preço do título e que podem, em certas circunstâncias, acarretar perdas ao investidor. Nesse sentido, os riscos diferem.

Primeira escolha: adeque os prazos a seus objetivos

Como o preço do título e sua remuneração variam de acordo com a demanda dos investidores e as mudanças no cenário econômico, a venda antecipada de um título pode fazer o investidor ganhar mais do que o previsto inicialmente (se o título tiver se valorizado) ou até perder dinheiro (se tiver se desvalorizado).

“Você pode vender o título antes do vencimento, pois toda quarta-feira o Tesouro faz a recompra de títulos. Porém, quando a pessoa vende antes do prazo, pode ganhar mais ou menos do que a remuneração acordada”, explica Samy Dana.

Isso porque os títulos são recomprados pelo Tesouro pelo seu valor de mercado (seu preço naquele momento). Por isso, o mais recomendável para que o investidor não tenha perdas é tentar casar os prazos dos títulos com a data em que precisará do dinheiro.

Se levados até o vencimento, os títulos públicos pagam exatamente a remuneração acordada no ato da compra, independentemente do que tenha ocorrido ao preço do título no meio do caminho.

Por exemplo, hoje são vendidos pelo Tesouro títulos com prazos que variam de janeiro de 2016 a agosto de 2050. Os preços (valores de face) também variam. Os títulos prefixados custam entre 703,46 reais e 956,38 reais; os pós-fixados à inflação vão de 731,65 reais a 2.571,15 reais; e os pós-fixados à Selic custam 5.689,69 reais.

É claro que não é preciso comprar um título inteiro. O Tesouro Direto permite que a pessoa física compre uma fração de título: no mínimo 10% do valor de um título, desde que esse percentual atinja a quantia mínima de 30 reais.


Entenda como funciona cada título

O Tesouro Direto dispõe de cinco tipos de títulos que se dividem em pós-fixados (cuja remuneração flutua ao sabor de um indicador econômico) e prefixados (cuja remuneração é um percentual fixo acordado no ato da compra). Eles também podem ser classificados como de curto/médio prazo e longo prazo.

Curto/médio prazo

Letras Financeiras do Tesouro (LFT): são títulos pós-fixados, atrelados à taxa básica de juros, a Selic. Como antes do desconto do imposto de renda a remuneração é bem próxima da taxa Selic, esse título oferece uma remuneração maior quando a Selic sobe, mas paga uma remuneração menor quando a Selic cai.

É possível perder dinheiro com a venda antecipada? Esse é o título mais “tranquilo” do Tesouro. Sua volatilidade (a variação do seu preço) é baixa, uma vez que seu indexador, a Selic, é uma taxa diária, com ajustes feitos rapidamente pelo mercado. Na venda antecipada, portanto, há uma chance reduzida de perder dinheiro, mas pode ocorrer de a rentabilidade ficar um pouco abaixo da variação da Selic do período.

Para que tipo de objetivo é indicado: Objetivos de curto prazo. Atualmente, a LFT oferecida pelo Tesouro vence em março de 2017, isto é, daqui a pouco menos de quatro anos. A LFT pode ser uma boa opção para formar a sua reserva de emergência ou para objetivos que devem se concretizar em breve, como um casamento ou uma viagem.

Letras do Tesouro Nacional (LTN): são títulos prefixados, que pagam uma rentabilidade acordada no ato da compra, estipulada em função da expectativa para a Selic no futuro. A LTN com vencimento em janeiro de 2016 paga, atualmente, 10,47% ao ano para quem levá-la ao vencimento; já a que vence em janeiro de 2017 paga 10,83% ao ano. A LTN se valoriza quando a expectativa é de queda na Selic, mas desvaloriza quando a expectativa é de alta.

É possível perder dinheiro com a venda antecipada? Sim. Se a expectativa passa a ser de queda na Selic, a atual remuneração da LTN se torna mais atrativa para os investidores, fazendo com que o preço do título suba. Bom para quem tinha o título na carteira e o vender antes do vencimento; ruim para quem comprar agora, pois terá à disposição um título mais caro e, portanto, com remuneração mais baixa. Do contrário, se a expectativa do mercado passa a ser de queda na Selic, a remuneração atual perde a atratividade, e o preço do título cai. Quem o vender antes do tempo ganhará menos que o acordado e pode até perder parte do principal; já quem decidir comprá-lo terá a oferta de títulos mais baratos e, portanto, com remuneração maior.

Para que tipo de objetivo é indicado: poucos são os especialistas que indicam esse título. Isso porque ele não apresenta qualquer proteção para a inflação, o que torna questionável as vantagens da remuneração fixa. No caso dos títulos oferecidos atualmente, quem garante que a inflação, na data de vencimento, não será de algo como 9%, praticamente anulando o ganho? Por isso, a LTN é indicada para o investidor que precisará, por exemplo, quitar uma dívida de juro prefixado no futuro, ou que precisa de uma quantia determinada por algum motivo. Mas raros são os objetivos financeiros que não encarecem com a inflação.


Notas do Tesouro Nacional-série B Principal (NTN-B Principal): esse título tem uma parte da remuneração prefixada e outra parte pós-fixada à inflação pelo IPCA. Assim, ele sempre paga uma taxa de juro definida no ato da compra mais a inflação do período. Atualmente, a NTN-B Principal com vencimento em 2019 paga 4,97% ao ano mais IPCA; a que vence em 2035 paga 5,42% ao ano mais IPCA; e a que vence em 2024 paga 5,33% ao ano mais IPCA. Como a LTN, esse título se valoriza quando a expectativa é de queda na Selic, desvalorizando-se se a expectativa for de alta.

É possível perder dinheiro com a venda antecipada? Sim, pelo mesmo motivo que as LTNs. Se a expectativa passa a ser de queda na Selic, o juro prefixado da NTN-B Principal cai, mas seu preço aumenta, beneficiando que o vende antecipadamente. Já se a expectativa passa a ser de alta na Selic, o juro prefixado da NTN-B Principal sobe, mas seu preço cai, prejudicando quem o vender antecipadamente.

Para que tipo de objetivo é indicado: Samy Dana diz que esse é seu título preferido do Tesouro Direto, uma vez que ele oferece proteção contra a inflação a quem o carrega até o vencimento. Com a NTN-B Principal é possível “enriquecer” de fato, pois o investidor ganha sempre acima do IPCA. “Talvez a inflação pelo IPCA não seja igual ao aumento do seu custo de vida, mas já é uma maneira de preservar o poder de compra”, diz o professor. Assim, esse título é indicado para objetivos de médio e longo prazo que sejam afetados pela alta dos preços, como a compra de um imóvel daqui a alguns anos ou o pagamento dos estudos dos seus filhos que hoje ainda são crianças.

Longo prazo

A diferença dos títulos de longo prazo para os demais títulos é o fato de eles pagarem remunerações intermediárias, a cada seis meses, chamadas cupons. Dependendo do objetivo, pode ou não ser interessante reinvestir esse cupom. Os títulos de longo prazo são:

Notas do Tesouro Nacional-série F: são os equivalentes de longo prazo das LTNs. Pagam uma remuneração prefixada, sem correção pela inflação, porém com o pagamento de cupons semestrais. A NTN-F à venda atualmente vence em janeiro de 2023 e remunera em 10,95% ao ano.

Notas do Tesouro Nacional-série B: são os equivalentes de longo prazo das NTN-B Principais. Pagam uma remuneração prefixada acima da inflação pelo IPCA, porém com o pagamento de cupons semestrais. Atualmente são vendidas NTN-B com vencimentos em 2020 (que pagam 4,97% ao ano mais IPCA), 2035 (que pagam 5,33% ao ano mais IPCA) e 2050 (que pagam 5,44% ao ano mais IPCA).

É preciso ficar atento, porém, ao fato de que quanto mais longo o prazo de um título, mais seus preços oscilam quando há mudanças de expectativa no cenário econômico. Assim é possível ganhar mais com a venda antecipada quando as condições são favoráveis, mas também é possível perder boa parte do principal se elas forem desfavoráveis.

No caso dos títulos que pagam cupom, essa remuneração semestral minimiza a necessidade de resgatar o título antes do vencimento. Nesse sentido, ter títulos de diferentes prazos na carteira também é interessante.

As NTN-B são os títulos ideais para se poupar para a aposentadoria, pois além de oferecerem proteção contra a inflação no longo prazo – o que é fundamental para o planejamento previdenciário –, a possibilidade de perdas pela venda antecipada pode inibir o investidor de querer resgatar o dinheiro antes do tempo.

Para quem já está aposentado, a NTN-B também pode ser interessante como fonte de renda corrigida pela inflação, por meio do pagamento dos cupons semestrais. “Acho que o investidor, principalmente a pessoa física, não tem que ficar exposto ao risco de inflação”, diz Dana.