Está descontente com o destino dos impostos? Foco das eleições é o Congresso, diz Arcuri

Em série, empresária explica que dinheiro dos brasileiros pode ser melhor aplicado na forma de impostos se voto para deputado e senador for mais consciente
 (Germano Lüders/Exame)
(Germano Lüders/Exame)
Marília Almeida
Marília Almeida

Publicado em 01/10/2022 às 12:08.

Última atualização em 03/10/2022 às 11:41.

Não apenas Lula contra Bolsonaro. Se o brasileiro quiser ter mais dinheiro sobrando no final do mês, inclusive para investir, precisa pensar com cuidado em quem vai votar para deputado federal e senador nestas eleições, diz a influencer e fundadora do canal Me Poupe!, Nathália Arcuri. "Quem define para onde vai dinheiro dos impostos não é o cargo executivo, apesar dele ser importante. Mas sim o legislativo, o Congresso”.

O canal de finanças encerrou na quinta-feira, 29, o lançamento de quatro episódios da minissérie documental “Os Caminhos do Dinheiro”, disponível no YouTube, que até agora ultrapassaram 300 mil views. O objetivo é explicar o impacto dos impostos e tributações na vida dos brasileiros. “Os brasileiros precisam ter cada vez mais clareza sobre a cadeia de impostos que atacam as suas finanças o tempo todo”, diz a empresária.

Para explicar as taxas cobradas pelo governo. Arcuri utiliza como exemplos a tributação que incide sobre itens de necessidade básica para a população. "São itens que cada vez mais sofrem com a alta no preço - como café, produtos de higiene, energia elétrica, combustível, além da proteína cada vez mais rara no prato dos brasileiros: a carne".

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A série é produzida com a participação de pessoas comuns, especialistas e usa intervenções e animações explicativas. No primeiro capitulo, a empresária aborda como o brasileiro é um dos povos que mais paga, mas que menos recebe o retorno dos impostos e como o Brasil está entre os 30 países com maior carga tributária, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário.

"Acredito que o voto será a grande arma contra o mau uso do dinheiro público que chega até os cofres dos governos através de impostos. E por meio dele abriremos caminho para que reformas, como a tributária, possam avançar no futuro".

Veja abaixo a entrevista concedida pela influencer à EXAME Invest.

Uma das ideias abordadas pela sua série é de que a tributação sobre o consumo no Brasil é pouco transparente, diferente dos Estados Unidos, onde é possível ver em cada compra o quanto se paga de tributos. 

Planejamos estrategicamente que a série, concebida em janeiro, fosse ao ar no período pré-eleições. Sabíamos que seria um momento conturbado, de polarização ainda maior, e é o que está acontecendo.

Temos esse momento de Bolsonaro contra Lula, e o foco das pessoas acaba indo para a disputa e menos para o essencial que são as pautas políticas, e sobre quem faz de fato a gestão do dinheiro público. Quem define para onde vai dinheiro dos impostos não é o cargo executivo, apesar dele ser importante, mas o legislativo, o Congresso. São deputados federais, estaduais e senadores. Para onde vai o nosso dinheiro depende mais dessas pessoas do que do presidente.

Meu intuito é mostrar para as pessoas para onde vai dinheiro dela e que 2/3 do que é arrecadado vem do consumo. As pessoas acreditam que o único imposto é o Imposto de Renda. Tem gente que deixa de investir no Tesouro ou na renda variável por medo de pagar imposto. É algo velado no nosso país, e tudo o que desconhecemos a gente desconfia, e se desconfiamos, afastamos. Mas esse é um tipo de assunto que não podemos afastar como cidadão. Quanto mais conhecermos sobre, mais vamos poder cobrar.

Desde que eu nasci nunca vi tanto engajamento político. Mas é mais a defesa do candidato A e ideologia A ou candidato e ideologia B. Não existe discussão sobre politica pública, e sobre o que é feito com nossos impostos.

Somos um canal de finanças. Se tenho em minha base 7 milhões de mulheres, da classe B e C, com idade entre 20 e 35 anos, uma classe das que mais pagam a conta do consumo no país, nada mais justo do que falar: você trabalhou até maio para sustentar o governo. Está feliz com esse traste que está sustentando?

Interessante apontar que essa falta de conhecimento interfere até em como os brasileiros investem o dinheiro. 

As pessoas preferem ganhar 100% de pouco do que 90%, 95% de muito ou algo melhor do que a poupança porque olha se tem imposto ou não. É aquela história: moça bonita não paga, mas também não leva. Pelo menos o imposto sobre investimento é sobre o que rendeu. Mas se olhamos a carga tributária sobre produtos que consumimos no dia a dia começamos a entender que poderíamos ter mais dinheiro para investir se a maior parte da nossa renda não fosse para bancar o governo.

Quanto mais o brasileiro ganha, menos imposto se paga relativamente em relação a renda. A carga tributária sobre o consumo representa 30% da renda total de pessoa que ganha até R$ 2 mil. Já quem ganha R$ 10 mil reais os impostos afetam proporcionalmente apenas 7% da renda. Portanto, o dinheiro que sobra para quem está no alto da pirâmide é maior, e os impostos para a baixa renda pesam muito mais. Para quem ganha um salário mínimo, 60% da renda é destinada para o pagamento de impostos. E como ele faz para se alimentar bem, se divertir?

Você é a favor de taxar grandes fortunas?

O problema não é o imposto. Isso precisa ficar bastante claro. Arrecadamos bastante dinheiro, mas o país não está entre os que mais tributam. Mas fica no topo ranking da tributação com pior custo benefício. Não acredito que o caminho é tributar mais, mas fazer um sistema progressivo, onde se onera menos quem ganha uma renda mais baixa e cobra mais de quem ganha mais.

A tabela do Imposto de Renda no país não é corrigida há seis anos. Há assimetrias que tornam não fazer esse tipo de reajuste algo muito conveniente.

Nos estados unidos só paga Imposto sobre Transmissão de Bens, similar ao nosso ITCMD, quem tem renda a partir de US$ 20 milhões. Quem tem R$ 1 milhão investido vai ter de pagar mais? Não. Quando falamos em riqueza é riqueza de verdade. É o 1% que corresponde à metade da riqueza do país que precisa ser tributado. Para piorar, temos mecanismos e veículos que pegam boa parte dessa riqueza pouco tributada para fora. Isso acontece em todo lugar, inclusive aqui.

No documentário você aponta algum exemplo específico de como o dinheiro público pode ser melhor gasto?

Não olhamos para a aplicação do dinheiro em si. Isso a voz do povo diz. Sabemos que a educação e a saúde estão sucateadas: basta olhar. Quem consegue marcar uma consulta com um especialista na rede publica? Não é pedir demais: a gente paga para isso. Não ter serviço quer pagamos para ter é absurdo. É difícil o investimento retornar para as pessoas proporcionalmente ao que pagam para isso.

Basta ver a tributação sobre remédios. A sobre livro continua baixa, mas esse governo andou querendo aumentar. Para usar carros populares, pagamos entre 2% e 4% de IPVA todo ano, enquanto veículos aquáticos usados para lazer, como lanchas e jet skis, não são tributados.

Quando explicamos tudo isso, as pessoas começam a acordar. Caso contrário, ficam em uma letargia e não se responsabilizam, colocam a culpa no governo. Como se não fossemos responsáveis por quem colocamos lá. Quem lembra para quem votou como deputado federal nas últimas eleições, suas pautas e o que foi feito por ele. Acompanhou essa pessoa? Criticamos o governo, mas também precisamos criticar a população. Tem gente que só reclama, mas decide o voto para deputado e senador pela cara da pessoa. Então, tem de se acostumar a receber serviço de quem foi pela cara.

Qual foi o feedback que recebeu pelo lançamento da série até agora?

Tivemos muitas surpresas positivas. Nosso primeiro receio era que esse conteúdo virasse mais combustível para discursos de ódio e polarização. Cuidamos para que não fosse, e realmente não aconteceu. As pessoas entenderam que o conteúdo foi feito para a população, de todas as classes e ideologias.

Estamos falando sobre o retorno do investimento que todos fazemos como cidadãos. E mostramos soluções possíveis. No último episódio falamos sobre a nossa Constituição. Ela é linda, mas na prática é tudo diferente. Pagamos para ter o país que está escrito lá, mas cadê?

Reunimos especialistas, tributaristas e advogados, gente que trabalha com politicas publicas, e quisemos trazer diversidade de vozes. Não apenas homens brancos e heterossexuais, mas também vozes não privilegiadas. E tocamos em feridas que ainda não foram solucionadas. Como o de uma população de milhões que era um produto, se transformou em cidadão que paga impostos, mas continua à margem da sociedade.

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