Dinheiro: endividamento das famílias alcançou 49,9% da renda, segundo BC (Leandro Fonseca/Exame)
Repórter de finanças
Publicado em 11 de agosto de 2026 às 08h06.
Quando a conta já venceu, é hora de encontrar uma saída. Antes que ela vença, é hora de tentar evitar o problema. A diferença ajuda a explicar como homens e mulheres têm buscado informações para reorganizar a vida financeira em um cenário de endividamento ainda elevado no Brasil.
Em 2026, o endividamento das famílias alcançou 49,9% da renda, segundo dados do Banco Central (BC), enquanto o comprometimento da renda com o pagamento de dívidas chegou ao maior nível desde 2005. Nesse contexto, cresce o interesse por alternativas para colocar as contas em dia e recuperar o acesso ao crédito — mas a maneira de procurar ajuda muda conforme o gênero.
Um levantamento do Pagou Fácil, plataforma de negociação de dívidas da Paschoalotto, identificou uma diferença nesse comportamento ao analisar pesquisas realizadas no Google, Google Notícias e Google Shopping entre julho de 2025 e maio de 2026.
A pesquisa mapeou a procura pelos termos "inadimplente" e "endividado" e encontrou uma divisão clara. As mulheres pesquisam proporcionalmente mais sobre inadimplência, enquanto os homens demonstram maior interesse pelo endividamento.
No período analisado, as buscas gerais por "endividamento" cresceram 83%, enquanto as pesquisas por "inadimplência" avançaram 22%.Para Geovanni Borsetto, Superintendente de Marketing & Comunicação do Pagou Fácil, a diferença pode estar relacionada à forma como responsabilidades financeiras são historicamente distribuídas entre homens e mulheres dentro das famílias.
Segundo o superintenente, as mulheres, por estarem mais à frente da gestão do orçamento doméstico, tendem a procurar soluções quando as contas já estão atrasadas. Os homens, por outro lado, parecem demonstrar preocupação mais cedo, buscando informações sobre o volume de compromissos financeiros antes que eles se transformem efetivamente em uma dívida não paga.
Por trás dos números das buscas na internet há também uma mudança na estrutura das famílias brasileiras. Segundo a Fundação Getulio Vargas (FGV), mais de 41 milhões de domicílios no país são chefiados por mulheres. Elas são as principais responsáveis financeiras em mais da metade dos lares brasileiros.
A maior participação na gestão financeira, porém, acontece em meio a uma desigualdade salarial persistente. Três em cada quatro mulheres ocupadas recebem até dois salários mínimos, proporção superior à observada entre os homens.
O reflexo também aparece nos índices de inadimplência. Cerca de 36% das mulheres têm o nome negativado, contra 30% dos homens.
Embora os dois termos sejam frequentemente tratados como sinônimos, endividamento e inadimplência representam situações distintas.
Estar endividado significa ter compromissos financeiros assumidos — como financiamentos, empréstimos e parcelamentos — que continuam sendo pagos dentro do prazo. A inadimplência ocorre quando esses pagamentos deixam de ser feitos no vencimento, levando à incidência de juros e multas e podendo resultar em restrições de crédito.
“Essa diferença importa na hora de agir. Quem está apenas endividado, mas em dia, ainda consegue reorganizar o orçamento de forma preventiva. Já quem está inadimplente precisa negociar diretamente com credores para renegociar dívidas, reduzir encargos e recuperar o nome”, afirma Geovanni.
O problema, no entanto, não termina no bolso. O acúmulo de contas pode provocar ansiedade, estresse e insônia, criando uma espécie de círculo difícil de romper: quanto maior a pressão financeira, mais difícil pode ser encontrar espaço para reorganizar as contas.
Para Geovanni, o primeiro movimento para recuperar a saúde financeira é entender exatamente o tamanho do problema.
"O primeiro passo é fazer um diagnóstico completo da situação, mapeando todas as fontes de renda, despesas fixas e dívidas. A partir desse levantamento, é possível identificar onde ajustar o orçamento e definir prioridades, especialmente em relação às dívidas com juros mais elevados", explica o executivo.
A recomendação é cortar despesas não essenciais e evitar assumir novos compromissos enquanto o orçamento não estiver equilibrado. A negociação das dívidas também deve fazer parte desse processo.
"Também é importante procurar bancos, financeiras e demais credores para negociar condições de pagamento compatíveis com a realidade financeira do consumidor. Com planejamento, disciplina e acordos sustentáveis, é possível reorganizar as finanças e retomar o controle do orçamento", conclui Geovanni.
Mais do que resolver uma crise pontual, manter esse acompanhamento de forma constante pode ajudar a preservar a saúde financeira no longo prazo, recuperar o score de crédito e reduzir o risco de voltar à inadimplência.