Merece viajar e gastar agora? Especialista alerta para consumo de vingança

Cláudia Yoshinaga, coordenadora do FGVcef e especialista em finanças comportamentais, dá dicas sobre como resistir aos impulsos por gastos com a retomada da vida social
Claudia Yoshinaga, da FGVCef, defende que hábitos forçados de poupança na pandemia podem ser levados para o resto da vida | Foto: Leandro Fonseca/EXAME (Leandro Fonseca/Exame)
Claudia Yoshinaga, da FGVCef, defende que hábitos forçados de poupança na pandemia podem ser levados para o resto da vida | Foto: Leandro Fonseca/EXAME (Leandro Fonseca/Exame)
Por Marília AlmeidaPublicado em 26/12/2021 08:00 | Última atualização em 26/12/2021 08:16Tempo de Leitura: 6 min de leitura

Viagens, jantares em restaurantes e encontros com amigos em bares e festas voltaram a fazer parte da rotina de muitos brasileiros com o melhora da situação da pandemia, graças ao avanço da vacinação.

A demanda elevada por viagens de fim de ano no país, mesmo com os preços estratosféricos de passagens aéreas e pacotes terrestres, pode ser um sintoma clássico do chamado consumo de vingança.

O fenômeno comportamental costuma acontecer após grandes eventos que provocam restrições ao consumo, exatamente como aconteceu com a pandemia da covid-19. O ato de gastar é visto como uma forma de recompensa para a pessoa após as limitações vividas. Quem nunca pensou "Eu mereço" ao fazer uma compra?

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O problema é que, muitas vezes, o consumo menos racional traz uma conta que pesa no orçamento mais tarde, quando não acaba em dívidas com valores e juros mais altos do que a pessoa consegue arcar.

Mas é possível saber como resistir às tentações. E tudo com a ajuda das finanças comportamentais.

Cláudia Yoshinaga, coordenadora do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGVcef) e especialista em finanças comportamentais, orienta, em entrevista à EXAME Invest, sobre como as pessoas podem lidar com essas tentações consumistas e impedir que isso prejudique o orçamento:

O que é o consumo de consumo de vingança e por que ele acontece?

Um exemplo simples para entender o fenômeno é o da dieta. Sempre que as pessoas passam por alguma privação, que na dieta é corriqueiro, pode acontecer o efeito rebote, algo bastante perverso.

Seguindo esse exemplo, nesta época do ano alguém podem pensar: fiquei o ultimo mês sem comer açúcar e não estou bebendo. Agora, em uma semana entre o Natal e o Ano Novo não vai ter tanto problema assim. E o abuso acontece, incentivado pela ideia de que se está compensando a privação. Mas isso não anula o efeito do abuso.

Na pandemia as pessoas se privaram muito de viajar e gastar com entretenimento, como shows e festas. Agora, sentem que estão merecendo gastar com isso. E esse é um risco em potencial, independentemente da questão da necessidade. A sensação do "eu mereço" pode sair do controle e acabamos com menos autocontrole do que gostaríamos.

Muito se falou sobre o consumo de vingança na China. Ele também acontece em países como o Brasil? Ou tende a ser mais suave, ainda mais com a situação ainda difícil na economia?

Em países nos quais as restrições foram mais fortes, como a China, o fenômeno talvez seja mais veemente. Contudo, mesmo em países com restrições brandas, como foi o caso do Brasil, diversos eventos, como shows, festas e casamentos, foram suspensos, mesmo que não tenha havido lockdown. Na Inglaterra, por exemplo, os casamentos podiam continuar a acontecer, ainda que com alguma limitação de pessoas. Aqui, não.

Agora, com o avanço da vacinação, o mercado de eventos volta com força. Muitas pessoas estão levantando barreiras mentais de que a pandemia está controlada e aproveitando para encontrar pessoas e socializar. O mercado de festas está bem ativo e incentiva o aumento do consumo com roupas, presentes e serviços associados.

Quem guardou dinheiro de forma forçada na pandemia agora tem dinheiro a mais na conta. Por que seria necessário pisar no freio?

Todos precisamos ter um bom controle orçamentário. É necessário refletir sobre a poupança feita durante a pandemia. Esse dinheiro está sobrando mesmo agora? Dá para usar?

O consumidor pode não ter gasto com viagens no período, mas será que não acabou usando esse dinheiro em gastos que não foram previstos?

Gostamos de pensar em gavetas. Em nossa contabilidade mental a gaveta de viagens está cheia. Mas vale refletir se gastamos mais em outros potes. A gaveta das férias pode estar mais cheia, mas é bom checar se as outras não estão vazias demais.

Muitas pessoas tiveram aumento na conta de luz durante a pandemia não apenas por causa da crise hídrica, mas porque começaram a trabalhar de casa. Antes a energia elétrica do expediente de trabalho era paga pela empresa. Agora, passou a ser uma despesa do funcionário.

A inflação dos alimentos também foi bastante expressiva, assim como a alta da gasolina. Muitos brasileiros talvez não tenham sentido o peso da alta do combustível porque estavam se deslocando pouco. Agora, na volta ao escritório, esse gasto irá pesar mais no bolso e é necessário se preparar.

Alguém que deseje viajar agora enfrenta o problema de que as férias de verão são a época mais cara para isso. Soma-se a isso uma alta demanda reprimida e os preços estão explodindo. Além disso, muitos locais ficarão lotados, e não sabemos com certeza como a nova variante do vírus se comporta.

A recomendação que sempre damos para evitar um gasto impulsivo é respirar e se perguntar se precisa fazer a viagem agora ou dá para esperar mais um pouco por uma oferta de preços melhor.

É possível que parte das pessoas que foram forçadas a economizar na pandemia possa ter mudado o comportamento financeiro de forma perene?

Nós temos um histórico de que anos de eleições presidenciais, como será 2022, costumam ter reflexos tensos para o mercado financeiro. Há muita incerteza. Esse risco se soma à conjuntura atual: independentemente de quem ganhe, o novo presidente irá encontrar o país em uma situação bastante delicada em termos de crescimento do PIB.

Além disso, há preocupações em relação a gastos do governo e a inflação não está com cara de que irá entrar na meta tão rapidamente.

Por outro lado, nunca se discutiu tanto sobre a reserva de emergência como na pandemia. Essa foi uma dura lição boa que pode ter vindo desse período. Muitas pessoas passaram a reconhecer que precisam ter essa reserva de valor para conseguir sobreviver.

Outra lição foi a ideia de que ter uma reserva financeira que dure seis meses é suficiente. Não que seja fácil juntar dinheiro para esse período, mas foi demonstrado na pandemia que ainda assim pode não ser suficiente. Poupar dá tranquilidade. Não é fácil, mas é pior sem uma reserva financeira.

Portanto, se alguém conseguiu construir um hábito positivo de guardar dinheiro, pode mantê-lo. Se quebrou essa barreira, é interessante continuar, especialmente em 2022. É como um exercício: o recondicionamento pode ser difícil, mas vale a pena.

O comportamento compensatório, de que merecemos algo, é como aquela promessa de final de ano. Quantas vezes fazemos a promessa e não conseguimos cumprir. Essa é uma evidência forte de como é difícil se controlar e ser comprometido como nós gostaríamos.

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