Fórum de Bem-Estar Financeiro: Michael Norton, professor de Harvard (Colab.corporativo/Divulgação)
Repórter de finanças
Publicado em 21 de maio de 2026 às 05h00.
Dinheiro não traz felicidade, já dizia o ditado. Mas, e quando gasto com o outro? Michael Norton, professor de Harvard em suas pesquisas achou a resposta. Segundo ele, gastar dinheiro com outras pessoas gera mais felicidade do que usar os recursos apenas para si mesmo.
Em palestra no Fórum de Bem-Estar Financeiro do Sicredi, ele apresentou seus resultado que mostram que o consumo material tem impacto limitado sobre a satisfação pessoal, enquanto experiências e atos de generosidade tendem a produzir efeitos mais duradouros.
“Comprar coisas materiais simplesmente não nos deixa mais felizes. Não é ruim, só não faz muito por nós. Gastar com os outros, na verdade, se traduz em mais felicidade”, disse. Mas ele faz ressalvas: “A boa notícia é que ter dinheiro também não vai deixar as pessoas infelizes.”
A relação entre dinheiro e felicidade costuma ser mal compreendida, em sua visão. Casas, carros e outros bens de alto valor podem trazer entusiasmo momentâneo, mas rapidamente passam a fazer parte da rotina.
“Você compra uma casa ótima, ama por uma semana, e aí o telhado vaza e você precisa lidar com isso. Você compra um carro ótimo, quer dirigir por aí, e há trânsito para onde quer que vá”, afirmou. “As coisas simplesmente não mudam tanto assim a nossa felicidade.”
Fizeram experimentos. Participantes recebiam dinheiro e instruções diferentes: metade deveria gastar consigo mesma; a outra metade, com presentes ou doações para terceiros. No fim do dia, os pesquisadores mediam os níveis de felicidade dos participantes.
“As pessoas que gastaram com outra pessoa estavam mais felizes no final do dia”, afirmou. De acordo com ele, mesmo pequenas ações — como comprar um café para outra pessoa — geravam resultados positivos.
“Tomar mais um café não muda muita coisa no seu dia. Mas dar um café para alguém aumenta a felicidade de quem dá”, destacou.
O pesquisador destacou que experiências tendem a trazer mais satisfação do que objetos porque começam a gerar felicidade antes mesmo de acontecerem. Em um exemplo, ele comparou a expectativa por uma viagem de US$ 5 mil com a compra de uma televisão no mesmo valor.
“A emoção número um que as pessoas sentem em relação a uma TV pela qual estão esperando é frustração. Já quando uma experiência está chegando, a emoção é pura antecipação, excitação”, explicou.Norton citou pesquisas que acompanharam pessoas antes, durante e depois das férias. O resultado mostrou que o dia em que os participantes se sentiam mais felizes era justamente o anterior à viagem. “Você está sentado no escritório, mas na sua mente já está na praia”, afirmou.
Além disso, ele disse que experiências costumam ser compartilhadas com outras pessoas, fortalecendo conexões sociais. Segundo o professor, enquanto objetos materiais se desgastam com o tempo — ou perdem valor quando comparados aos dos outros —, as lembranças tendem a melhorar na memória.
“Quanto mais nos afastamos da experiência, mais positiva ela se torna”, apontou.
Ele citou ainda estudos sobre luas de mel. Logo após a viagem, muitos casais descreviam a experiência como apenas “boa”. Anos depois, porém, a mesma viagem era lembrada como “a experiência mais romântica da vida, com um pôr do sol lindo e golfinhos nadando”.
Norton também apresentou pesquisas sobre comportamento financeiro. Em um experimento, pessoas receberam estímulos diferentes para poupar dinheiro: um grupo era incentivado a economizar para experiências, como viagens; o outro, para comprar bens materiais, como TVs ou relógios.
Os resultados mostraram que as pessoas abriam contas de poupança com mais frequência quando o objetivo era experiencial. “As pessoas têm mais probabilidade de economizar quando a conta é voltada para uma experiência do que quando é para um objeto”, afirmou.
O professor pontuou ainda que quem poupava para experiências também resistia mais à tentação de retirar o dinheiro antes da hora. “Elas têm menos probabilidade de sacar o dinheiro de uma poupança para experiências do que de uma conta voltada para bens materiais”, disse.
Outro ponto abordado foi o impacto psicológico das dívidas. Norton afirmou que o endividamento interfere diretamente no bem-estar porque permanece constantemente na mente das pessoas.
“A dívida é um peso muito negativo na nossa felicidade, porque quando estamos endividados ficamos pensando nisso, e isso interfere nas nossas vidas”, comentou.
Para tentar tornar o pagamento menos angustiante, pesquisadores desenvolveram ferramentas que permitem que consumidores paguem dívidas “por compras”, visualizando itens específicos sendo quitados individualmente.
Segundo ele, a percepção de progresso faz diferença.
“Quando as pessoas conseguem separar os pagamentos, sentem que estão avançando. E acabam pagando mais da dívida, mais rapidamente”, explicou.Para Norton, o desafio agora é usar esses conhecimentos da psicologia para desenhar produtos financeiros e ferramentas que ajudem as pessoas a tomar decisões melhores.
“Estamos sempre tentando encontrar o ponto em que o comportamento beneficia você psicologicamente e também beneficia suas finanças”, concluiu.