Ford Ka: modelo teve a maior queda de preço entre os destaques do índice. (Reprodução)
Repórter de Invest
Publicado em 4 de setembro de 2026 às 09h33.
O mercado de carros usados perdeu força em agosto, em um movimento que começa a aparecer nos preços depois de um período de alta. O IBV Auto, índice do banco BV que acompanha os valores de automóveis leves usados no Brasil, caiu 0,01% no mês, registrando a menor variação mensal desde 2024.
O resultado vem depois de uma alta de apenas 0,07% em julho e reforça a perda de ritmo dos preços dos veículos usados. É a menor variação mensal do indicador desde abril de 2024.
No acumulado de 2026, os preços ainda sobem, mas em ritmo um pouco menor que no ano passado. Em 12 meses, a desaceleração é mais evidente, a alta passou de 6,10% para 5,12%.
A desaceleração também é influenciada pelo chamado efeito-base, pois, a partir de setembro de 2025, o índice passou a registrar variações mensais mais fortes. Se os preços continuarem próximos da estabilidade, o acumulado em 12 meses tende a perder força novamente.
O comportamento dos preços ocorre em um ambiente de juros altos, maior comprometimento da renda das famílias e aumento do endividamento, além de uma demanda menos aquecida. O economista-chefe do banco BV, Roberto Padovani, vê que a perda de ritmo combina fatores macroeconômicos e específicos do setor automotivo.
"A ligeira queda de agosto, após o avanço modesto de julho, confirma a perda de ritmo dos preços dos carros usados. A desaceleração da atividade, a Selic em patamar restritivo e a forte concorrência no mercado de veículos novos ajudam a explicar esse movimento, ainda que com alguma defasagem", disse.
Entre os modelos que mais contribuíram para a queda do índice em agosto estão o Ford Ka (-2,27%), o Fiat Mobi (-2,06%) e o VW T-Cross (-1,66%). Na direção contrária, os maiores avanços foram registrados pelo Fiat Uno (+1,68%), VW Fox (+1,39%) e Toyota Corolla (+0,51%).
A estabilidade nacional esconde comportamentos diferentes entre as regiões, com o Sul registrando a maior queda em agosto, de 0,44%, depois de ter avançado 0,22% em julho. O Sudeste também teve retração de 0,11%. Já o Centro-Oeste apresentou a maior alta, de 0,81%.
No Nordeste, os preços subiram 0,62%, enquanto a alta foi de 0,03% no Norte. Ao todo, 19 dos 27 estados tiveram alta em agosto, enquanto oito registraram queda. As retrações em estados com maior peso na composição do índice, porém, foram suficientes para deixar o resultado nacional quase estável.
No acumulado de 12 meses, Rio de Janeiro (+6,28%), Sergipe (+6,18%) e Mato Grosso (+6,15%) lideram as altas. Na outra ponta, Santa Catarina (+3,20%) e São Paulo (+3,33%) tiveram os menores avanços.
A diferença entre os extremos é de cerca de três pontos percentuais. De acordo com o BV, São Paulo tem peso relevante na composição do indicador, o que ajuda a explicar por que a percepção de queda nos preços de usados pode ser maior no estado do que em outras partes do país.
O vice-presidente de Varejo do banco BV, Jamil Ganan, explicou que a desaceleração deve se espalhar gradualmente pelo mercado nacional e já mostra o enfraquecimento do ciclo de alta iniciado no fim de 2025.
"Essa mudança acompanha, ainda que com algum atraso, a forte concorrência entre os veículos novos e a chegada de novas marcas e modelos no mercado nacional", pontuou Ganan.
Enquanto os preços dos usados como um todo mostram estabilidade, os carros elétricos continuam registrando as maiores perdas de valor de revenda. Entre os veículos ano 2023, a desvalorização acumulada até agosto chega a 46,15% nos elétricos.
O percentual é de 26,36% para os híbridos e de 21,72% para veículos a combustão comparáveis. Só que o próprio BV faz uma ressalva sobre essa comparação, porque a amostra de elétricos de 2023 ainda tem participação pequena de modelos chineses lançados mais recentemente no Brasil.
O resultado não deve ser tomado como um retrato do comportamento atual dessa nova geração de elétricos no mercado de usados.
O IBV Auto é calculado a partir da base de dados do banco BV e busca acompanhar a evolução dos preços de automóveis leves usados no país com base em transações reais, permitindo acompanhar os preços por região e tipo de motorização.
O peso de cada veículo no índice considera o valor total das negociações, resultado da multiplicação entre volume e preço. Assim, modelos mais caros e mais comercializados têm maior participação na composição do indicador, cuja série histórica iniciou em 2019.