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Em negação, brasileiro se diz planejado, mas não tem reserva e contrai dívidas

Estudo inédito da Planejar mostrou como a população A, B e C acima de 18 anos lida com dinheiro

Planejar: índice que mede o planejamento da população brasileira ficou em 52,7, numa escala de 0 a 100 (Imagem gerada com IA)

Planejar: índice que mede o planejamento da população brasileira ficou em 52,7, numa escala de 0 a 100 (Imagem gerada com IA)

Rebecca Crepaldi
Rebecca Crepaldi

Repórter de finanças

Publicado em 10 de setembro de 2026 às 11h54.

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Planejamento financeiro é fundamental para ter uma boa qualidade de vida e uma pesquisa da Planejar mostrou que o brasileiro se considera planejado. Em uma escala de 0 a 100, o resultado do índice de “gestão orçamentária” ficou em 70,1. Mas isso não significa que ele está livre de dívidas ou com reserva de emergência – pelo contrário. Quando observado o índice de endividamento, ele ficou em 47,8 (nível considerado alto).

“Gestão orçamentária é quando eu sei o quanto eu ganho, sei o quanto eu gasto, mas isso pode não ser o suficiente. Então a pessoa pode deixar de pagar alguma conta, atrasar algum boleto ou ter que se alavancar por meio de financiamento ou empréstim”, diz Ana Leoni, CEO da Planejar.

Os resultados ainda mostram uma diferença importante entre administrar as finanças no presente e se preparar para situações futuras. “Planejamento de longo prazo” e “reservas e resiliência” representam o principal ponto de atenção, registrando 43,3 e 39,3 pontos, respectivamente. “Proteção contra choques ainda é limitada. O planejamento do futuro permanece frágil”, afirma Hilton Notini, gestor de Riscos e consultor da Planejar.

Índice da Planejar sobre planejamento financeiro 2

Índice da Planejar sobre planejamento financeiro 2 (Planejar/Reprodução)

O estudo investigou a posse de produtos de investimento e o resultado contrasta entre si. Ao mesmo tempo que as pessoas dizem ter algum tipo de poupança e investimento (75,7), existe um “fôlego sem renda” (21,3).

“As pessoas podem ter o produto de investimento, mas não necessariamente esse produto está se traduzindo em fôlego ou em uma reserva que sirva pra momentos de emergência. Se você pergunta para a pessoa ‘você tem uma poupança?’, às vezes, ela diz que tem R$ 500. Isso é suficiente pra se sustentar durante três meses sem trabalho? Possivelmente não”, comenta Leoni.

Na pontuação geral, o índice da Planejar, que mede o planejamento financeiro dos brasileiros das classes A, B e C acima de 18 anos com acesso à internet, ficou em 52,7. “Eu entendo que esse número ainda não seja muito bom, está na metade da régua, ainda existe muito espaço para preencher em termos de planejamento financeiro”, comenta Notini.

Diferenças entre gerações

Os resultados mostram que o planejamento financeiro assume características diferentes conforme a etapa da vida. Entre os entrevistados, a faixa de 25 a 44 anos aparece como a mais desafiadora, enquanto o grupo de 61 anos ou mais apresenta o melhor resultado. Para os especialistas, isso está relacionado às diferentes responsabilidades e necessidades que surgem ao longo da vida.

Na faixa de 25 a 44 anos, o planejamento precisa conciliar uma série de demandas simultâneas. É um período em que podem se acumular despesas relacionadas à formação de família, financiamentos e outros projetos de vida, ao mesmo tempo em que ainda está em construção o patrimônio capaz de dar maior segurança financeira.

“Dos 25 aos 65 anos, que é a idade que se chega à aposentadoria, ao menos aí pegando algumas regras, a gente está falando de 40 anos de uma produção de renda possível ou a nossa maior capacidade de produção de renda”, afirma Leoni.

É justamente nessa fase que, segundo ela, é preciso produzir renda para as despesas do presente, realizar projetos e, ao mesmo tempo, formar uma reserva para o período em que a renda do trabalho deixar de existir.

Para os mais jovens, de 18 a 24 anos, a preocupação está mais relacionada à construção dessa proteção ao longo do tempo. O índice de planejamento de longo prazo nessa faixa é de 42,3, segundo os dados apresentados. Nesse caso, os especialistas destacam que o primeiro passo é criar o hábito de poupar e formar uma reserva, antes de avançar para decisões mais sofisticadas de investimento.

“Para esse jovem, o que mais temos que debater quando a gente está falando com eles é: olha, você tem que ter uma reserva, você tem que ser resiliente, porque isso precisa ser feito ao longo de toda a vida”, destaca a CEO.

Já na faixa de 61 anos ou mais, o índice de planejamento de longo prazo chega a 50,8. Segundo os especialistas, o resultado também precisa ser interpretado à luz da etapa da vida em que esse grupo se encontra: parte do planejamento realizado durante os anos anteriores já se transformou em patrimônio, e a preocupação passa a ser também como administrar os recursos acumulados.

“Essa pessoa de 61 anos ou mais já está vivendo uma fase da vida dela em que o planejamento feito em outras etapas da vida já surtiu um resultado”, afirma.

A aposentadoria, porém, continua sendo um ponto de fragilidade no planejamento financeiro. A previdência privada aparece entre os itens com as menores notas do levantamento, com índice de 15,3. Para os especialistas, o desafio não está apenas em acumular dinheiro para o futuro, mas também em definir como os recursos serão utilizados quando a renda do trabalho diminuir ou deixar de existir.

É o que os planejadores chamam de fase de desacumulação. “A fase da ausência de renda precisa ser tão estratégica quanto a anterior”, afirma uma das entrevistadas. Com o aumento da longevidade, a preocupação passa a ser fazer com que o patrimônio acumulado seja suficiente para sustentar o indivíduo durante um período cada vez mais longo.

“O uso do dinheiro precisa ser muito responsável, muito planejado, porque corre o risco das pessoas viverem mais e a renda acabar”, diz.

O índice

O índice foi criado para medir de forma mais ampla como o brasileiro lida com o planejamento financeiro, sem restringi-lo apenas à relação entre renda, despesas e investimentos. A proposta é acompanhar diferentes aspectos da vida financeira e oferecer uma referência sobre quais pontos precisam de mais atenção. Segundo a Notini, a ideia é que o indicador funcione como uma “bússola”, capaz de mostrar onde devem ser concentrados os esforços de instituições financeiras, planejadores e também dos próprios consumidores.

Para chegar ao resultado, o índice reúne cinco dimensões: gestão orçamentária, endividamento, reservas e resiliência, proteção e seguros e planejamento de longo prazo. Cada uma delas é formada por um conjunto de perguntas que procuram captar, principalmente, comportamentos e ações efetivamente realizados pelas pessoas, e não apenas percepções sobre a própria situação financeira.

A metodologia partiu de uma pesquisa nacional realizada em parceria com o Datafolha. De um conjunto mais amplo de perguntas, foram selecionadas 20 questões para compor o índice. As respostas foram convertidas para uma escala de 0 a 100 e receberam pesos diferentes de acordo com sua capacidade de representar ações concretas. Também foram feitos ajustes para evitar que perguntas que medissem aspectos semelhantes acabassem contando duas vezes no resultado final.

Outro ponto é que as cinco dimensões não têm o mesmo peso durante toda a vida. O índice considera quatro grupos etários — de 18 a 24 anos, 25 a 44, 45 a 60 e 61 anos ou mais — e ajusta a importância de cada dimensão conforme a fase financeira. No início da vida, por exemplo, orçamento e endividamento ganham mais peso, enquanto proteção, seguros e planejamento de longo prazo passam a ter maior relevância conforme o patrimônio e as responsabilidades aumentam.

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