Empresas buscam ferramentas digitais para melhorar a cobrança de quem está devendo (Montagem IA)
Repórter
Publicado em 2 de abril de 2026 às 05h15.
O número de brasileiros com dívidas em atraso atingiu um novo recorde em janeiro de 2026, segundo dados da Serasa. Ao todo, são 81,3 milhões de pessoas nessa condição, o maior volume da série histórica, após 13 meses consecutivos de crescimento.
Entre as faixas etárias, o destaque está no grupo de 41 a 60 anos, que concentra 35,6% do total, seguido por consumidores de 26 a 40 anos (33,4%), acima de 60 anos (19,9%) e jovens entre 18 e 25 anos (11,1%).
Comparado com fevereiro de 2016, esse montante cresceu 38%, saltando de 59 milhões naquele ano.
O reflexo de tudo isso é no comprometimento da renda. O estudo aponta que o brasileiro tem, em média, 70,5% da sua renda comprometida com contas básicas, como água, luz e telecomunicação, e dívidas a pagar, como fatura de cartão de crédito. O restante, de forma subjetiva, deve ser utilizado para alimentação.
Esse avanço aumenta a pressão sobre o setor de recuperação de crédito e um dos principais entraves está na dificuldade em falar com o devedor. Em muitos casos, o problema vai além da abordagem adotada e está na qualidade das informações cadastrais, já que telefones desatualizados, inativos ou que não pertencem mais ao titular reduzem o alcance das ações, comprometem os resultados e elevam os custos.
Nesse ambiente, ganha espaço uma abordagem mais orientada à qualificação dos dados e à assertividade das interações. A lógica passa a priorizar a identificação dos perfis antes da ampliação das tentativas de comunicação, direcionando esforços com maior potencial de resposta.
Iniciativas de validação de dados vêm sendo incorporadas às estratégias de cobrança digital. O foco passa a estar na confiabilidade das informações e na precisão da comunicação como forma de aumentar a eficiência. A Ótima Digital, por exemplo, é especialista em analisar a qualidade dos dados utilizados ao longo dessa jornada de "caça aos caloteiros".
O trabalho consiste em "validar" os destinatários, num conceito que é conhecido como contato com a pessoa certa. Para isso, são combinadas diferentes fontes de dados, que permitem verificar a vinculação do telefone ao CPF, identificar a disponibilidade em canais de relacionamento e checar registros em órgãos como a Anatel, o que permite direcionar melhor os contatos antes do acionamento da cobrança.
“A performance da comunicação hoje está diretamente ligada às informações utilizadas. Sem esse cuidado, os esforços tendem a se dispersar e perder efetividade. A leitura do perfil de cada caso e a construção conjunta de estratégias direcionadas têm ganhado espaço em relação a abordagens centradas em volume”, afirma Dyego Joia, gerente de contas da Ótima Digital.
Um exemplo da aplicação dessa lógica pode ser observado na Kollecta.io, empresa especializada em recuperação de crédito e que atua exclusivamente com canais digitais. Ao analisar a estrutura dessa jornada da cobrança, foi identificado que o principal desafio não estava no volume das tentativas, mas nas condições das informações utilizadas. Antes da revisão do modelo adotado, apenas 55% dos números disponíveis estavam corretos, o que limitava o desempenho das iniciativas.
Com base na avaliação realizada, a empresa passou a priorizar a qualificação das informações e a concentração dos esforços em perfis que poderiam ter uma resposta positiva. “O principal ganho foi conseguir falar com quem realmente pode negociar. Isso aumentou a taxa de resposta e trouxe mais eficiência, com foco em contatos com maior potencial de conversão”, afirma Gabriel Anelli, fundador da Kollecta.io.
Após a mudança de abordagem, os envios passaram a ser direcionados com maior precisão. O impacto foi direto: a taxa de resposta saiu de cerca de 15% para aproximadamente 60%, quadruplicando o nível de interação com os clientes. O avanço também se refletiu nos acordos fechados, enquanto as respostas passaram a ocorrer, em grande parte, nos primeiros minutos após o primeiro contato.