A trajetória de Gilvan Bueno e como o mercado financeiro mudou sua vida

Até os 27 anos, ele trabalhava como garçom; depois de trabalhar em grandes bancos como Itaú e Pactual, hoje ele promove a inclusão de jovens de comunidades em players do mercado
Gilvan Bueno: "a diversidade é benéfica para todo mundo. Inclusão não é pegar alguém da Paraisópolis e colocar no JP Morgan." (Divulgação/Divulgação)
Gilvan Bueno: "a diversidade é benéfica para todo mundo. Inclusão não é pegar alguém da Paraisópolis e colocar no JP Morgan." (Divulgação/Divulgação)
Karla Mamona
Karla Mamona

Publicado em 27/03/2022 às 08:30.

Última atualização em 27/03/2022 às 16:56.

O soteropolitano Gilvan Bueno, 40 anos, executivo do mercado financeiro, tem uma história de vida digna de um filme.

Aos 11 anos, após a morte da mãe, ele foi morar com a avó. Aos 15 anos, saiu de casa para buscar novas oportunidades. O destino escolhido foi a cidade do Rio de Janeiro e o objetivo era entrar no Colégio Naval e tentar a carreira na Marinha.

“Mas não passei, era ruim demais em trigonometria para passar.” Frustrado e morando de favor na cidade fluminense, ele tentou outras carreiras, como a de jogador de futebol. Mas foi como enxadrista federado que ele conseguiu se sustentar durante aquele período. “O xadrez me moldou. Fiz amigos. Os torneios foram meu pai e minha mãe. Eu poderia ter ido por outro caminho não fosse o esporte. Um caminho trágico.”

Aos 20 anos, Bueno começou a trabalhar como garçom. Profissão que foi seu sustento por sete anos. “Trabalhando em dois lugares, consegui pagar meu primeiro aluguel em uma casa simples dentro de uma comunidade.”

Confira uma seleção exclusiva de empresas sustentáveis para investir e tenha acesso gratuito a relatórios do tema

A vontade trabalhar no mercado financeiro surgiu aos 25 anos, quando ele assistiu um filme que teve um grande impacto na sua vida. Era a história de Chris Gardner, interpretado pelo ator Will Smith no filme "À Procura da Felicidade".

“Aquele filme mexeu comigo. A história do Cris Garden como homem negro me emociona até hoje. Trabalhando em uma pizzaria no bairro da Tijuca, na zona norte do Rio de Janeiro, Bueno contava aos clientes que atendia que queria trabalhar com finanças. “Eu era bom de conversa. Falava sobre livros que eu tinha lido ou que queria ler, mostrava habilidade com cálculos. Alguns achavam que era maluco, mas outros me incentivavam.”

Início no mercado financeiro

Foi em uma dessas conversas que um cliente indicou que Bueno fizesse uma entrevista para trabalhar em uma corretora. “Cheguei uma hora e meia atrasado e com a camisa toda amarrotada. Fiz a entrevista depois de um dia de trabalho. Cheguei atrasado, mas consegui a vaga na Geração Futuro.” Nessa época, ele era bolsista na Faculdade Estácio de Sá. Ele trabalhou durante um ano e meio na corretora.

Bueno lembra que, depois da crise financeira de 2008, ninguém queria trabalhar no mercado financeiro por medo. Mas não foi o caso dele. “A oportunidade está no risco”, afirmou em entrevista à EXAME Invest.

O primeiro salário de Bueno no mercado era de cerca de R$ 1.800. Foi com esse dinheiro que ele teve a chance de sair da comunidade em que morava. Para morar no Cachambi, bairro também da zona norte do Rio de Janeiro, ele tinha um custo de cerca de 1.500 reais por mês. Ou seja, esse valor consumia quase todo o salário.

“Sair da comunidade foi um desafio. Foi duro. Uma época difícil da minha vida.” Para reduzir os gastos, ele ficava sem almoçar. “Muitas vezes, escondi as minhas dificuldades dos meus colegas e gestores.”

Gilvan Bueno também trabalhou no Itaú, que, na época, tinha acabado de comprar o Unibanco. Ele tinha terminado a faculdade, tirado algumas certificações e entrado na área de consultoria de investimentos.

“O Itaú precisava de muita gente naquela época." Meses depois, ele chamado para fazer uma entrevista no Pactual. “Aos 30 anos, sem falar nenhum outro idioma, eu fiz sete entrevistas e entrei. Algo que era algo impensável para mim. Eu não tinha o melhor currículo, não tinha estudado nas melhores escolas do país, não passava férias na Europa, mas eu era obsessivo em algumas questões”, relembrou.

Para Bueno, trabalhar no mercado financeiro era mais do que contar com um bom emprego: era a oportunidade de alcançar ascensão social. “A mobilidade social no Brasil demora, em média, nove gerações. Eu fiz a minha em 13 anos usando o mercado de capitais.” Querendo dar novos passos em sua carreira, Gilvan Bueno trabalhou como agente autônomo em um escritório da XP. A dedicação e o desempenho fizeram com que ele se tornasse sócio.

Mas a trajetória não foi só de vitórias pelo caminho. Um dos momentos difíceis foi não ter conseguido um cargo almejado por não falar inglês de forma fluente. “Era uma falha na minha carreira depois de anos trabalhando no mercado. Não conseguir aquele cargo foi uma derrota dura.”

Depois de três anos juntando dinheiro, ele foi para Nova York estudar inglês. “Eu prometi para mim mesmo que nunca mais perderia uma oportunidade por causa do inglês. Conheci profissionais incríveis do Merrill Lynch e do BofA [Bank of America]. Voltei com uma vontade de empreender. De ensinar outros jovens.”

Empreendedorismo e educação

Em 2020, Bueno montou um projeto em parceria com a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) para capacitar jovens do Pelourinho, em Salvador (Bahia), e ajudá-los a obter as certificações da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Em um grupo de 90 jovens, a maioria negros, e 70% foram aprovados.

O projeto fez crescer ainda mais a vontade de ajudar jovens da periferia a ingressar no mercado financeiro. Ao voltar para o Rio de Janeiro, ele decidiu abrir uma empresa de educação financeira, a Financier Educação.

"Eu abri uma loja de rua de educação financeira, para quem está à margem do mercado. Queria capacitá-los e formar profissionais para o mercado. Quinze dias depois, a pandemia começou no país. No Brasil, empreender é difícil. Empreender no terceiro setor é ainda mais", contou.

A empresa tem se destacado em iniciativas que ajudam a promover a diversidade e a inclusão social, a tal ponto que foi uma das escolhida para receber o selo Black Founders Fund do Google for Startups. “Tenho alunos que entraram em programas de jovem aprendiz, por exemplo. Com o salário de R$ 2.000 por mês, sustentam toda a família.”

Após abrir a empresa, ele recebeu um convite para trabalhar na Órama Investimentos, como gerente educacional. Gilvan Bueno faz a ponte entre jovens que querem trabalhar no mercado com empresas que querem contratar.

“Eu crio programas baseados em programas de sucessos de fora do país, ensino e capacito esses jovens da periferia e indico para corretoras, bancos e assets. Tem muita gente boa.”

Bueno afirma que esse processo é vantajoso para todos os envolvidos. "A diversidade é benéfica para todo mundo. Inclusão não é pegar alguém da Paraisópolis e colocar no JPMorgan. Tem que haver uma preparação e um acompanhamento.  As empresas precisam de comitê de diversidade.”

Sonhos realizados

Em 2019, Bueno teve a oportunidade de conhecer seu ídolo, Chris Gardner, em um evento realizado em São Paulo. Ele contou que apertou a mão do investidor e empresário americano, que inspirou o filme de Hollywood, e caiu em prantos de emoção. "Disse que ele era meu herói e depois comecei a chorar. Foi muita emoção." A próxima meta de Bueno é conhecer Barack Obama, ex-presidente americano. Alguém duvida que não será possível?

Chris Gardner e Gilvan Bueno

(Gilvan Bueno/arquivo pessoal/Divulgação)