IA: compras agênticas estão mais perto de serem reais (IA/ChatGPT/Exame)
Repórter de finanças
Publicado em 7 de julho de 2026 às 13h29.
O processo de compra envolve muitas etapas: pesquisar, comparar preços, escolher, pagar. Tudo isso ocorre de forma manual, mas isso pode estar próximo do fim. Começar e finalizar uma compra do zero com a inteligência artificial deve ser possível em breve. Neste ano, houve a primeira transação de comércio eletrônico por um agente de IA no país com o Banco do Brasil (BB) e a Visa.
“A IA agêntica é diferente daquele chatbot que só responde pergunta. Ela executa tarefas de verdade. Você fala ‘preciso de um tênis de corrida até R$ 400’ e ela pesquisa, compara, escolhe e pode até pagar. É basicamente um assistente pessoal de compras”, explica Guilherme Casagrande, educador financeiro da Creditas.
De um lado, os agentes de compra podem evitar cair em armadilhas. Ela não se encanta com vitrine, não cai naquele gatilho de "últimas unidades", compara preço friamente. “Mas tem um adendo: todo aquele esforço de comprar, pesquisar, entrar no site, digitar o cartão, sempre funcionou como um freio natural”, destaca o especialista.
Segundo ele, quando você tira o esforço, tira também o tempo que a pessoa tinha pra se perguntar "eu preciso mesmo disso?". Comprar vira algo tão fácil quanto mandar uma mensagem. “E facilidade demais, pra quem não tem clareza financeira, é gasolina no impulso.”
No sentido racional, ela pode evitar marcas mais caras sem ganho real em termos de qualidade e reduzir o custo e tempo de busca. “Isso pode ser ótimo para compras recorrentes e objetivas, como supermercado, remédios, passagens ou produtos padronizados”, diz Claudia Yoshinaga, coordenadora do Centro de Estudos em Finanças da FGV.
Há um porém importante: o momento do pagamento. Segundos os especialistas, ele muitas vezes é visto como um ponto de reflexão. Ou seja, quando a pessoa sente no bolso que aquele dinheiro está saindo para adquirir um bem. Aquilo gera uma sentimento de que talvez o consumidor não precisa daquilo e está agindo por impulso.
“A gente já viu esse filme antes. Quando o dinheiro deixou de ser papel e virou cartão, e depois Pix, a ‘dor de pagar’ diminuiu. E os estudos de economia comportamental mostram que quanto menos a gente sente o pagamento, mais gasta”, explica Casagrande.
Para ele, a IA agêntica é o próximo capítulo dessa história: você nem vê mais o momento de pagar. Acontece em segundo plano. “Se a pessoa não tem o hábito de acompanhar o próprio orçamento, ela chega no fim do mês sem a menor noção de pra onde o dinheiro foi. Afinal, na prática ela não participou de nenhuma compra.”
Isso porque o consumo não é apenas uma decisão racional de preço e qualidade. Ele envolve impulso, estado de humor, recompensa, conveniência, status e vieses. Yoshinaga concorda: a literatura de Finanças Comportamentais mostra que formas de pagamento menos “dolorosas” ou menos visíveis tendem a alterar a disposição a gastar.
“Estudos clássicos sobre cartão de crédito já indicavam maior disposição a pagar quando o pagamento é feito por cartão, e pesquisas mais recentes sobre pagamentos cashless reforçam que a redução da fricção pode elevar gastos em alguns contextos”, comenta a especialista.
Em sua visão, quando uma IA automatiza busca, escolha, checkout e pagamento, essa percepção pode ficar diluída. A pessoa pode ver apenas o produto chegando, a assinatura renovada ou a compra concluída, mas não necessariamente vivenciar o custo no momento da decisão, de “sentir o dinheiro saindo da conta”.
“Isso é especialmente relevante no cartão de crédito, em compras parceladas, em assinaturas e em compras pequenas e frequentes, nas quais o gasto isolado parece inofensivo, mas o conjunto pesa no orçamento”, complementa.
Yoshinaga aponta que o acesso da IA ao histórico de compras e ao cartão pode ter dois efeitos opostos. Bem desenhada, ela pode identificar padrões ruins (por exemplo, excesso de delivery, assinaturas esquecidas, compras repetidas por impulso) e alertar o usuário.
“Mal desenhada, ela pode reforçar hábitos existentes, porque algoritmos aprendem a partir do comportamento passado. Se a pessoa já compra muito determinada categoria, a IA pode interpretar isso como preferência legítima e continuar oferecendo ou realizando compras semelhantes. O risco é transformar comportamento passado em padrão automático futuro.”
Casagrande concorda: se o seu passado inclui os seus maus hábitos, como comprar por impulso de madrugada ou pedir delivery quatro vezes por semana, o assistente pode entender isso como preferência, não como problema.
“Ele vai otimizar o seu padrão de consumo, não questionar. É o mesmo mecanismo das redes sociais: o algoritmo te entrega mais daquilo que você já consome. A diferença é que aqui não é tempo de tela, é dinheiro saindo da conta. Sem uma dose de consciência do próprio usuário, isso vira um ciclo que se retroalimenta.”
O consumidor deve guiar a IA e não o contrário. Para isso, alguns limites precisam existir para que o consumidor não perca o controle da situação. Uma ideia, segundo os especialistas, é ter um limite de gasto por categoria e período e confirmação obrigatória para compras acima de determinado valor, para itens não recorrentes ou fora do padrão usual.
“A IA deveria criar uma fricção boa. Em vez de só facilitar, ela poderia perguntar ‘essa compra cabe no seu planejamento do mês?’ ou ‘você comprou algo parecido há 15 dias, quer mesmo seguir?’. Assistente financeiro de verdade não é o que compra mais rápido, é o que às vezes te ajuda a não comprar”, pontua Casagrande.
Outras dicas, de acordo com Yoshinaga, são:
A inteligência artificial pode ser uma ferramenta de apoio, mas não substitui a educação financeira. Segundo Casagrande, a tecnologia deve atuar como uma assistente nas decisões, e não assumir o controle. Na avaliação do especialista, quem não conhece o próprio orçamento corre o risco de delegar escolhas sem compreender suas consequências, terceirizando a responsabilidade sobre as próprias finanças.
“Eu diria que a IA compradora é uma ferramenta ambivalente. Ela pode ser uma ‘personal shopper’ racional, que economiza tempo e dinheiro. Mas também pode virar uma máquina de conveniência que normaliza gastar mais, com menos consciência. A diferença estará menos na tecnologia em si e mais nas regras, nos incentivos e nas proteções colocadas ao redor dela”, conclui Yoshinaga.