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Xô, projeto verão: tudo sobre a Liti, startup de emagrecimento sem dieta que captou R$ 21 mi em 2022

Com proposta de valor inovadora, empresa quer ter 100 milhões de clientes nos próximos anos

Emagrecer não é um objetivo necessariamente novo — as revistas femininas na era pré-internet já traziam os famosos ‘antes e depois’ com receitas milagrosas para perder peso — mas a forma como a startup o propõe chama a atenção (Getty Images/Getty Images)

Emagrecer não é um objetivo necessariamente novo — as revistas femininas na era pré-internet já traziam os famosos ‘antes e depois’ com receitas milagrosas para perder peso — mas a forma como a startup o propõe chama a atenção (Getty Images/Getty Images)

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Karina Souza

Publicado em 24 de dezembro de 2022 às 13h21.

Escrever metas para o ano-novo é uma tradição comum nesta época do ano. A dez dias da chegada de 2023, há quem pense em dinheiro, em amor, em saúde — e mais especificamente, em emagrecer. Uma busca rápida pelo Google Trends pelo termo “dieta” traz como resultado a ascensão repentina de termos como ‘a dieta do tipo sanguíneo’ e ‘dieta para perder sete quilos em sete dias’. Na contramão desse comportamento, de “projeto verão”, e de olho em oferecer resultados saudáveis e duradouros para quem busca perder peso, surgiu a healthtech Liti. Fundada por Eduardo Rauen, médico nutrólogo e do esporte, e por Fernando Vilela (ex-CMO da Rappi) há menos de um ano, a startup captou, há cerca de dois meses, R$ 21 milhões para expandir as atividades no Brasil. 

É um misto de oportunidade com bom negócio. Olhando para o cenário macro, o custo de capital mais caro ao longo do ano favoreceu o early stage — até junho, 93% de todos os aportes no Brasil foram direcionados a empresas menores — e minguou aportes para empresas maiores (unicórnios, por exemplo), numa redução que chega a 75% no volume de aportes no terceiro trimestre deste ano em comparação ao do mesmo período de 2021.

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Em meio a essa conjuntura, a Liti foi favorecida por sua proposta de valor inovadora. Emagrecer não é um objetivo necessariamente novo — as revistas femininas na era pré-internet já traziam os famosos ‘antes e depois’ com receitas milagrosas para perder peso — mas a forma como a startup o propõe chama a atenção. A empresa mistura o atendimento personalizado proposto por concorrentes como a Clínica Seven, por exemplo, com tecnologia. É isso que permite à empresa crescer e permitir, ao longo do tempo, que cada vez mais médicos consigam atender a um número maior de pacientes, em interações pontuais e certeiras. 

Funciona assim: por meio de um aplicativo, clientes têm acesso a atendimentos periódicos com médicos da equipe da startup e conseguem traçar, de forma personalizada, qual será o melhor caminho para o próprio emagrecimento, além de acompanhar resultados. Nesse processo, passam, é claro, por nutricionistas, mas também por médicos de ciência comportamental, e têm acesso a um bate-papo para tirar dúvidas a qualquer horário. 

“Dietas são burras, têm dia para começar e para acabar. Nós não fazemos dieta, mas ensinamos as pessoas a se conhecerem. Fazemos um diagnóstico de como cada paciente tem sua rotina e de qual é a melhor alimentação para cada um deles”, diz Rauen, à Exame Invest. Além do plano alimentar com um nutricionista, o paciente tem acesso a consultas com cientista comportamental e planos de exercícios, tudo dentro de um mesmo lugar. Isso sem falar em uma balança de bioimpedância desenvolvida pela própria healthtech, que conecta os resultados mostrados nela ao app e, dessa forma, permite acompanhar o progresso não só em perda de peso (mas também de gordura, por exemplo), tudo em um mesmo lugar.

Para garantir a recorrência de clientes, em um modelo de negócio que é baseado em assinaturas, a Liti conta com a tecnologia. Além de mensagens periódicas para lembrar o paciente de consultas (cuja frequência começa maior e vai diminuindo ao longo do tempo), a healthtech consegue acompanhar o paciente periodicamente e oferecer apoio a ele antes mesmo que peça. 

“A cada dia eu coleto mais informações de pacientes. Isso torna possível, nos nossos sistemas, traçar curvas de como cada um se comporta e identificar quando começam a fugir do esperado. Isso nos permite contatá-los proativamente e gerar confiança de que aqui, há um time de saúde preparado para atender à demanda do paciente. Além disso, por meio desse contato, a gente consegue identificar que não necessariamente ele precisa de uma consulta a todo tempo, mas tirar uma dúvida rápida, ter um feedback. É na capacidade de sintetizar tudo isso que entra nossa capacidade de dados”, diz Vilela.

Além de ter a balança — que fica na casa dos clientes — conectada ao aplicativo, a Liti também conta com outros fatores para gerar recorrência no aplicativo, como o fatod e que funciona como um marketplace de alimentação congelada, suplementos e educadores físicos. O propósito é criar um ecossistema capaz de garantir que o paciente não se sinta desestimulado a seguir um plano alimentar por não encontrar o que precisa, facilitando a jornada para ele.

E quanto tudo isso custa, no fim do dia? Ao fazer um cadastro no aplicativo, o paciente tem acesso a sete dias gratuitos, mas, depois disso, passa a pagar uma mensalidade de R$ 700, que cai progressivamente até chegar aos R$ 150 depois de alguns meses — conforme as interações assíncronas aumentam. Por enquanto, a empresa não divulga números de receita e faturamento, mas se limita a afirmar que cresce 20% ao mês e que já eliminou mais de duas toneladas de gordura dos pacientes atendidos.

Um deles, inclusive, é o próprio co-fundador. Quando a Liti nem sonhava em existir, há três anos, Fernando Vilela, em meio à rotina acelerada da Rappi, procurou Eduardo Rauen para uma solução a seu cansaço. Sem burnout, mas com sobrepeso, o executivo foi orientado a seguir um plano alimentar, que lhe permitiu perder 25 quilos.

“Quando o Edu me falou que eu precisaria perder tudo isso, desacreditei. Mas, já tinha pagado a consulta, resolvi seguir por pelo menos um mês. Nesse período, perdi oito quilos, e me animei a seguir o resto. Minha vida mudou completamente. Meu rendimento no trabalho, compreensão sobre o que é estar inflamado… Foi tudo muito profundo. E dessa relação médico-paciente surgiu uma amizade, que depois virou sociedade”, diz Vilela.

O MVP era bastante simples: funcionava com WhatsApp e Google Meets, em um investimento que “não passou do milhão”, segundo Vilela. Com o tempo, conhecendo as dores dos pacientes, a empresa evoluiu até se tornar o que é hoje, um time multidisciplinar e com mais tecnologia. Atualmente, a empresa conta com 45 pessoas, sendo 15 profissionais de saúde.

Trabalhar a retenção na empresa é um ponto fundamental e, para garanti-la, os sócios fizeram uma ampla pesquisa no mercado, de olho em tratar o médico como um cliente interno da empresa. Hoje, a Liti afirma ter uma remuneração maior do que a de todos os pares no mercado. Cada médico que entra na empresa é pós-graduado e passa por um intenso tratamento antes de atender aos pacientes: além do treinamento, faz testes, depois atende a equipe e só depois vai para o atendimento ao público. 

Uma curiosidade: apesar de o público feminino ser o mais afetado por propagandas de emagrecimento, a distribuição dele na Liti é quase igualitária: hoje, 52% dos clientes são mulheres. Esse é um dos fatores que leva a empresa a ter todo o corpo clínico (com exceção do sócio) formado por médicas. O outro tem mais a ver com construir um ambiente de trabalho mais parecido com o de uma startup do que com o de um hospital, com uma gestão mais horizontal.

Manter um clima saudável é um dos pontos que a empresa quer manter, em meio ao projeto de expansão. Com dinheiro em caixa, a Liti planeja melhorar o produto, investir em tecnologia e em capacidade de dados. O foco, no fim do dia, é fazer com que cada médico consiga impactar cada vez mais pessoas, com os dados a seu favor. “Se a gente não usar tecnologia, vamos ser só mais uma clínica, e esse não é nosso propósito. Nossa meta é chegar aos 100 milhões de clientes”, diz Vilela.

Espaço a ser explorado, não falta. No Brasil, a taxa de obesidade passou de 11,8% para 19,8% entre 2006 e 2018, numa alta de 67%. Isso tudo tem, é claro, um custo. Uma pesquisa conduzida pela Unifesp nesta ano apontou que o valor gasto pelo SUS em 2019 para cuidar de excesso de peso e obesidade foi de R$ 1,5 bilhão, o que equivale a 22% do gasto anual direto com doenças crônicas não transmissíveis no Brasil. O ‘sonho grande’ da Liti é ajudar a reduzir esse número cada vez mais, com um serviço de qualidade. 

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